Opinião

Esperança sem miopia!

Amigos, na semana passada, publiquei uma parte de uma mensagem de uma mãe que, entre “enlouquecida” e “preocupada”, desabafa sobre a situação, caoticamente organizada, de sua casa nesse tempo de pandemia.

Comentários jocosos à parte, pois a situação acaba sendo humorística, é assim mesmo que muitos de nós nos encontramos.

Com o teletrabalho a realizar, com as crianças para atender, com a casa para organizar e com muitas tarefas escolares a ajudar.

Como tenho dito: ninguém, absolutamente ninguém, estava preparado para isso. Nem pais, nem escolas, nem professores e nem a sociedade de modo universal.

É interessante registar como as famílias tentam se organizar. Certamente que, com muitas dificuldades, com problemas que parecem sem solução.

Hoje, ao invés, de comentar outras situações “de desastre familiar” com as atividades escolares e a pandemia, quero trazer uma reflexão de esperança.

Já citei aqui, nesse espaço, a letra de uma música cantada por Elis Regina, na qual, num dos versos ela canta: “Eu quero a esperança de óculos”.

Volto a esse verso, na certeza de que todos nós queremos ver a esperança aumentada, apesar do caos. Queremos ver a esperança brotando forte e vibrando nos nossos filhos que esperam ansiosos, mais do que nunca, pela volta às aulas. 

Sei que, tanto eu, quanto qualquer um de nós, não quer a esperança cega, boazinha, míope, ingênua.

Nenhum de nós quer uma esperança com problemas de visão. Não a esperança dos que pensam que, passada a epidemia, vai dar tudo certo, porque sim. 

Nem a esperança de que a cura será milagrosa, que a vacina será descoberta por encanto, que os medicamentos funcionarão num passe de mágica, só porque sim.

Nessa altura da vida, queremos uma esperança determinada, valente, lutadora, eu diria, uma esperança devastadora. Capaz de superar todas as dificuldades e dizer que é maior do que a pandemia, mas não simplesmente porque sim. 

E eu creio nisso. Creio muito porque muitas pessoas vão à luta ao invés de agir como o personagem Lippy, do desenho animado Lippy & Hardy, que vivia reclamando da vida dizendo: “Oh céus, oh vida, oh azar, isso não vai dar certo!”, sempre se sentindo a vítima, tentam, de alguma forma resolver as dificuldades. 

Então, nesse emaranhado de “vítimas”, de repente se encontra um casal que mora no interior do município de Roncador, no Paraná, que vai à luta. A reportagem foi feita pela RPC, a quem peço licença para reproduzir, nesse espaço. 

Diz um trecho da reportagem: “Em todos os cantos do país, estudantes e professores estão dedicados e empenhados para tentar dar conta das aulas que estão sendo realizadas a distância, pela internet. Mesmo com várias dificuldades, jovens estão enfrentando as barreiras pela educação. A menina Isabel Cravicz, de 10 anos e que está no 5º ano do Ensino Fundamental, vai todos os dias até o sítio do vizinho de casa para poder ter acesso à internet e conseguir estudar. A escola que ela tanto gosta está fechada. Quando vieram as aulas à distância, ela não conseguia assistir porque o sinal de internet ainda não chega à casa da família”.

Qual a solução? Deixar a criança perder o contato com a escola, esperar que alguém resolvesse? Veja o que diz a menina:

“Meu pai foi atrás de internet, porque moro no sítio e não tinha lugar que tivesse aparelho para colocar internet na minha casa. Fiquei triste porque não ia conseguir”. 

Os pais, assumindo, radicalmente, seu papel de pais e educadores que são, não reclamaram “Oh céus, oh vida, oh azar, isso não vai dar certo!”, como a Lippy. 

Além de conseguir o sinal emprestado dos vizinhos, improvisaram uma cabana para a menina poder participar das aulas on-line, e, mais, a mãe, fica o tempo todo fazendo companhia à criança, devido à distância e aos perigos inerentes ao local.

Eu poderia dizer muitas outras coisas, mas quis apenas trazer esse exemplo, não para engradecer a família que assim procedeu e nem para condenar quem tem dificuldades e não consegue resolver, mas para refletir sobre esse tipo de esperança. 

Essa é a esperança de que precisamos. De óculos de aumento para superar as dificuldades e pensar como o poeta Fernando Pessoa, que diz: “A esperança é como um fósforo ainda aceso”, ou como a poetisa Cora Coralina: “Mais esperança nos meus passos do que tristeza nos meus ombros”.

Quebrar os grilhões dessa prisão a que fomos submetidos pelo vírus é o grande passo que precisamos dar, mas que começa com pequenas atitudes que se tornam fundamentais para a superação desse mal que nos assola e que nos deixa a cada dia mais apreensivos. 

Cuidar de nós, cuidar de nossa família, cuidar de nossas crianças, de nossos alunos, de nossos mestres. Pensem nisso, enquanto lhes desejo muita esperança e uma ótima semana.

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