Minorias falam menos de 1 minuto no cinema, avalia teste sobre racismo

GABRIELA SÁ PESSOA
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – O ator afro-americano Dylan Marron, 27 anos, cansou de ouvir dos agentes que não tinham certeza se haveria um papel para ele nas produções ou que, por causa de sua cor, nunca chegaria a protagonizar um filme romântico.
“As histórias de amor não têm cor. O que acontece é que o elencos dos filmes são automaticamente escalados com atores brancos, como se não houvesse outro modelo possível”, conta ele à reportagem, por telefone, em meio ao que descreve como “um turbilhão midiático” ao seu redor.
Marron tem sido procurado desde a última semana, quando começou o projeto “Every Single Word”, em que publica vídeos nos quais reúne e condensa, em uma “superedição”, todas as falas de personagens não brancos (negros, asiáticos, latinos) em sucessos de Hollywood.
O resultado é impressionante. Em “Moonrise Kingdom”, de Wes Anderson, por exemplo, a conta não passa de 10 segundos. Ou seja, nos 90 minutos do longa, apenas 0,17% do tempo é dedicado à voz de personagens não brancos.
O próprio Marron -atualmente envolvido em projetos de seu grupo de teatro em Nova York- edita os vídeos para o projeto que, como faz questão de ressaltar, não tem nenhum rigor científico.
“Busco uma variedade de produções, algumas são blockbusters, outros são filmes indie celebrados ou foram feitos há uma década”, comenta. “E todos eles têm uma coisa em comum: mesmo em histórias universais, que não têm nada a ver exclusivamente com a cultura e o universo brancos, priorizam atores brancos no elenco principal.”
Ele cita como exemplo o fenômeno de audiência “A Culpa É das Estrelas”, “um filme lindo, humano e real”. “Você já leu o livro? Em nenhum momento a raça dos personagens é definida”, questiona ele.
Segundo a avaliação de Marron, a personagem dra. Maria (Ana Dela Cruz) é a única não branca no filme. Ela fala durante cerca de 44 segundos, no total.
Até agora, o pior caso analisado pelo “método Marron” é o de “Caminhos da Floresta”, em que nenhum personagem de etnia diferente tem qualquer fala prevista no roteiro.
SISTEMA
As negativas que recebeu em audições o fizeram repensar não sobre a própria carreira, mas sobre a própria indústria do entretenimento. Uma pesquisa publicada em 2014 pela Universidade da Califórnia apontou que as agências de talentos de Hollywood pouco fazem para superar as desigualdades de representação em termos raciais.
Menos de 10% dos roteiristas, atores e diretores agenciados pelas maiores empresas do setor em 2011, segundo o estudo, eram identificados com outras origens étnicas nos Estados Unidos. Na televisão, o jogo não é mais justo: apenas 1,4% dos criadores e 5,5% dos atores, vinculados às agências pesquisadas, não eram brancos
Na última edição do Oscar, a falta de diversidade étnica entre os indicados às principais categorias de atuação -todos brancos- foi alvo de crítica por entidades ligadas ao setor.
Na ocasião, Cheryl Isaacs, primeira mulher negra a presidir a Academia, respondeu: “Nos últimos dois anos, demos passos maiores do que nunca rumo à diversidade, admitindo novos membros. Pessoalmente, eu adoraria ver e trabalho para que exista uma maior diversidade cultural entre os indicados, em todas as categorias.”
Para Dylan, que diz não estar tentando “acusar um filme específico de racista, mas dizendo que, sim, existe um racismo sistêmico”, muitas vezes é difícil levantar a voz e atacar o problema.
“No fim do dia todo mundo só quer estar empregado. É difícil julgar por que atores não se posicionam sobre essas questões”, comenta ele, que diz estar recebendo ligações para novos projetos “depois de todo o hype” que o projeto criou sobre sua figura. Por enquanto, ganhou elogios do escritor Junot Díaz, americano de família dominicana e autor de “A Fantástica Vida Breve de Oscar Wao”. “Que jovem brilhante. E está falando por todos nós”, escreveu Díaz em seu perfil no Facebook.
Marron comenta ter ficado feliz com o elogio e com os novos contatos, mas diz que as coisas melhorarem para ele não resolve o problema. “Se você não se vê representado no mundo da ficção, você acha que não existe. É uma anulação simbólica. Construímos muito da nossa identidade baseados nas imagens que projetam de nós -trabalhos específicos, papéis específicos.”

Clique para comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Para cima