Parecia um velório enorme, conta poeta que viu Maracanazo

GUILHERME SETO
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Um dos maiores poetas brasileiros em atividade, Armando Freitas Filho, 75, autor de “Fio Terra” e “Lar”, tinha 10 anos de idade em 1950, quando fez parte da massa de cerca de 200 mil torcedores que acompanharam a derrota do Brasil para o Uruguai que entraria para a história como o Maracanazo.
Surpreendido com a notícia da morte de Ghiggia, principal personagem daquela tarde, Freitas lamentou.
“Ele continuou vivendo por toda a vida aquela vitória [no Maracanazo]. Eu fico com pena dele, porque eu gostaria que ele vivesse por mais tempo a vitória. Sinto por ele uma simpatia dolorosa”, disse, solidarizando-se com a família do ex-jogador uruguaio.
Sobre a tarde do Maracanazo, Freitas conta que o jogo era dado como resolvido pelos torcedores.
“Meu sentimento em 1950 foi de estupefação. Eu estava com meu pai e minha prima, os três nas cadeiras azuis do Maracanã. O jogo contra o Uruguai era favas contadas. O Brasil vinha avassalador. Ganhou de 7 a 1 da Suécia e de 6 a 1 da Espanha”, conta Freitas sobre as expectativas naquele dia.
“No entanto, a Celeste Olímpica sempre foi uma camisa de luta, de muita bravura.”
Ele relembra com detalhes os lances cruciais da partida.
“Nos primeiros minutos do segundo tempo, o ponta direita brasileiro, Friaça, que jogava no São Paulo, fez 1 a 0 para o Brasil. O estádio veio abaixo e a vitória era dada como mais certa ainda. Foi o jogo dos pontas direitas, o Friaça de um lado e o Ghiggia do outro”, começa.
“Era uma tarde até fria no Rio de Janeiro. Tinha um ventinho, me lembro bem. Pouco depois do gol do Brasil, o Ghiggia partiu pela ponta direita e centrou para a área, onde estava Schiaffino, um grande meia esquerda uruguaio, que marcou o gol e empatou”, continua.
“Uns 10 minutos depois, Ghighia fez a mesma jogada pela direita, veio correndo, e o goleiro Barbosa pensou que ele fosse fazer a mesma jogada do primeiro gol. Barbosa afastou-se um pouco da trave esquerda e ele chutou exatamente ali”, diz Freitas.
Segundo o poeta, foi um chute imperfeito que selou o destino brasileiro.
“Ele não chutou bem, chutou muita grama junto. Foi um chute imperfeito. Talvez se ele tivesse chutado bem, a bola nem teria entrado. Talvez subisse. De fato, a bola entrou entre Barbosa e a trave esquerda.”
Diferentemente da reação histérica de muitos torcedores que presenciaram o 7 a 1 no Mineirão em 2014, segundo Freitas, a reação foi mais contida, mas não menos sofrida.
“Foi um silêncio até o fim do jogo. Não houve no estádio o que há hoje de empurrar o time, da torcida reagir. Foi uma espécie de trauma. Todos ficamos calados”, relembra.
“Parecia um velório enorme, de muitos carros e ônibus, sem uma buzina. Era como se estivéssemos parados. Eu não queria chegar em casa. Seria muito ruim ter que ficar com aquilo. Eu voltei deitado no banco de trás do carro”, acrescenta.
Sessenta e cinco anos depois, ele conta que chegou a se ferir em meio ao susto e à lamentação.
“Naquele tempo, as crianças usavam calça curta. E eu cortei a minha perna na borda da cadeirinha azul, que era toda de ferro, quando saltei após o gol do Uruguai. Foi uma derrota com sangue e tudo.”
Até julho de 2014, o Maracanazo foi mantido intocável como maior fracasso da história da seleção brasileira. Com o 7 a 1 para a Alemanha no Mineirão, essa posição começou a ser questionada por alguns. Mas não por Freitas.
“Acho o Maracanazo pior, até porque eu estava lá presente. Quanto ao 7 a 1, acho que nunca vi um time bom levar três gols em seis minutos. E foi pior ainda quando perdemos para a Holanda na decisão do terceiro lugar. Fiquei frio em casa. Não houve abatimento igual àquele de 1950”, conclui.

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