Cony esbanja bom humor ao falar sobre romance

MARCO RODRIGO ALMEIDA, ENVIADO ESPECIAL
PARATY, RJ (FOLHAPRESS) – Uma hora antes da hora marcada (10h30 desta quarta, 2) já havia uma fila grande para ver Carlos Heitor Cony.
O escritor inaugurou a programação da Casa Folha na Flip, no centro histórico de Paraty. Poucos minutos depois de as portas serem abertas, os cerca de 120 lugares do imóvel foram rapidamente preenchidos -muitos ouviram a palestra do lado de fora da casa.
Cony, 89, chegou em carreira de rodas e foi muito aplaudido. Há dois anos, no Festival de Frankfurt, ele levou um tombo que afetou seriamente sua capacidade de locomoção. O bom humor, contudo, permanece inalterado.
“Tem muita vantagem em ser cadeirante. As pessoas te dão passagem, quase estendem um tapete vermelho onde você chega. Se soubesse disso, teria sido cadeirante dez anos antes”, ironizou, sob fortes aplausos da plateia.
O debate com Cony tinha como título A Arte do Romance. A mediação foi realizada por Sérgio Dávila, editor-executivo da Folha de S.Paulo.
Cony fez no início um apanhado da trajetória do romance, tema no qual ele próprio tem larga experiência como leitor e artistas -começou a publicar romances em 1958.
“Eu tenho para mim uma ideia polêmica”, disse Cony no início do debate. “Tenho certeza de que o que importa no romance não é o conteúdo, mas a forma. O conteúdo não muda. Há uma repetição em todos os livros, vocês podem reparar.”
Como um dos muitos exemplos, citou três romances clássicos do século 19, a era de ouro do gênero: o russo “Anna Kariênina” (1877), o francês “Madame Bovary” (1857) e o português “O Primo Basílio” (1878).
“Os três tratam de mulheres insatisfeitas, cheia de anseios, casadas com homens honestos, íntegros, mas sem graça. O enredo é o mesmo, mas cada um se passa em um lugar diferente, em contexto profundamente diferente. O romance sobrevive pela forma.”
Um exemplo mais próximo disso, para ele, foi o romance nordestino dos anos 1920 e 1930, com romances como “A Bagaceira” (1928), de José Américo de Almeida, “O Quinze” (1930), de Rachel de Queiroz, “Vidas Secas” (1938), de Graciliano Ramos, e “O Menino de Engenho” (1932), de José Lins do Rego.
“Num exame bastante geral, nós vemos a mesma base -a seca, a vida dura no Nordeste, o desprezo do governo por aquela região-, mas a forma era bem diferente. Lins do rego era mais desleixado, cometia muitos erros de português. Já o Graciliano era mais austero com a linguagem.”
“Afinal de contas”, completou Cony, “o homem brasileiro, russo, americano, no fundo é o mesmo homem. Os governos são sempre os mesmos. Roubam, fazem escândalo, roubam da Petrobras”.
Cony citou que três escritores fundamentais para a transformação do romance no século 20 -Franz Kafka, James Joyce e William Faulkner- dos quais é difícil escapar da influência.
“Kafka suprimiu a lógica. Um homem acorda e virou um inseto. Em Faulkner você também encontra passagens muito absurdas, mas numa forma perfeitamente lógica. E em Joyce a forma é completamente revolucionária.”
O colunista da Folha também falou longamente de dois de seus autores brasileiros favoritos, Lima Barreto e Machado de Assis.
“O Lima nunca chegou aos pés de Machado, mas como inventor de tramas, de conteúdo, era muito melhor”, comparou.
“Lima foi muito desprezado por ser mulato, de origem pobre, mas teve uma formação muito boa. Sabia bem matemática. É um dos poucos escritores que sabem matemática. É difícil encontrar um escritor que saiba somar dois mais dois”, brincou.
Nos minutos finais do encontro, encerrado com fortes aplausos, Cony demonstrou mais uma vez sua autoironia, desta vez em tom bem kafkaniano.
“Machado também tinha uma formação cultural muito forte. Fundou a Academia Brasileira de Letras nos modelo europeu. Por isso copiou para o fardão da academia o modelo dos soldados de Napoleão. Eu me sinto muito mal quanto tenho que usar. Pois não sou soldado nem napoleônico. Me sinto na verdade um gafanhoto.”

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