Sobre penitenciárias femininas, livro ‘Presos que Menstruam’ será filme

ANGELA BOLDRINI
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Em uma das vezes que Gardênia foi presa, estava grávida de sete meses. Em quatro dias, entrou em trabalho de parto.
Nascida a filha Ketelyn, não conseguiu “nem olhar os dedos da mão e do pé, para ver se não tava faltando nenhum” antes de a menina ser levada pelo Estado.
A história é uma das muitas contadas no livro “Presos que Menstruam”, da jornalista Nana Queiroz, lançado em julho pela editora Record.
E Gardênia é a protagonista que inspira o filme de ficção homônimo que a autora, junto com a Of Produção Cultural, começa a filmar em 2016.
“BLACK IS THE NEW ORANGE”
Os planos de Nana para o filme, que está em fase de captação de recursos (recebeu, este ano, R$ 100 mil do Fundo de Amparo à Cultura do Distrito Federal, via edital, e tem como meta atingir R$ 150 mil) são ambiciosos.
“A gente quer transformar em um piloto de série e vender para um grande canal, ou até a Netflix”, afirma ela.
Se é inevitável a comparação com “Orange is the New Black”, famosa “dramédia” do serviço de vídeos por demanda, que retrata uma prisão feminina em Nova York, as semelhanças são poucas.
“Seria muito mais ‘black’ do que ‘orange’,” diz Nana. “O sistema carcerário brasileiro é drama e não comédia.”
Os presídios visitados pelo livro não lembram em nada as limpinhas instalações por onde Piper Chapman, protagonista da série americana, vive seus dramas.
“Sabe o que eu achei ontem na comida? Bosta de rato. Juro por Deus!”, diz Gardênia a certa altura. Comida podre, fria ou bichada é apenas um dos problemas relatados a Nana pelas presas.
Tortura policial, a falta de absorventes íntimos, que as faz recorrer a miolo de pão, superlotação, falta de atendimento psiquiátrico -que leva ao suicídio uma das moças- e o abandono por parte da família e do parceiro são alguns dos fatores que unem as histórias de Camila, Glicéria, Júlia, Vera, Safira e Marcela.
Das prisões visitadas por Nana, desde o Centro de Reeducação Feminino, no interior do Pará, até a Penitenciária Madre Pelletier, em Porto Alegre, apenas nesta a entrada se deu com autorização do Estado. “Eles fazem de tudo para você não entrar”, diz. “Claro que esse foi o melhor presídio que eu visitei.”
Nos outros, teve que fazer amizade com familiares de presos, com médicas das unidades prisionais e até se candidatar para um trabalho voluntário para entrar, em um périplo que durou de 2010 até 2014.
No caminho, passou por Tremembé, penitenciária conhecida por receber presas cujos crimes ficaram célebres, como a parricida Suzane Von Richthofen, que ganhou um capítulo próprio, ou Anna Carolina Jatobá, na época recém-condenada pelo assassinato da enteada, Isabella, 5.
Segundo dados de 2013 do Ministério da Justiça, apenas 6% dos crimes cometidos por mulheres são violentos. “Elas são profundas exceções”, afirma Nana.
A grande maioria cometeu os chamados crimes “de suplementação de renda”, ou seja, aqueles com dinheiro envolvido, como o tráfico.
Entre as presas do livro, há sequestradoras, ladras e traficantes, há quem seja acusada de mandar matar o marido e há, é claro, homicidas, condenadas ou não.
Gardênia é uma delas. Condenada por tráfico e um misterioso “um-dois-um” (121 é o número do homicídio no Código Penal), cumpriu pena em Tremembé, que recebe também as presas que o próprio crime rejeita, e nunca quis contar a Nana quem havia matado -a jornalista teve de descobrir sozinha, lendo o processo.
Não à toa, é sua a história escolhida para virar filme, e, quem sabe, série.

PRESOS QUE MENSTRUAM
AUTORA Nana Queiroz
EDITORA Record
QUANTO R$ 40 (294 págs.)­

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