Recorde de poluição em Pequim vira rotina e alvo de piadas

“Quem sai de casa para um encontro amoroso em dia tão poluído só pode achar o amor verdadeiro. A fumaça no ar é tamanha que dá para economizar a compra do cigarro.”

“A pessoa sai para passear com o cachorro, e não consegue ver o cão no meio de tanta neblina.”

Essas são algumas das brincadeiras que circularam pelas redes sociais chinesas desde esta terça-feira (8), quando Pequim entrou, pela primeira vez, em alerta vermelho para a poluição do ar. Piadas à parte, esse é um tema que deixa os chineses bem descontentes.

Da manhã de terça até o meio-dia desta quinta (10), as fábricas mais poluentes e as construções tiveram os trabalhos suspensos, boa parte das escolas dispensou os alunos e um rodízio rígido tirou metade dos carros particulares de circulação. A venda de máscaras e purificadores de ar para residências teve um salto, informou a imprensa local.

Enquanto isso, o “smog” (neblina e fumaça) encobriu Pequim e regiões vizinhas. O índice da qualidade do ar alcançou 400 às 18h de terça (8h em Brasília), só caindo para menos de 100 depois das 11h desta quinta (1h em Brasília), segundo as medições divulgadas pela embaixada americana na China.

O ar é tido como “bom” quando o índice vai até 50; a partir de 51, pessoas sensíveis já podem começar a manifestar problemas de saúde.

Apesar do ineditismo do alerta vermelho, a poluição do ar desta semana foi moderada se comparada ao início da semana passada, quando se falava em um “arpocalipse”, mas a poluição do ar foi classificada pelas autoridades “apenas” como alerta laranja -2014;o segundo pior, atrás do vermelho.

Na segunda (30), o índice da qualidade do ar alcançou 609, deixando Pequim imersa em uma neblina amarela e de cheiro desagradável.

“Na semana passada, não disseram que ia ser tão ruim, mas no WeChat [rede social chinesa] as pessoas colocaram fotos e avaliaram que o governo deveria recomendar que as crianças ficassem em casa”, diz Lucy Lu, 31, que trabalha com moda na capital.

Dong Liansai, que trata de clima e energia no braço do Greenpeace para o Leste da Ásia, concorda que a pressão social foi uma das razões que levaram o governo da cidade a emitir um alerta maior dessa vez. Também houve pressão, avalia ele, do governo central para que a cidade usasse as medidas emergenciais definidas há três anos.

A poluição é um tema caro às famílias chinesas. Em março desse ano, um documentário chinês se tornou viral ao detalhar as origens da poluição, seus impactos na saúde e as responsabilidades dos envolvidos. Depois de milhões de visualizações em poucos dias, o “Under the dome” foi censurado e sumiu da internet chinesa.

“O governo está tentando melhorar [os níveis de poluição], mas não vejo mudança”, disse à Folha uma mestranda de 25 anos que não quis se identificar. “Nós todos estamos acostumados à essa situação, índice 100 ou 600 é o mesmo, é ruim para a saúde de qualquer jeito.”

Charlene Gu, 24, também não viu anormalidade alguma no alerta vermelho. “É como se fosse um alerta de tufão.” Mas a chinesa, que vive há um ano na capital e tem planos de partir em breve, diz não entender “por que as pessoas não vão embora de Pequim”.

Dong Liansai, do Greenpeace, afirma que análises mostram que 2015 foi um ano de poluição menos intensa em Pequim e outras grandes cidades em comparação com o passado recente, mesmo se considerados os picos de poluição da temporada de frio.

“Todos sabemos que o carvão é uma importante fonte para os poluentes do ar, temos estudos ligando o carvão ao ‘smog’ e às emissões de PM2.5 [partículas finas] na China.” A entidade defende que o governo inclua, no plano para os próximos cinco anos do país, um teto nacional para o consumo do combustível.

Na tarde desta quinta (10), a capital voltou a ter céu azul. Até quando, no entanto, ninguém sabe. “Quando o céu de Pequim fica limpo, as pessoas sentem como se ganhassem um presente”, diz Du Xiaoyu, 24, que trabalha em uma consultoria.

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