Demétrio Magnoli critica modelos de esquerda e direita no Brasil

MARCO RODRIGO ALMEIDA. ENVIADO ESPECIAL
PARATY, RJ (FOLHAPRESS) – O clima político voltou a esquentar na tarde desta sábado (4) na Casa Folha na Flip.
O sociólogo e colunista da Folha de S.Paulo Demétrio Magnoli comentou a trajetória política do país nos últimos 20 anos.
Ele lança agora, pelo selo editorial Três Estrelas (Grupo Folha), o livro “A Hora e a História”, reunião com textos publicados na Folha de S.Paulo, e nos jornais “O Globo” e no “O Estado de S. Paulo”.
“Relendo os textos, descobri que um dos eixos temáticos do livro é a discussão do deslocamento dos conceitos de direita e esquerda no Brasil e na América Latina. Esse deslocamento faz com que não tenhamos nada parecido com as famílias de partidos de direita e de esquerda da Europa.”
De forma sintética, Demétrio explicou que os tradicionais partidos de direita europeus são pautados pelo princípio da liberdade -social, política, econômica.
Já os de esquerda possuem como base a ideia de igualdade social e de direitos.
Na América Latina, por outro lado, ele avalia que a direita ficou marcada pela imagem da oligarquia e pela sirene da ditadura militar. A esquerda, por sua vez, carrega o peso do caudilhismo e, ao contrário do modelo europeu, é nacionalista e antiamericana.
“Ou seja, até hoje a direita é uma cadeira política vazia. E a tentativa de preenchê-la acabou em desastre. Essa tentativa se chama DEM [partido Democratas]”, comentou, arrancando gargalhadas da plateia. “E a esquerda também é uma cadeira política vazia no Brasil.”
Demétrio foi bastante aplaudido ao lançar críticas ao PT e ao PSDB. “O PSDB desistiu há vários anos de se desenvolver como partido de centro esquerda, que quer economia eficaz, rede de proteção ao povo, preza valores liberais. Ele se conformou em ser um partido anti-PT e acabou reduzido ao tamanho do inimigo. E o PT também desistiu, para se acomodar no poder.”
Em seguida Demétrio defendeu que o PT, ao contrário do que prega, não foi um ruptura histórica na história do país, mas sim uma restauração do modelo implantado nos governos de Getúlio Vargas.
“A verdadeira ruptura, que durou pouco, e foi apenas um parêntese, foi no governo FHC.
Quando Lula chega ao poder, ele muda o registro de sua linguagem. Antes de chegar ao poder, ele falava no conflito de classe. No poder, ele passa a falar de povo. O conflito passa a ser entre povo e elite, e não mais entre trabalhador e empresário. O lulismo é uma restauração, em vários sentidos, do Brasil inventado por Vargas.”
Como exemplo, citou que o PT desenvolve há 12 anos um capitalismo de Estado, associação entre os órgãos públicos e as grandes empresas privadas, na qual estas recebem subsídios e proteção estatal para se projetarem.
Essa política de varguista, afirmou ele, foi mantida pela ditadura militar e retomada e modernizada pelo PT. “Por conservarem uma tradição da política brasileira, falo que o PT é um partido conservador.”
“É um erro imaginar que a crise que vivemos é apenas uma crise do governo Dilma, que é apenas uma crise do PT. O que está em crise é uma certa forma de ver o Brasil”, comentou. “Agora a questão é: vamos sair da crise reiterando o que somos por tanto tempo ou desistindo de ser o que somos e finalmente produzindo uma ruptura que não seja um parêntese?”
Demétrio, contudo, não enxerga nenhum partido que esteja ao menos tentando dialogar com a indignação popular que tomou o país.
Perto do fim, uma pessoa da plateia pediu que ele explicasse melhor a ruptura que Fernando Henrique Cardoso teria representado.
“Nisso não há um julgamento valorativo. É uma avaliação histórica objetiva. O governo dele rompeu com a tradição do capitalismo de Estado, com a ideia de união com outros países emergentes para combater a influência dos Estados Unidos no mundo. E havia uma linguagem de que o Estado e o mercado têm lugares diferentes.”

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