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Endoscopia ajuda no tratamento da hidrocefalia

O acúmulo de líquidos no cérebro é um problema que pode ocorrer em qualquer idade, e há diversos fatores que podem desencadeá-lo. Menos invasiva que que a cirurgia de derivação, a cirurgia endoscópica é uma alternativa para alguns casos.

Nosso cérebro produz, constantemente um líquido chamado cefalorraquidiano, ou líquor, que circula por cavidades chamadas ventrículos. Entre suas funções estão proteger o encéfalo e a medula de danos; remover resíduos do metabolismo cerebral; e fornecer ao cérebro hormônios necessários para seu funcionamento adequado. Depois de cumpri-las, esse líquido é reabsorvido naturalmente pelo organismo.

Quando há produção excessiva de líquor ou problemas na absorção, a pressão dentro do crânio aumenta, causando de dores de cabeça e vômito até danos bem mais graves, que comprometem funções cerebrais. Esse problema é chamado de hidrocefalia, e pode acometer pessoas de todas as idades pelas mais diversas causas.

“Hidrocefalia é um acúmulo anormal de líquido cefalorraquidiano, o líquor, que é produzido e absorvido constantemente pelo cérebro. Quando ocorre um desequilíbrio entre a produção e absorção, há um acúmulo nas cavidades cerebrais, chamadas ventrículos. O aumento de volume desse líquido no cérebro é o que se chama de hidrocefalia, que leva a uma hipertensão intracraniana, que é um quadro potencialmente grave, de complicação neurológica”, explica o neurocirurgião André Beheregaray.

Incidência

A hidrocefalia não é um problema comum, mas determinados grupos estão mais suscetíveis à doença.

Em relação às hidrocefalias agudas, o médico cita que fatores congênitos podem levar uma criança intra útero, por exemplo, a nascer com o problema, seja por uma má-formação cerebral ou mesmo uma infecção. 

Outras vezes, a hidrocefalia pode ocorrer em qualquer faixa etária decorrente de um processo infeccioso inflamatório, como as meningites, ou como consequência de um AVC (Acidente Vascular Cerebral) ou tumor no cérebro. Também, após um traumatismo craniano grave, o paciente pode apresentar acúmulo de líquido nos ventrículos. “Tudo isso pode levar a uma obstrução da drenagem do líquido ou dificuldade de sua absorção pelo organismo”, explica Dr. André.

Nestes casos de hidrocefalia aguda, os sintomas são dor de cabeça forte, vômitos, dificuldade visual,  eventualmente crises convulsivas. “É um quadro que pode levar o paciente ao coma, com risco de morte”, alerta. 

Outra possibilidade é a hidrocefalia de pressão normal, muito comum nos idosos. “É um problema de evolução lenta, mais arrastada. No idoso, ocorre insidiosamente uma dificuldade de absorção do líquido no cérebro, e que pode levar anos para desenvolver a hidrocefalia, trazendo características de um quadro demencial, com perda da capacidade de memória, de orientação, dificuldade de equilíbrio, de marcha, as vezes até com incontinência urinária”, define o especialista. 

Tratamento

O tratamento para a hidrocefalia é, em última análise, cirúrgico. Quando se trata de uma quadro mais leve, que não causa tantos sintomas, é possível usar medicação para tentar diminuir a produção do líquor, mas na maioria das vezes isso acaba tendo um efeito parcial até que o paciente evolua para a cirurgia. 

Para isso, há diferentes alternativas cirúrgicas. 

A mais comum, e que é usada há muito tempo até os dias de hoje, é a colocação de um dreno no cérebro conectado com o interior da cavidade abdominal, por onde o líquido escoa e é drenado pelo organismo. “Na cirurgia de derivação, é colocado um catéter no cérebro até a cavidade abdominal para que o líquido seja desviado até a cavidade abdominal onde vai ser absorvido. Esse é o tratamento padrão”, explica o neurocirurgião.

Outra possibilidade é um método mais novo e avançado, onde o paciente é operado através da endoscopia cerebral.  “Nessa técnica, fazemos um orifício no crânio e entramos com uma câmera dentro do ventrículo cerebral, onde fazemos uma comunicação entre aquela parte do cérebro que está retendo líquido e uma cavidade mais da base do crânio. Dessa forma, o líquido retido ganha um caminho novo para sua drenagem sem a necessidade de colocar uma válvula de ligação até o abdômen”, resume.

Essa técnica cirúrgica, apesar de menos invasiva, só pode ser realizada em determinados tipos de hidrocefalia. “A cirurgia por endoscopia é indicada para as hidrocefalias obstrutivas, onde há uma obstrução anatômica dentro do cérebro, e há a necessidade de se abrir um caminho alternativo para esse líquido ser eliminado”.

Em termos de segurança, a endoscopia é compatível com a técnica da válvula, e os maiores risco são de hemorragia cerebral ou infecção pós-operatória, como em qualquer cirurgia no cérebro. 

“A endoscopia é menos invasiva porque ela fica restrita ao cérebro. Já na derivação, há a necessidade de manipulação, além do cérebro, também no abdômen. Mexendo em um só local, diminui o risco cirúrgico”, define Dr. André.

Além de tratamento para hidrocefalia, a endoscopia também pode ser utilizada para biópsia cerebral. Quando o paciente tem um tumor na cavidade ventricular que está obstruída, por exemplo, pode-se fazer uma biópsia da lesão. A técnica também é utilizada no caso de cistos cerebrais. “Há algumas malformações cerebrais que chamamos de cisto aracnóideo. Desenvolve um acúmulo de líquido anormal em uma parte do cérebro onde ele não deveria estar localizado. Podemos fazer uma abertura desse cisto através da endoscopia”, comenta o médico.

Além das cirurgias endoscópicas no cérebro, o neurocirurgião lembra que estão se desenvolvendo várias técnicas de endoscopia de coluna, que é uma situação diferente, mas também está atrelada à neurocirurgia.    

Pós-operatório 

Dr. André diz que o pós-operatório da hidrocefalia, tanto da válvula quanto da endoscopia cerebral, em geral, é sem complicações. “O paciente fica um ou dois dias no hospital para observar a evolução, mas não requer muitos cuidados além dos tradicionais para qualquer procedimento cirúrgico, como repouso e medicação sintomática”, finaliza.

André Beheregaray é neurocirurgião. CRM – 25650.
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