Uma ditadura cinematográfica está se impondo, diz dona da locadora 2001

SYLVIA COLOMBO

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – “É muito problemática a ditadura cultural cinematográfica que está se impondo. Muitos dos filmes com os quais trabalhamos não estão nas novas plataformas.” Assim resume Sonia Abreu, diretora e proprietária da 2001 Vídeo, cujas lojas físicas estão sendo fechadas.

Mais tradicional locadora de São Paulo, há 33 anos no mercado, a 2001 congregava cinéfilos de nichos muito específicos e era a preferida dos amantes do cinema de arte e independente.

A empresa, que chegou a ter sete endereços em seu auge, passou a enfrentar séria crise com a propagação da pirataria e a popularização de serviços como o Netflix e o Now. A atual situação econômica do país apenas tornou mais grave o quadro.

“A gente lutou muito. Sempre acreditávamos que haveria uma estratégia que poderíamos tentar, pelo menos um ponto que pudéssemos deixar aberto, mas as opções foram se esgotando, sem resultado”, conta à reportagem.

O custo dos aluguéis em endereços estratégicos, e a boa formação dos funcionários (era exigido bom conhecimento de cinema), fazia com que os custos de manutenção fossem muito elevados.

Desde o último sábado (19), a 2001 está liquidando todo seu acervo de filmes para locação. Os dois endereços ficarão abertos apenas até os dias 6 (Paulista) e 17 (Pinheiros), mas quem quiser adquirir as obras deve se apressar, o movimento em ambas é grande. Os preços são promocionais, mas variam de acordo com gênero e raridade.

Nos próximos dias, a loja colocará à venda também os pôsteres de cinema de sua coleção e os móveis e equipamentos da loja. Poucos funcionários serão mantidos para que a loja virtual, dedicada apenas a compra e venda de títulos novos, siga funcionando.

“Há uma nítida mudança no comportamento do consumidor que inviabiliza o negócio. Não acho que seja apenas culpa da pirataria e do streaming, ou mesmo da crise econômica. O que acho grave é que o tempo das pessoas hoje em dia se fragmentou. As redes sociais ocupam muito tempo das pessoas, ninguém mais parece ter tanta disponibilidade para consumir filmes como tinha antes”, resume.

Na tarde do último domingo (20), havia uma longa fila na loja da avenida Paulista. Havia cinéfilos escolhendo minuciosamente e guardando filmes em grandes sacolas, enquanto outros foram atrás de apenas um título específico.

“Estou buscando a ‘Grande Beleza’ (Paolo Sorrentino), queria uma edição nova, para me dar de presente da Natal”, disse a estudante de arquitetura Valéria, 23.

“Onde vou achar clássicos do cinema asiático? No Netflix não tem, e eles agora estão hegemônicos”, acrescentou a comerciante Mieko, 52, que disse que quer deixar aos filhos uma pequena cinemateca de raridades japonesas.

Abreu disse que considera os que desejam seguir no ramo “verdadeiros heróis”, mas crê que algumas soluções que vêm sendo adotadas, como vender outros produtos como games e até sorvetes, iriam contra o espírito original da loja.

“Nossa saída do mercado é parecida com a da saída da Cosac Naify [que anunciou o encerramento de suas atividades em novembro] do mercado editorial, creio que lutamos muito para manter o padrão para um público específico e fiel. Mas não deu mais.”

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