Glamour associado à cocaína a torna cara e provoca mortes, diz jornalista

SYLVIA COLOMBO, ENVIADA ESPECIAL
PARATY, RJ (FOLHAPRESS) – “A cocaína é uma droga super-estimada. O efeito que provoca não é equivalente ao glamour que possui. Esse marketing positivo faz com que fique mais cara. Com isso, os empresários da droga vão enriquecendo, e mais gente seguirá morrendo.”
Enfático, o jornalista britânico Ioan Grillo entusiasmou a plateia ao questionar o modo como as drogas são debatidas pela sociedade e pela imprensa. Com o mexicano Diego Enrique Osorno, pediu uma mudança na abordagem geopolítica do assunto.
“É preciso entender que cada grama consumida num pub em Londres está relacionada com uma criança sendo recrutada para o crime organizado na América Latina”, completou.
A dupla substituiu o italiano Roberto Saviano, que cancelou sua participação no evento devido a problemas de segurança -ele foi jurado de morte pela máfia italiana desde que publicou o livro “Gomorra”, há nove anos. Antes da apresentação, foi mostrado um trecho de um vídeo em que Saviano pede desculpas por não comparecer. O vídeo completo será exibido neste domingo (5), na mesa de encerramento do evento.
Osorno tratou da estrutura dos cartéis, temas que abordou em livros que escreveu sobre os Zetas e o cartel de Sinaloa. “O que vimos em filmes como ‘O Poderoso Chefão’ já não existe mais, agora o que existe é puro capitalismo. No México temos empresas, algumas muito horizontalizadas, que não correspondem mais à ideia que tínhamos de quadrilhas. Tanto que se prende um ‘capo’ como Joaquín ‘Chapo’ Guzmán, e seu grupo [o cartel de Sinaloa] continua operando, vendendo droga a 57 países e matando como sempre.”
Radicado no México há 15 anos, Grillo contou atrocidades que viu em suas viagens pelo país. “Covas coletivas, muitos degolados. Percebi que tinha que entender como seres humanos eram capazes dessas atrocidades.”
Em sua opinião, isso é consequência do recrutamento de gente muito jovem pelos narcotraficantes. “É muito fácil vender a adolescentes humildes a ideia de que serão soldados. E se assumem que são soldados, vão obedecer ordens. Quando matam por ordem de alguém, é como se sentissem com menos responsabilidade, por isso a crueldade não os choca tanto.”
Ao explicar porque há tantas decapitações no México, Grillo diz que, em suas investigações, levantou que a prática passou a ser comum em meados dos anos 2000, quando TVs mexicanas exibiram vídeos completos de decapitações da Al Qaeda. “É por isso que temos de ter um debate muito sério sobre o modo como tratamos a violência na imprensa”, diz.
Já Osorno destacou os trabalhos de ex-presidentes como Fernando Henrique Cardoso, do Brasil, Cesar Gaviria, da Colômbia, e Vicente Fox, do México, em divulgar a ideia de que a droga deve ser tratada em outros âmbitos que não apenas o criminal, além de introduzir a ideia de debater a legalização.

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