Toronto recebe Pan sob desconfiança da população

ITALO NOGUEIRA, MARCEL MERGUIZO, MARILIZ PEREIRA JORGE E PAULO ROBERTO CONDE, ENVIADOS ESPECIAIS
TORONTO, CANADÁ (FOLHAPRESS) – O Canadá já realizou cinco megaeventos esportivos ao longo de sua história. Nenhum deles em sua principal cidade.
Enfim, chegou a vez de Toronto. A partir desta semana, a metrópole inaugura mais uma edição dos Jogos Pan-Americanos. Porém, seus moradores ainda não demonstram ansiedade pela chamada “Olimpíada das Américas”.
Além da habitual preocupação com o trânsito, comum em cidades-sedes, o gasto com os Jogos gera críticas. Há questionamentos sobre se o evento, que consumirá 2,5 bilhões de dólares canadenses (cerca de R$ 6,2 bilhões), era necessário para tornar os planos locais de infraestrutura realidade.
Justamente um ponto tratado como trunfo pelos organizadores dos Jogos do Rio-2016 é visto com mal humor pelos habitantes de Toronto.
O Pan-2015 tirou do papel alguns projetos planejados há muito tempo para a cidade, como a construção de um trem que liga o aeroporto internacional ao centro da cidade.
O mesmo ocorre no Rio com algumas obras viárias e a revitalização da zona portuária, há anos discutidos e agora em execução para a Olimpíada.
O empresário sérvio Vuk Vuksawovic, 48, que mora desde a infância em Toronto, se queixa da demora de dois anos para a ciclovia na orla do lago Ontário ficar pronta. Ela faz parte do plano de revitalização da área, iniciado em 2001.
“Demorou dois anos para construir e só foi inaugurada há poucas semanas para criar uma boa impressão. Não deveríamos precisar de um grande evento esportivo para conseguir uma ciclovia”, disse.
O ator Matt Chenuz, nascido em Vancouver, afirmou que Toronto fez menos publicidade do evento em comparação com os Jogos Olímpicos de Inverno em sua cidade natal, realizados em 2010.
“A cidade não parece muito contagiada pelo espírito do Pan. Achei pouca publicidade, apenas no metrô percebemos que teremos um grande evento em poucos dias. Em Vancouver, sim, era possível ver sinalizações por todos os lugares. Talvez isso faça diferença.”
O desânimo pré-Pan se reflete na venda de ingressos. Apenas pouco mais da metade do 1,4 milhão ingressos dos Jogos foi vendido. O comitê organizador foi forçado a promover ações na cidade para tentar aumentar o interesse.
Alguns anúncios do evento têm sido instalados nas principais vias locais. A organização, porém, crê que a competição está no caminho certo.
“Estamos nos aproximando rapidamente de 800.000 [ingressos vendidos]. Estamos realmente satisfeitos com esse número. Estamos vendo agora os atletas e outros visitantes chegando. A cerimônia de abertura é só na sexta [10]. A energia está começando a aparecer”, disse o CEO do comitê organizador, Saad Rafi.
A professora aposentada Rina Apostoli vê o evento como uma forma de reforçar a imagem multicultural da cidade.
“Sou filha de imigrantes italianos, que vieram para o Canadá recomeçar a vida após a 2ª Guerra Mundial. Creio que um evento esportivo e multicultural como esse tem tudo a ver com Toronto, onde vivem pessoas do mundo todo.”
ESCOLHA
Toronto foi escolhida como sede do Pan após duas candidaturas frustradas para a Olimpíada de 1996 e 2008.
Sediar um evento internacional se tornou obsessão das autoridades da cidade, já que Vancouver, Montréal, Winnipeg e Calgary receberam cinco competições multiesportivas nos últimos 40 anos.
Após perder para Pequim a disputa pela Olimpíada de 2008, a cidade canadense mudou o perfil de sua candidatura. Em vez de concentrar todas as competições em seu território, espalhou as arenas por outras 14 cidades para dividir custos com outras prefeituras, a província de Ontário e o governo federal.
Apesar disso, os gastos foram sempre os alvos das críticas. No fim de 2013, o então CEO do comitê organizador do Pan, Ian Troop, foi demitido após a divulgação de gastos pessoais com recursos da entidade -financiada com recursos públicos. Na lista havia vestidos, vinhos e estacionamento particular.
Calcula-se que cerca de 70% do custo total do evento seja bancado pelos cofres da província de Ontário, seus municípios (o principal é Toronto) e o governo federal.
Os salários dos executivos também foram atacados. O atual CEO, Saad Rafi, tem vencimentos anuais de 428 mil dólares canadenses (aproximadamente R$ 1,1 milhão).
Tal qual o Rio, Toronto afirma ter construído para o Pan arenas com padrões olímpicos. A cidade discute se vai concorrer aos Jogos de 2028 -desistiu do de 2024 há um ano.

Clique para comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Para cima