Opinião

Modelos de Igreja e sua aplicabilidade

Por padre Judinei Vanzeto

Ao longo de mais de dois mil anos de existência da Igreja Católica muitos modelos de Igreja surgiram, com suas riquezas e fragilidades. No primeiro momento, como se diz, os operários da primeira hora, destacam-se os primeiros seguidores de Jesus, aqueles que espalharam por toda parte a Boa Nova (Evangelho). Este tempo ficou conhecido por Igreja da diáspora. 
Esse primeiro modelo nasceu com os próprios movimentos de Jesus Cristo. Com três características fundamentais: movimento animando pelo Espírito Santo, missão e estrutura das primeiras comunidades. Os primeiros seguidores foram testemunhas da ressurreição de Jesus e viveram o tempo privilegiado do Espírito Santo em Pentecostes (cf. Atos 2, 1-11).

O segundo modelo de Igreja surge com o Edito de Milão, em 313, e foi promulgado pelo Imperador Romano Constantino. Aparece, então, o modelo de Igreja da Cristandade Medieval. O documento confere tolerância e liberdade religiosa, sobretudo, ao cristianismo. A Igreja passou a se institucionalizar e hierarquizar. Prevalece o primado do poder espiritual sobre o temporal. A Igreja é a depositária da salvação. A cultura cristã é articulada com o feudalismo da Idade Média.

Surge um terceiro modelo conhecido por Nova Cristandade. Nesse período, a liberdade individual e o pensamento crítico ganham espaço e acelera o processo de secularização (Revolução Francesa do século XVIII). Surgem muitos desafios, os ensinamentos sociais da Igreja, bem como o interesse frente ao mundo moderno. Aparecem as crises entre o pastoral e o teológico, a crise dos movimentos apostólicos, especialmente depois da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). O modelo da Nova Cristandade é incapaz de responder à nova consciência histórica do cristão no mundo moderno.

O Papa São João XXIII convoca o Concílio Ecumênico Vaticano II (1962-1965), o qual propõe um novo modelo de Igreja. Diante do mundo pluralista e policêntrico apresenta o modelo Igreja Povo de Deus. E a partir de suas constituições, decretos e declarações também explicita os modelos de Igreja: sacramento de salvação, Igreja comunhão e Igreja peregrina. O Concílio Vaticano II traz uma nova relação da Igreja com o mundo. Propõe uma relação de diálogo e de solidariedade, visando um aggiornamento da Igreja, isto é, voltar às fontes da Revelação e da Tradição da Igreja (primeiro século do cristianismo).

O Concílio provocou na Igreja mais atenção aos sinais dos tempos para cumprir sua verdadeira missão no mundo: anunciar o Evangelho de salvação. Na América Latina e Caribe, por sua vez, houveram cinco conferências na finalidade de adaptar-se à realidade. Atualmente, com o Papa Francisco, há a motivação de uma Igreja em saída, missionária e sinodal. Pois todos os cristãos precisam ter consciência de ser seguidores de Jesus Cristo. Apesar de suas limitações e fragilidades, a Igreja conta com a graça de Deus (condição divina), mas também com a colaboração humana.
Em pleno século XXI a Igreja é mais uma voz que grita e enseja contribuir com um mundo melhor a partir de Jesus Cristo. Ao longo de sua história é perceptível sua valiosa contribuição, como, por exemplo, na educação, nos hospitais, nos serviços sociais e espirituais etc. Existe uma riqueza mistura com a fragilidade humana. Pois quando vier o perfeito, o imperfeito desaparecerá (cf. 1 Cor 13,10).

Não obstante, hodiernamente existem muitos grupos contraditórios ao cristianismo. No mundo somam-se muitas perseguições conhecidas e veladas. As perseguições, porém, sempre existiram e deverão continuar e tem a finalidade de purificar pelo fogo o ouro e a prata. Além disso, ainda existem dentro da Igreja modelos encruados e enfadonhos. Aqueles que não entram e não deixam os outros entrarem. Hoje não se sustenta mais o catolicismo por tradição, faz-se necessário uma iniciação à vida cristã, uma opção pessoal. Um processo contínuo e profundo de encontro pessoal com Jesus Cristo. Enfim, ser cristão é para poucos e nas próximas décadas a tendência é reduzir ainda mais, graças a Deus. Os cristãos serão reduzidos a pequenos grupos e reflorescerá a partir de sua essência: o amor (cf. 1 Cor 13)!

Judinei Vanzeto é jornalista, técnico em Contabilidade, licenciado em Filosofia, bacharel em Teologia, e com especialização em Gestão de Instituição de Ensino e especialização em Jornalismo Digital. Além disso, é diretor administrativo da Rádio Vicente Pallotti e pároco da Paróquia São Roque de Coronel Vivida (PR)

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