Spotlight: uma vitória do jornalismo

A conquista do principal Oscar de 2016 por Spotlight premia não apenas um grande filme com um elenco magistral, no qual brilham Michael Keaton e Mark Ruffalo. Consagra, sobretudo, o bom jornalismo.

Dos concorrentes ao Oscar, Spotlight era o mais impactante em termos políticos, o que pode ter pesado na escolha como melhor filme do ano. Trata-se de um longa biográfico, que narra uma investigação jornalística, desenvolvida por um time de repórteres, que abalou as estruturas da Igreja Católica.

Divulgação
Time de repórteres de Spotlight, que após longa e detalhada investigação desvendou um escândalo de pedofilia na Igreja Católica

O filme se passa entre 2001 e 2002 em Boston, uma cidade americana de porte médio (645 mil habitantes). A história sacode o vespeiro que é a questão da pedofilia na igreja e mostra que jornalismo é fundamental, quando feito com independência, estrutura e determinação em investigar.

Spotlight é honesto. Elenco e roteiro dão verossimilhança à história, sem se valer de velhos clichês que costumam envolver histórias desse tipo, normalmente conduzidas por personagens de repórteres caricatos e deslumbrados. O roteiro é sóbrio e ajuda a entender os bastidores de uma profissão difícil, compreendida por poucos. Pressões e porta na cara de jornalista estão lá, ameaças, além de tentativas de acobertar informações que deveriam ser de acesso público.

O The Boston Globe possui uma equipe de repórteres especializados em investigação, chamada de Spotlight. Eles podem ficar meses debruçados num assunto e não conseguir êxito. Ou então puxar o novelo de uma grande história, de impacto mundial, a exemplo dos escândalos na igreja. E ter a coragem de publicar. Mostrando os fatos, sem contemporizar, com o destaque que merecem ter. A despeito dos conchavos que uma instituição poderosa pode sugerir.

A pauta sobre pedofilia na igreja já estivera à porta do The Boston Globe em outras ocasiões, sem receber atenção. Foi preciso chegar um novo editor, Marty Baron, vindo de outra cidade, por isso descontaminado pelo tipo de relações locais. É ele quem incentiva a equipe a levar o assunto adiante.

Em uma passagem marcante, o arcebispo sugere um acordo de cavalheiros ao editor, para que não prossiga com a pesquisa.

– A cidade desponta com a aproximação de suas grandes instituições – diz o arcebispo.

– Obrigado. Sou da opinião de que um jornal só desempenha bem suas funções se for independente – rebate, de forma direta, Marty Baron.

E ele, direção e repórteres perseveraram no tema, após um ano de apuração, para o bem do jornalismo e das centenas de crianças que foram violentadas ou poderiam vir a ser não fossem os fatos se tornarem públicos.

Uma cobertura desse tipo revela o que há de essencial no jornalismo: investigar e produzir histórias que possam causar transformação social.

Mas a história só foi possível pela coragem dos repórteres e da própria direção do jornal – não apenas em publicar, mas em financiar uma equipe de investigação, o que custa caro. Times como o Spotlight estão em extinção nas redações dos médios e grandes jornais, que tentam reduzir custos de todas as maneiras.

Spotlight mostra aos não iniciados que jornal diário sério não é jogar confete. Ao menos nas publicações que pretendem ser relevantes e, por isso, tendem a ter um futuro possível, qual seja a plataforma. Ao passo que o jornalismo mambembe, preguiçoso, subjugado pelas conveniências, voltado a interesses menores, esse será difícil vender para leitores cada vez mais críticos e detentores de um universo de informações disponível sem custos na internet e redes sociais.

Os jornais importantes não têm de trazer grandes escândalos todos os dais. É impossível. Mas tem de estar preparados para cobri-los, tendo disposição de investigá-los sem aceitar a primeira explicação. Sem se contentar com a versão oficial.

É essa relevância, quando vista na prática, que faz do jornalismo algo sensacional e indispensável. Spotlight é um sopro de esperança num meio marcado pela instantaneidade e superficialidade das informações.

Que ajude despertar a luz do jornalismo investigativo em outros periódicos, para que mais histórias com poder de transformar o mundo possam ser contadas. Isso é mais importante que qualquer Oscar.

Mais sobre o Oscar

Além de Spotlight, Mad Max e O Regresso foram os principais vencedores na noite desse domingo, com 6 e 3 estatuetas, respectivamente. Mas a notícia que mais circulou após a premiação foi a vitória inédita de Leonardo Di Caprio. Merecida, após cinco indicações.

O comovente O Quarto de Jack, felizmente, ficou com um prêmio, o de melhor atriz, para Brie Larson. O Regresso ganhou prêmios importantes, como melhor diretor e melhor fotografia.

Para finalizar, aproveitando a calorosa participação de Gloria Pires na transmissão da Rede Globo, sobre o Oscar digo o seguinte: achei bacana.

Confira a lista de vencedores nas principais categorias

Melhor filme

A grande aposta

Ponte dos espiões

Brooklyn

Mad Max: Estrada da fúria

Perdido em Marte

O regresso

O quarto de Jack

Spotlight: Segredos revelados

Melhor ator

Leonardo DiCaprio (O regresso)

Melhor atriz

Brie Larson (O quarto de Jack)

Melhor diretor

Alejandro G. Iñárritu (O regresso)

Melhor canção original

Writing’s on the wall, Sam Smith (007 contra Spectre)

Melhor trilha sonora

Os 8 odiados

Melhor filme estrangeiro

O filho de Saul (Hungria)

Melhor ator coadjuvante

Mark Rylance (Ponte dos espiões)

Melhor animação

Divertida mente

Melhor curta de animação

Bear Story

Melhores efeitos visuais

Ex Machina

Melhor fotografia

O regresso

Melhor design de produção

Mad Max: Estrada da fúria

Melhor figurino

Mad Max: Estrada da fúria

Melhor atriz coadjuvante

Alicia Vikander (A garota dinamarquesa)

Melhor roteiro adaptado

A grande aposta

Melhor roteiro original

Spotlight ­ Segredos revelados

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