Lírio Ferreira prepara filme sobre poesia oral com Lira e Cláudio Assis

GABRIELA SÁ PESSOA
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – “Alguém conhece esse poeta?”, pergunta às lentes do diretor pernambucano Lírio Ferreira o cantor e poeta Lira, também pernambucano, em cena do curta-metragem “4 Kordel” (2014), que será exibido na quinta-feira (30) no 10º Festival de Cinema Latino-Americano.
Segundos antes, Lira -no filme, sob o personagem metafórico do tempo- ouvira os seguintes versos, em um terreiro na divisa entre Paraíba e Pernambuco:
“A tinta que o tempo bota sobre a cabeça da gente/ É duma que não desbota, permanece eternamente/ Tem gente que compra tinta, mete na cabeça e pinta/ Só pra nos causar enganos/ Mas é besteira do povo/ Depois, sai cabelo novo com a tinta branca dos anos”.
Alguém conhece esse poeta? É na luta contra o desconhecimento da poesia criada por cordelistas e cantadores dessa “abertura do sertão, uma inundação de poesia” que Lírio Ferreira ergue seu “4 Kordel”, para documentar uma arte que, por vezes, não tem registro e acaba se perdendo pela memória. O filme, no entanto, não identifica cada poeta que entra em cena, antes espalha suas vozes e versos nos sertões por onde rodou.
“A [região da] serra do Teixeira, na Paraíba, e o vale do rio Pajeú, em Pernambuco, não se sabe explicar direito, não tem explicação lógica, mas é um vale da poesia. Vários cordelistas, poetas, são dessa região. É incrível”, comenta o cineasta.
Montado em quatro planos-sequência -entremeados por animações a partir de versos dos autores locais-, o curta será exibido amanhã pela primeira vez fora do Museu do Cais do Sertão, no Recife, para o qual foi originalmente concebido.
“Essa pesquisa, a coisa do cordel, é muito ampla. Sempre uma coisa está se misturando com a outra. O projeto veio como encomenda [do museu], mas quando entramos no
universo, sentimos que era bem mais amplo”, diz Ferreira, diretor de “Sangue Azul”.
Tão amplo que anda rendendo o documentário “Ouro Velho”, nome provisório para o projeto que Lírio Ferreira agora dirige com Cláudio Assis, com Lira novamente em frente às câmeras.
Ainda sem previsão de estreia, a produção entra em fase de montagem no segundo semestre de 2015.
“É uma ideia que transborda, vai além do cordel até a poesia cantada, o repente. É impressionante, você vê os grandes gênios da poesia oral”, conta Ferreira. “Tem poetas que não terminaram nem o primeiro grau mas fazem versos com termos da medicina.”
As conversas do documentário serão conduzidas pelo músico Lira, um dos formadores do Cordel do Fogo Encantado, que, nascido em Arcoverde, no Pernambuco, cresceu inundado pela influência da poesia oral.
“Eu vivi nessa escola, onde a filosofia deles marcou profundamente a minha estrutura de metáfora. Isso foi formador do que faço até hoje”, diz o músico.
A semente de “Ouro Velho”, “4 Kordel”, será exibida com outros cinco curtas de Lírio Ferreira, cineasta homenageado pelo Festival de Cinema Latino-Americano. Na sessão que começa às 19h desta quinta também passarão “Assombrações do Recife Velho” (2001), “Duelo” (1992), “O Elástico” (1992), “O Poeta Americano” (2015) e “A Espiritualidade e A Sinuca” (2011).

CURTAS DE LÍRIO FERREIRA – FESTIVAL DE CINEMA LATINO-AMERICANO
QUANDO: qui. (30), às 19h
ONDE: Memorial da América Latina, av. Auro Soares de Moura Andrade, 664, tel. (11) 3823-4600
QUANTO: grátis
CLASSIFICAÇÃO: 12 anos

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