Escritor irlandês Colm Tóibín fala da relação entre sexualidade e literatura

SYLVIA COLOMBO, ENVIADA ESPECIAL
PARATY, RIO (FOLHAPRESS) – Na principal mesa do primeiro dia de Flip, o autor irlandês Colm Tóibín leu um poema de Elizabeth Bishop escrito no Brasil (“Santarém”), falou da relação entre sexualidade e literatura e do impacto que “Macunaíma” e a obra de Mário de Andrade tiveram entre escritores irlandeses.
“Pelo fato de a Irlanda ter uma forte tradição literária, temos dificuldade com a experimentação. E ‘Macunaíma’ causou muita surpresa por conta disso”, afirmou.
Em mesa mediada pelo mexicano Ángel Gurría-Quintana, o autor falou de seu mais recente romance, “Nora Webster” (Companhia das Letras), que conta a história de uma mulher de 48 anos que fica viúva na Irlanda dos anos 60. A obra, semi-autobiográfica, se passa na pequena cidade em que Tóibín cresceu. Inspira-se no que ocorreu à sua mãe após a morte do pai de Tóibín, quando ele tinha 12 anos.
“Quando se fala de anos 60, se pensa em drogas, sexo, e rock. Em Enniscorthy eu não via nem drogas nem rock. Sexo devia ter, mas eu não ficava sabendo de nada.”
Extrovertido e falante, Tóibín divertiu a plateia com piadas e referências a suas passagens pelo Brasil.
Contou que, em sua primeira visita ao país, teve dificuldades em encontrar um hotel em São Paulo, perguntando de porta em porta, e que se surpreendeu com a normalidade aparente com que brancos e negros caminhavam pela rua.
Ainda sobre o romance, afirmou ser uma obra política, que trata das tensões de seu país com a Inglaterra, mas que prefere abordar a história por meio de detalhes pequenos da vida dos indivíduos. “É no detalhe pequeno de um determinado personagem, em seus silêncios, que é possível falar de um certo período sem ter de descrever o panorama completo.”
Sobre a fama de retratar bem os personagens femininos, Tóibín disse que isso se devia ao fato de ter observado muito, na infância, sua mãe e suas irmãs conversando, detalhadamente e com muita seriedade, coisas como roupas, a vida dos vizinhos.
“As conversas eram de uma complexidade incrível mesmo com esses temas que parecem banais. Aí, um homem chegaria para dizer ‘tal gol foi incrível’, e outro responderia: ‘na verdade, o segundo gol foi incrível’. Os homens são assim, repetem a si mesmos, não dizem nada”, concluiu, provocando risos na plateia.
Tóibín comentou o grande envolvimento que teve ao pesquisar para escrever “On Elizabeth Bishop”. E que admira como a autora “não menciona a dor, e nessa contenção mostra como ela está presente todo o tempo”.
Sobre sua própria tentativa de ser poeta, quando jovem, Tóibín disse que foi desestimulado porque na Irlanda o meio é muito exigente. “Não temos Hollywood, não temos Wall Street, então temos muita poesia. Se você for ruim, é estimulado a parar. Foi o que aconteceu comigo.”
O escritor também comentou o hábito de sentar-se sempre numa cadeira desconfortável para escrever. “Como escritor, meu trabalho é me concentrar. Comer muito não é boa ideia, beber nem pensar. E muito menos estar sentado numa poltrona confortável.”
Sobre a aprovação do casamento gay por meio de um referendo, na Irlanda, Tóibín contou que se envolveu na campanha. E que seu sucesso se deveu ao fato de as pessoas terem tentado convencer as outras por meio de suas histórias particulares, e não a partir de análises e exposições mais teóricas.
“E o mais engraçado é que começamos a ver ministros, políticos que jamais imaginávamos que pudessem ser homossexuais sentindo-se encorajados a dizer publicamente, saindo do armário um a um.”

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