Geral

Clássica e acessível

Projeto de Lins, interior de São Paulo, mostra que é possível desenvolver música clássica no Brasil e que iniciativas parecidas podem estar ao alcance de mais municípios.

Do alto do palco, no meio da apresentação que trouxe clássicos de Beethoven, Mozart, Händel e Carlos Gomes, o maestro dispara: Investe-se não sei quantos mil para contratar shows de sertanejo universitário, mas para uma orquestra, que é possível pagar bem menos, nunca tem dinheiro. Tem de ter público para tudo, mas precisamos valorizar a cultura.

Recebeu aplausos – um dos muitos daquela noite de 31 de outubro de 2015, em São Lourenço do Oeste, município de 21 mil habitantes no Oeste Catarinense. Ao final da apresentação, a orquestra seria ovacionada. Como gesto de gratidão, daria ao público versão de My Way, eternizada na voz de Frank Sinatra. Do jeito próprio da Orquestra Sinfônica Jovem de Lins.

Misturar clássicos eruditos com versões de músicas populares é uma das características da orquestra. É um instrumento, segundo o maestro João Fernando Paluan, para segurar a atenção da plateia, e assim trabalhar na formação musical. Se eu fizer concerto de uma hora tocando só Bach, não terei público. Tem de tocar algo que esteja próximo e intermear com músicas eruditas sérias. Cada música da apresentação é contextualizada, ao microfone, pelo gerente Rubens Meneguello e pelo próprio maestro, para que as pessoas possam entendê-la. Não queremos público passivo. As pessoas têm de saber o que está sendo tocado. Poucos tiveram o privilégio de acompanhar ao vivo a magia de uma orquestra sinfônica. Elas costumam tocar nos grandes centros a preços de ingressos caros para boa parte da população.

Estúdio Luís Henrique Boneti
Orquestra tem mais de 50 participantes

Fazendo a diferença, alguns projetos no Brasil, como da Orquestra Jovem de Lins, estão quebrando esse paradigma e universalizando o acesso à cultura. De quebra, o projeto atua socialmente, na formação de novos músicos. E oferece cultura à população do município durante o ano todo, através de um roteiro de apresentações. A Orquestra de Lins não cobra nada para se apresentar. Apenas os custos com a logística. Não são poucos. São 80 pessoas, de várias cidades e faixa etária diferenciada. Fazer com que todos estejam presentes é difícil e caro. Andamos 820 quilômetros [para estar em São Lourenço]. Tem de ter alimentação e hospedagem, afirma o maestro.

Solenidades, datas comemorativas, a Orquestra de Lins é acionada para uma série de eventos e já faz parte do cotidiano da cidade. Formada há cerca de quatro anos, é financiada pela prefeitura e pela Lei Rouanet, que permite a destinação de recursos através de deduções fiscais. O orçamento anual é de R$ 442 mil. No último ano, o Minc (Ministério da Cultura) autorizou o projeto a captar R$ 1,2 milhão. Dentro dessa margem, a orquestra viabilizou R$ 250 mil junto ao Banco Bradesco. O restante é financiado pela prefeitura. A maior parte dos gastos é em folha de pagamento. Todos os músicos são remunerados.

Lazer profissional. Ninguém toca de graça. Para mim, música é profissão, enfatiza Paluan. Os ensaios são realizados aos sábados à tarde. A orquestra subsidia transporte aos participantes, lanche e manutenção dos instrumentos. A orquestra tem 53 músicos. É completa, com sessão de cordas (violinos, violas, violoncelos e contrabaixos), madeiras (flautas, oboés e fagotes) metais (trompas, trompetes, trombones e tubas) e percussão (tímpanos, tambor, bombo, caixa clara, xilofone, triângulo, pratos e carrilhão). Os músicos são de Lins e também de cidades vizinhas. Além dos custos fixos, um dos principais investimentos ocorreu em equipamentos. Só o nosso jogo de tímpano custou R$ 40 mil, e é o mais barato. O bombo sinfônico custou R$ 11 mil.

Estúdio Luís Henrique Boneti
Maestro Paluan defende mais eventos de música clássica

Sina, talento e dedicação. A música clássica para Giovani Brasil, 22, surgiu por acaso. No começo ele queria bateria, mas entrou numa oficina de violoncelo e foi paixão à primeira vista. Anos depois, ingressou na Orquestra de Lins, quando o projeto se iniciou. A orquestra abriu-lhe portas e perspectivas. Desde 2013, Giovani integra um dos principais conservatórios de música clássica do país, em Tatuí-SP, no qual deve permanecer por mais cinco anos, até concluir a formação. Assim como ele, Lins – uma cidade de 71 mil habitantes a 450 km da capital paulista – mudou com a orquestra e hoje respira música clássica. Eu me apresentava para 30 pessoas, que eram os pais. Hoje são mais de 1.500 pessoas apenas nas apresentações que fazemos na cidade. A orquestra, diz, o fez conhecer outros tipos de música e perceber que poderia ir além. Além disso, tem de ter o hábito de estudar mais o instrumento. Exige muita disciplina, concentração, foco e paciência. Além dos estudos no conservatório, Giovani é acadêmico de Pedagogia e projeta o futuro em duas perspectivas: entrar numa grande orquestra – no Brasil ou no exterior – ou atuar na inicialização de crianças. Seja qual for o destino, sabe que está fadado a se aperfeiçoar. Quem estuda música clássica, estuda até morrer.

Clássicos da Primavera em São Lourenço

Este ano, foi a terceira vez que São Lourenço do Oeste-SC realizou o evento Clássicos da Primavera, no qual tocou a Orquestra e Coro Jovens de Lins. A inciativa partiu da empresa Enele e atualmente tem como patrocinador também a Casaredo, além de quatro apoiadores. Através dos clássicos, podemos pensar na história da humanidade, em todo o trabalho que foi feito para ser desenvolvido e na importância que teve na sociedade, afirma o diretor administrativo da Casaredo, Flademir Echer. É um investimento em cultura e uma retribuição para a sociedade para quem nos apoia e uma forma de agradecimento. O Centro de Eventos de São Lourenço foi elaborado exatamente para apresentações desses tipo. Tem de ser utilizado.

O maestro Rafael Vargas, de São Lourenço, intermediou a vinda da Orquestra de Lins. Ele disse que a escolha, além do aspecto musical, foi para mostrar que é possível fazer um trabalho profissional com jovens.

Estúdio Luís Henrique Boneti
Apresentação em São Lourenço lotou auditório e emocionou público

É o que ele tenta emplacar em São Lourenço, onde mantém um grupo de cordas, o V4. Vargas pretende encorpar o grupo, passar para uma orquestra de câmara e, quem sabe um dia, torna-se uma sinfônica, aliada a oficinas musicais. É um sonho que não pode levar sozinho. Seria preciso apoio do poder público e de empresários, de acordo com ele.

É importante colocar os jovens para estudar algo interessante. A música trabalha muito com a parte cerebral e espiritual. Ocupar as crianças com algo bom seria um meio de tirá-las da inércia. E se tem orquestra, tem eventos. Uma coisa puxa outra e toda a cidade ganha.

O Centro de Eventos de São Lourenço tem capacidade para 700 pessoas e estava lotado no dia da apresentação.

Oficinas

Além da orquestra, o município de Lins desenvolve oficinas musicais de cordas e de sopro. Desde 2014, cerca de 200 alunos passaram pelo programa. A prefeitura tenta captar mais recursos através da Lei Rouanet para que possa oferecer também formação em metais.

As oficinas aliam teoria e prática e são de longa duração. A formação de um aluno está prevista para demorar cinco anos. A maioria dos participantes tem em torno de 15 anos.

Institutos oferecem cursos de inicialização musical e mantêm orquestra de câmara

Escala para uma orquestra sinfônica em Pato Branco

Os institutos Prosdócimo Guerra e Theophilo Petrycoski desenvolvem projeto de inicialização musical e mantêm uma orquestra de cordas em Pato Branco. Que no futuro pode se tornar uma orquestra sinfônica, afirma o professor de violino, viola e regente Evandro Luiz Batista.

Através da Lei Rouanet e do apoio de várias empresas locais, os institutos conseguem captar cerca de R$ 700 mil por ano. Em torno de 30 alunos, entre 7 e 17 anos, participam da orquestra que, de acordo com o regente, está entre as cinco melhores do Paraná no nível estudante.

O instituto oferece aos alunos os instrumentos e o aprendizado em violino, violoncelo, contrabaixo de arco e viola clássica, além de flauta.

O grupo toca em alguns eventos do município. Segundo o regente, os custos limitam o calendário de apresentações. A logística para levar a orquestra tem custo um pouco alto.

Na opinião do regente, para que a música clássica tenha mais reverberação no município é preciso ampliar a divulgação. Algumas pessoas não têm conhecimento dos projetos que realizamos. Nossa região é mais cultura de gaita e violão.

Segundo ele, o objetivo é que a orquestra de câmara (apenas com os intrumentos de cordas) evolua para uma sinfônica. Temos material humano. A base, que são as cordas, está formada. É questão de tempo e de apoio.

Evandro defende o ensino da música clássica e diz que ela transforma positivamente os alunos. É um trabalho social. A música os faz ficar melhores e oferece muitas oportunidades.

Além da orquestra de câmara, em Pato Branco há um quarteto de cordas, sexteto de câmara e uma camerata.

Vinicius Henrique Batista, 16, entrou na orquestra dos institutos há cinco anos, mas desde o 4 toca violino. No ano que vem, dará um passo importante na carreira dele: fará um curso de aperfeiçoamento em Pádua, na Itália, através de uma bolsa conquistada durante o Festival Internacional de Música, em Francisco Beltrão, e que será custeada por uma escola de música.

O violinista pretende seguir carreira dentro da música: cursar Belas Artes, em Curitiba, e ingressar numa orquestra conceituada. Não me vejo fazendo outra coisa.

Clique para comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Para cima