Não podemos reduzir obra de Mário à homossexualidade, diz professora na abertura da Flip

SYLVIA COLOMBO, ENVIADA ESPECIAL
PARATY, RIO (FOLHAPRESS) – “Não podemos mais nos calar sobre a homossexualidade de Mário de Andrade, mas também não podemos reduzir sua obra a isso. É nesse fio que temos de nos equilibrar”, disse a professora de literatura da USP Eliane Robert Moraes, nesta quarta (1º), na mesa de abertura da Festa Literária Internacional de Paraty, que vai até domingo (5).
Para uma Tenda dos Autores lotada, Moraes abordou o aspecto erótico da obra do escritor, acompanhada pela crítica argentina Beatriz Sarlo e pelo professor de filosofia da PUC-Rio Eduardo Jardim.
A professora desenvolveu a relação entre o silêncio e o sexo nas obras de Mário de Andrade, pontuando que “a matéria da erótica literária está naquilo que se imagina”. Acrescentou que, embora existam resquícios da homossexualidade do autor em vários de seus textos, “não podemos falar de uma obra homossexual, uma obra gay”.
Antes dela, iniciou a conversa a crítica portenha, Sarlo, que comparou as vanguardas brasileira e argentina do século 20, afirmando que, apesar de ambas terem buscado uma identidade nacional naquela época por meio das artes, as escolhas feitas em cada país foram muito diferentes.
“Mário fez coisas que não passariam na cabeça de um argentino, que um argentino consideraria extravagante, como por exemplo fazer investigações musicais em território nacional. O tango era algo para se escutar, apenas. E [Jorge Luis] Borges nem gostava de tango”, disse, arrancando risos da plateia.
Ela ainda ressaltou que enquanto escritores brasileiros insistiram na questão da mescla, no caso argentino a busca foi por encontrar algo próprio do Rio da Prata, diferenciando o idioma espanhol falado aí daquele usado na Espanha.
E acrescentou que, aos argentinos daquele período, não ocorreu viajarem pelo interior do país para conhece-lo melhor. “Os argentinos viajavam era para a Europa”, disse, causando mais risos entre o público.
Antes da apresentação, Mauro Munhoz, diretor da Fundação Casa Azul, que realiza a Flip, comparou a trajetória de Mário de Andrade com a dos artistas que vieram morar na cidade praiana nos anos 60. “Naquela época, eles vieram para cá atraídos pelo espírito de sociabilidade e de manifestação cultural que se encontrava aqui. Foi o mesmo espírito que moveu Mário em suas viagens pelo Brasil.”
Já o curador do evento, Paulo Werneck, chamou a atenção para o fato de o evento hoje reunir “pessoas que não veríamos juntas numa mesma festa. Há um clima de discordância amigável do qual a gente tem se esquecido no Brasil de hoje.”

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