Poetas de projeto no Complexo do Alemão levam a arte da periferia à Flip

ANNA VIRGINIA BALLOUSSIER, ENVIADA ESPECIAL
PARATY, RJ (FOLHAPRESS) – A mesa “Falando Alemão”, a segunda desta quinta (2) na Tenda dos Autores da Flip, reuniu três autores que construíram um “Arquivo X” particular.
Os três participaram das oficinas promovidas pelo Laboratório Setor X, no Complexo do Alemão, no Rio, e se apresentaram na mesa em homenagem ao poeta paratiense Zé Kléber.
Geovani Martins, 23, quis ser “o rojão mais explosivo” das oficinas.
Era o segundo dia de aula, e os jornais manchetavam uma tragédia.
Como exercício poético, o professor Carlito Azevedo (que mediou o debate) sugeriu que cada aluno assumisse um personagem do fatídico episódio em que o cinegrafista Santiago Andrade, da Band, morreu atingido por um desses artefatos, durante um protesto contra a alta da tarifa do ônibus, em fevereiro de 2014.
Eles podiam ser a vítima, o garoto que arremessou a bomba, o policial… Geovani perguntou: “Posso ser o rojão?”.
E escreveu uma poesia assumindo esse incomum eu lírico, que saiu da fábrica e foi parar na casa de um moleque cuja biblioteca ia “de Harry Potter a Clarice Lispector” e que dizia coisas como “passe livre” e “não vai ter Copa”.
“Eu me chamo artefato e te digo uma coisa: vida de rojão não é fácil”, Geovani começou a declamar sua poesia na Flip.
Por fim reflete: “O momento da nossa morte é o mais importante da nossa vida. Com os humanos é parecido, muitos só brilham depois de morto”.
Geovani conta que cresceu numa “casa onde não havia leitores”, mas tomou gosto pela coisa quando a avó passou a comprar gibis da “Turma da Mônica”. E assim virou a página.
MERENGUE E PERRENGUE
A alemã Katja Hölldampf, que vive no Rio desde 2013, mora no morro do Chapéu Mangueira e também foi aluna da oficina. Ela produziu um “patchwork” de impressões sobre a vida na cidade e o compartilhou com o público.
Foi do “merengue/perrengue” ao “cheiro de fritura no podrão de Marechal Hermes”. Falou sobre “aplicar Reiki no trânsito para fluir” a “fumar maconha no ônibus de ar condicionado para Caxias”. Não esqueceu “o motorista de ônibus que para num ponto aleatório para comprar churros”, nem dos “turistas perplexos no Parque Lage”.
Afinal, para a alemã no Alemão, o Rio “é como aqueles chicletes coloridos que perdem o gosto”. Vicia mesmo assim.
SOBRE SER SALMÃO
Ex-morador de Manguinhos, na Baixada Fluminense, Deocleciano Moura Faião, 50, embarcou no conselho que ouviu no laboratório: “Não deixar que a grande mídia legitimasse meu discurso”.
Já vivendo em Bangu, subúrbio carioca, ele decidiu seguir moradores que foram removidos de Manguinhos. Filosofou sobre o “barraco que quer virar história” em seus escritos.
“Minha cabeça é meio fora da caixinha”, disse Deocleciano, o Deo, que arrancou gargalhadas da plateia ao se comparar a um peixe fora d’água.
“É foda ser salmão. Vou continuar nadando nessa maré, não dá pra voltar pra caixinha.”
IMAGINE
Carlito confessou que, no primeiro dia de aula, “achava que vinha algo esperado”: jovens ansiosos por contar a vida na comunidade. Mas encontrou lá “uma explosão de imaginação”, com interesses que iam de pop coreano a Segunda Guerra Mundial.
Os três alunos que participaram da Flip pretendem agora se unir e lançar uma publicação com seus trabalhos.
Para a editora do “Setor X”, Anna Dantes, o objetivo é “inverter esta noção de periferia”. Quem define o que é centro e o que é resto, afinal, somos nós. “E a cultura tá lá, borbulhando.”

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