Opinião

A arrogância está no ar

Praticamente toda a humanidade vem acompanhando com atenção e também tensão os últimos episódios ocorridos no Oriente Médio entre dois países que já há quarenta anos trocam farpas e fartas acusações, agora ao que parece os ânimos estão a flor da pele e um suculento filé de asa de borboleta poderá oferecer ao mundo uma churrascada macabra com consequências mais do que imprevisíveis, podendo respingar em tudo e em todos. Comemoração de um lado, ira do outro; um espetáculo horrendo promovido a partir do uso de milhões de dólares para matar, sendo aplaudido, enaltecido e justificado por alguns que se acham no direito de invadir, trucidar e impor seu estilo de vida em qualquer parte do mundo, disso não se pode esperar outra coisa senão uma vingança; inocentes como sempre poderão pagar um preço alto, tanto de um lado quanto do outro.
    A arrogância de alguns parece ser a tônica do momento e ela vem estampada sob diferentes aspectos, está nos discursos, no descaso, nas armas atômicas, no poderio militar, nas bases recheadas de soldados ao redor do mundo e ainda uma infinidade de outros meios sutis para dissuadir qualquer tipo de reação contrária. Triste o país que assim age e pensa dessa maneira, pois apenas consegue alavancar mais ódio e indignação por grande parte da comunidade internacional; essa arrogância é sempre frágil, precisa mais e mais mostrar superioridade somente através da força, do medo, da coação, este cinismo atinge níveis insuportáveis, as justificativas dos arrogantes quase sempre vem muito bem elaboradas em belos pacotes de ótimas intenções, mas como sempre acabam não resistindo a força do tempo, que o diga aquela história das armas de destruição em massa.
    Uma nação arrogante tem a memória muito curta, esquece rapidamente o seu passado e suas ações perante as outras, interessa-lhe apenas e tão somente ter e poder, além de vigiar o outro para que este mantenha-se no seu quintal, apenas e somente obedeça; na era da tecnociência, parece que quase tudo se tornou arrogante em demasia. Os gregos foram talvez aqueles que mais se debruçaram sobre o tema da arrogância, só que com um outro nome, ou seja, a desmedida, o excesso, a hybris. Na morada dos deuses, o Olimpo, tal atitude era olhada com muita desconfiança, tida como um vício, algo que minava o ser por inteiro, fazendo com que ele fosse sempre mais para a frente, uma busca incessante, um procurar desenfreadamente não sei o que para se fazer sabe-se lá o que. Os tempos modernos levaram os seres humanos nessa direção e hoje todos pagam caro.
    Dois exemplos magníficos sobre a arrogância nos vêm da antiguidade. O primeiro deles é tirado da mitologia grega: Dédalo e Ícaro, ambos pai e filho estavam presos no labirinto onde residia o Minotauro, Dédalo era há muito um respeitável construtor e segundo alguns um exímio inventor de máquinas e por estar confinado construiu dois pares de asas para fugir da ilha de Creta juntamente com seu filho. A fuga se realizou, porém antes de alçarem o voo rumo a liberdade Dédalo avisa seu filho para que este permaneça sempre a seu lado e siga as suas instruções, isto é, nem subir alto demais e nem voar rente de mais junto ao mar, a palavra de ordem é manter um voo equilibrado, mas acontece totalmente o contrário, Ícaro ignora por completo os conselhos do pai e aproxima-se do sol ocasionando então o derretimento da cera e a consequente desintegração de suas asas, a morte é certa.
    O segundo exemplo é tirado da Sagrada Escritura e envolve Davi e Golias, antes em rápidas palavras é preciso entender o contexto dos dois personagens: Davi é um jovem que está a serviço do rei Saul e o povo de Israel naquele momento passa por uma grande provação contra os filisteus, estes têm em suas fileiras aquilo que hoje se chama uma máquina de guerra que atende pelo nome de Golias, soldado de elevada estatura, “muito” preparado, tendo ao seu dispor as melhores armas da época, tudo o que lhe reveste é de bronze, isto é, o capacete, a couraça, perneiras, escudo, lança e muito provavelmente tinha outras armas ao seu dispor. Golias todos os dias saia de sua tenda, mostrava a quem quisesse todas as suas “qualidades” e desafiava sem parar os israelitas, até que Davi topou o desafio, com uma funda e uma pedra atingiu a testa de Golias, o seu único ponto fraco.
Bioeticamente, toda e qualquer forma de arrogância tem o seu calcanhar de Aquiles, ou seja, ela jamais é invulnerável, uma hora ou outra, seu mundo pode se desfazer e isso pode vir do lado que menos se pode esperar alguma coisa; os arrogantes maiores que ora se fazem presentes em várias partes do mundo e que detém grande poder sobre a vida e a morte da humanidade ainda não se deram conta da catástrofe que seria levar as nações a uma guerra de todos contra todos. Exemplos já o temos de sobra do quanto uma guerra é a maior de todas as loucuras, ninguém sai vencedor, além das feridas que muitas vezes jamais se cicatrizarão; muitos arrogantes estão amparados pela “melhor ciência e técnica” hoje disponível, porém esses não tem a exata noção desse poder, não se deram conta que este poder é muito perigoso, que este poder arrogante não é sinônimo de ordem, nem de progresso, nem de sabedoria e muito menos de união entre os povos, é antes de tudo uma grave forma de desunião, intolerância, barbárie, escravidão e no fim de tudo apenas morte. 

Rosel Antonio Beraldo, mora em Verê-PR, Mestre em Bioética, especialista em Filosofia pela PUC-PR; Anor Sganzerla, de Curitiba-PR, é Doutor e Mestre em Filosofia, é professor titular de Bioética na PUCPR.

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