Brasil ‘importa’ golfista da África para o Pan-Americano de Toronto

ITALO NOGUEIRA, ENVIADO ESPECIAL
TORONTO, CANADÁ (FOLHAPRESS) – O destino do golfe brasileiro dos Jogos Pan-Americanos de Toronto teve origem na indústria do fumo em Santa Cruz do Sul (RS). Foi gestado no Zimbábue e atualmente está na África do Sul.
O pouco de Brasil que resta na carreira de Adilson da Silva, 43, é o passaporte e o português com sotaque carregado. Foi o suficiente para que o melhor brasileiro no ranking profissional do esporte fosse “resgatado” para participar do Pan.
Filho de um carpinteiro e uma faxineira, Silva ganhava uns trocados como caddy (pessoa que transporta os tacos do golfista) na década de 1980 nos campos de golfe de Santa Cruz, conhecida como a “capital do fumo” no Brasil. Foi onde conheceu o fazendeiro do Zimbábue Andy Edmondson, que costumava fazer negócios na região.
“Depois da escola a gente ia lá procurar bola e ajudar a carregar [os tacos] para ganhar um dinheirinho”.
Após alguns anos, o fazendeiro o convidou para jogar profissionalmente no Zimbábue, origem de ídolos do esporte como Nick Price e Mark McNulty. Para convencê-lo, lhe deu um saco com 14 tacos.
“Eu só tinha um antes e passei a ter 14. Não sabia o que fazer”.
Adilson chegou à África com um dicionário inglês-português embaixo do braço. Conta que decorou mais de 3.000 palavras para tentar se comunicar. “Pelo menos sabia o que eu estava dizendo”.
Enquanto aprendia a se comunicar, ele descobria o que fazer com os 14 tacos que ganhou. Profissional desde 1994, ele se tornou o brasileiro com a melhor colocação no ranking profissional na história, chegando à 257ª posição no fim de 2013. Atualmente está na 313ª.
Foram as pontuações no circuito africano, asiático e europeus que lhe garantiram a vaga no Pan. Mas também são essas competições que sustentam a vida de sua família na África do Sul, motivo pelo qual teve de ser convencido pela Confederação Brasileira de Golfe a ir a Toronto.
O Pan não conta pontos no ranking. A medalha de ouro não lhe garante qualquer premiação, que nos maiores torneios dá até US$ 200 mil ao vencedor.
“É um sonho representar o país. Mas tenho que continuar jogando torneios e fazendo pontos. Mas o Nico me abriu as orelhas”, disse Adilson.
O resgate foi feito pelo diretor-técnico da confederação, Nico Barcelos, que fez alguns telefonemas insistentes para convencê-lo a participar do Pan.
“Golfistas têm muitos gastos. Ao jogar uma Olimpíada, você não ganha dinheiro. Vai receber uma medalha. Para pessoas que estão acostumadas a jogar torneios com premiação em dinheiro, jogar uma Olimpíada… A não ser que você tenha jogado já uma Olimpíada, é difícil ter a dimensão de ser um campeão olímpico”, disse Barcelos.
Adilson tem dois patrocinadores que lhe dão um salário por mês para manter-se em atividade. Mas são das premiações no esporte que vêm seu principal rendimento.
Para jogadores que não estão no topo, o golfe funciona quase como uma aposta. O atleta tira do bolso os gastos para inscrição, viagem e hospedagem, o que gira em torno de US$ 3.000. Só os que ficam acima da metade da tabela ganham algum prêmio.
“Se for eliminado, perde dinheiro”, disse Adilson.
No primeiro dia de disputa do golfe no Pan, na quinta-feira (16), Adilson dividiu a 11ª colocação com outros três atletas -o outro brasileiro, André Tourinho, que faz parte do ranking amador, terminou em quarto, empatado com outros sete. São 32 golfistas participando. A medalha será definida no domingo (19).
A definição sobre quem participará da Olimpíada sairá em julho do ranking profissional. Adilson é perseguido de perto por outro brasileiro, Lucas Lee, que está na 330ª posição.
Se classificado, Silva terá dois apoios de peso. A mãe, que nunca o viu jogar no Brasil, e o fazendeiro Andy Edmondson, de quem foi caddy em Santa Cruz do Sul (RS). “Ele disse que, se eu for para a Olimpíada, quer carregar para mim. Achei muito legal”.

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