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Cachorro Grande: nova pelagem

O cachorro não para de crescer. São sete discos e 17 anos de carreira. Se considerarmos que, assim como para os caninos, cada ano no rock and roll pode equivaler a dez, então o cachorro é grande e experiente.

No caso da Cachorro Grande, os anos na estrada representaram amadurecimento e a busca por inovação, o que permite à banda se manter jovem e atual.

O experimentalismo está presente em Costa do Marfim, lançado em 2014. No próximo trabalho, que deve ser lançado em julho, o grupo trocará novamente a casca – ou a pelagem. Será mais pesado, resume o vocalista Beto Bruno, em entrevista exclusiva ao Diário do Sudoeste, por telefone.

Divulgação
Banda se apresenta em Pato Branco no dia 1º de abril

Cimentada sob a tríade Beatles, Rolling Stones e The Who, a banda não para de se reinventar e  procurar novos timbres. Não ficamos parados nisso. Tentamos buscar coisas novas, explica Beto.

O tempo na estrada permitiu a Cachorro Grande saber aonde quer chegar, afirma o vocalista. Não somos mais aqueles músicos gurizinhos que entravam no estúdio e não sabiam como gravar. Hoje metemos mais a mão e a banda é cada vez mais nossa.

Uma banda revitalizada, conforme Beto Bruno, após abrir, em Porto Alegre, o show de um dos principais nomes da história do rock, os Rolling Stones. Foi o momento mais especial da nossa carreira.

É com essa energia que a Cachorro Grande vem a Pato Branco, no dia 1º de abril, no Aria, quando apresentará os principais hits da carreira e também as composições de Costa do Marfim.

Confira abaixo a entrevista completa com Beto Bruno.

Diário do Sudoeste – Como foi abrir o show de uma banda ícone do rock e que tem influência forte no som de vocês?


Beto Bruno – Foi a coisa mais incrível que aconteceu na nossa vida; o momento mais especial da nossa carreira, que vai refletir nos nossos trabalhos daqui para frente. Fora o lado como músico, tem aquela coisa de fã que nutrimos pelos Rolling Stones.

Quando eu era pequeno, o sonho era assistir aos Rolling Stones. Parecia um sonho distante. Mas abrir um show deles é uma coisa que eu nunca me permiti nem sonhar. Acompanhamos a turnê inteira. Já fomos a outros países assistir. Sempre corremos atrás deles por aí.

E como foi o contato com a banda?


Em todo o país que eles passam, reservam cinco minutos para encontrar a galera. Com a gente eles ficaram quase dez minutos dentro de uma sala. Pudemos conversar, encostar, tirar fotos. Foram os dez minutos que passaram mais rápidos. Não entendemos nada. Tinha cinquenta anos de rock’n’roll olhando para nós. Os caras que inventaram nosso emprego. Nossos mestres.

O último disco da Cachorro Grande é mais experimental que os anteriores. Essa inovação aconteceu naturalmente, era algo que vocês buscavam ou surgiu durante a gravação?


Um pouco dos dois. Sempre nos cobramos fazer coisas diferentes. Admiramos isso na discografia de outras bandas. Veio músicas maiores que poderíamos experimentar mais. Tivemos maior tempo dentro do estúdio. A grande diferença foi que arranjamos as músicas juntos nas gravações. Não fizemos ensaios. Não chegamos com nada pronto. As letras terminaram enquanto eu gravava vozes. Solos e bases foram feitos na hora. O material é muito mais fresco, orgânico e contagiante. E libertador. É um disco mais experimental, sem estar preso a nada.

A banda está preparando novo disco. O trabalho manterá essa pegada mais experimental ou será mais cru, como nos primeiros álbuns?


É outro disco que começamos sem saber o que iria acontecer. Mas não tem nada a ver com Costa do Marfim. É aonde queríamos chegar, já que estamos nessa onda de fazer de dois em dois anos um disco diferente. É um pouco mais pesado, tem mais bateria, menos eletrônico. Ao mesmo tempo, as eletrônicas são eletrônicas mesmo, com a batera tocando junto, como faz o Kasabian. O que faltou um pouco no disco anterior foi a batera tocando junto com o eletrônico, como faz o Kasabian.

O disco vai ser lançado por gravadora?


Estamos lançando pela Coqueiro Verde. Faz tempo que estamos namorando e é nossa primeira experiência com eles. Total liberdade artística. O Edu K produziu o disco [também produtor de Costa do Marfim] e está terminando as mixagens. É o grande parceiro que encontramos nesses anos. É o primeiro produtor que mete a mão na massa junto com a banda. Foi o cara que abriu nossa cabeça, sem estar com os arranjos prontos.

Vocês apresentam um programa na internet, o Lunático na TV. Não é a primeira vez que vocês mostram os bastidores da banda – houve experiências na MTV. Como é abrir as cortinas para que as pessoas vejam um pouco da intimidade do grupo?


O Lunático é como se fosse a continuidade daquilo [MTV]. Mas com nossa visão. É um material mais verdadeiro. Nos sentimos muito à vontade. Começou numa brincadeira há um três anos, quando filmamos os momentos de camarim. E acabou que o público começou a curtir. Nos profissionalizamos, compramos umas câmeras legais e começamos a filmar desde quando saímos de casa. Depois fazemos edição e mandamos. Nós fazemos tudo. Tem um roteiro que não existe, que inventamos na hora.

Cada documentário que aparece das bandas que curtimos vamos correndo atrás. Tentamos tratar a galera que acompanha a Cachorro Grande da mesma maneira que gostaríamos que nossos ídolos fizessem com a gente. É o máximo de carinho que podemos dar para eles.  

Recentemente, o Dinho Ouro Preto comentou que é assutador ver o rock nacional ficar de direita. Vocês não entram muito nessa seara política, mas você tem uma opinião sobre isso?


Tenho sim, porque também sou um trabalhador e estou na estrada. Não está fácil para ninguém, mas não acho que tenha de ser a dar opiniões. Eu divido com minha família e amigos mais próximos, mas nunca vou tomar partido em relação a isso. Não quero influenciar as pessoas dessa maneira. Você pode fazer da tua arte o que você quiser.

Em todo o caso o país vive uma era de extremos, maniqueísta e polarizada. Aproveitando esse clima, queria perguntar para você: Beatles ou Rolling Stones?


(Risos). Essa é foda. Vamos falar sobre o momento atual. Os Rolling Stones, porque abriram uma porta para nós que nunca imaginamos que existia. Isso deu uma guinada de energia na banda super contagiante e espero que isso nunca passe.

Vocês estão há bastante tempo na estrada e naturalmente mais maduros. O que mudou na atitude e na maneira de pensar da banda e como isso tem impacto no processo de criação de vocês?


Tudo acaba aparecendo nas letras. Escrevemos muito sobre o cotidiano. Nunca são letras fantasiosas. Nossa música muda porque nós mudamos. De tempos em tempos trocamos a casca, porque isso nos revitaliza como músicos e como pessoa. Não somos mais aqueles músicos gurizinhos que entravam no estúdio e não sabiam como gravar. Hoje metemos mais a mão e cada vez mais a banda é nossa. Nos envolvemos. Não dávamos muita importância para as redes sociais, e hoje vemos que é algo que temos de fazer o máximo. Não nos preocupávamos muito com a qualidade dos discos, e hoje não paramos de conversar sobre isso. Uma mixagem pode demorar o mesmo tempo de uma gravação, de tão minuciosos que estamos. Os equipamentos que vão para a estrada são muito mais bem cuidados. Conseguimos ter os equipamentos que não tínhamos antes e não dávamos importância; ter uma equipe que cresce com a gente e está na estrada todos esses anos.

O que vocês vão apresentar em Pato Branco?


O show está no final da turnê, então está bem mais afiado. Vamos mostrar um set de Costa do Marfim e o resto do show é como se fosse uma coletânea das principais músicas da carreira da banda.

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