Zé Celso retorna a Oswald e homenageia irmão com musical “Mistérios Gozosos”

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NELSON DE SÁ

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – A estreia de “Mistério Gozoso” foi na terça-feira gorda, 15 de fevereiro de 1994, para 4 mil pessoas, a meia quadra da praça da Sé, em São Paulo. Terminou com os atores cantando e dançando nas sacadas do Solar da Marquesa, enquanto jovens cantavam e dançavam sobre o que era antes o palco-pista. Carnaval.

Aquela apresentação levou o diretor Zé Celso ao hospital, infartado pelo esforço de levantar o espetáculo, mas foi a prova de que o teatro pode -como ele e Oswald de Andrade tanto querem- romper a barreira do público bem-pensante e se tornar teatro-estádio, para a multidão.

Com Christiane Tricerri como Eduleia, a prostituta por quem o vendedor de imagens sacras Seu Olavo se apaixona, é até hoje a versão mais intensa do Oficina para “O Santeiro do Mangue – Mistério Gozoso em Forma de Ópera”, de Oswald. Ao entrar em cartaz um ano depois, com Leona Cavali como Eduleia, não concentrou a mesma força.

Em temporada, dia após dia, “Mistério Gozoso” perde o caráter de evento e precisa se sustentar no poema dramático, disforme, que não é teatro nem tem propriamente uma trama. É o que se repete agora, em parte ao menos, com “Mistérios Gozosos”, readaptada e renomeada pelo Oficina.

Mais uma vez, o diretor se entrega para o espetáculo ficar de pé, mas é preciso mais: é preciso um evento para que funcione. Não foi o que aconteceu há três semanas, quando visto numa sexta, com público mediano, mas depois, sim: visto num sábado, lotado como parte da Jornada do Patrimônio, ingressos gratuitos, e logo depois da escolha do Oficina como melhor teatro do mundo pelo “Observer”, por sua “intensidade”.

A intensidade foi alcançada naquele dia especial, ainda que se pudesse perceber uma “barriga” -uma queda de ritmo- a partir da metade de suas três horas e meia, sem intervalo. Novamente, o problema estava no original. Zé Celso chegou a questionar a interpretação de alguns protagonistas ao vivo, o que foi constrangedor, mas não são papéis que eles possam interpretar.

O que “Mistérios” tem de melhor não vem do poema, mas das soluções cenográficas, caso da lama em que personagens se banham no início da apresentação, do Mangue da prostituição carioca, uma daquelas imagens do Oficina que, assombrosas, ajudam a explicar a classificação do “Observer”.

O melhor do espetáculo vem também – ou sobretudo – das músicas criadas por Zé Celso e José Miguel Wisnik. São os quadros em que Mariana de Moraes, Denise Assunção, Céllia Nascimento, cantoras que são, confirmam tratar-se de um grande musical, agora mais qualificado não só nas vozes, mas no profissionalismo generalizado do elenco.

E a apresentação desta quarta (23) é outro dia especial, em que Zé Celso lembra o irmão assassinado em 1987, num crime homofóbico, o grande criador de musicais Luis Antônio Martinez Corrêa.

MISTÉRIOS GOZOSOS

Quando: qua. (23), às 14h30, qui. (25 e 31) e sex. (26), às 21h, sáb. (27), às 19h; a partir de 2/1/2016: sáb., às 21h, dom., às 19h; até 25/1/2016

Onde: Teat(r)o Oficina, r. Jaceguai, 520, tel. (11) 3106-2818

Quanto: R$ 50

Classificação: 16 anos

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