Opinião

O cristão pode ingressar no areópago da política?

* Por padre Judinei Vanzeto

Algumas pessoas vieram conversar comigo sobre convites recebidos para colocar o nome à disposição para as eleições municipais de 2020. A estas pessoas apresentei o fio condutor do Documento 105: “Cristãos leigos e Leigas na Igreja e na sociedade”, publicado em maio de 2016, pela CNBB.

Nele aparece a expressão “modernos areópagos”, conceito utilizado por São João Paulo II na Encíclica Redemptoris Missio (RM), ao se referir aos novos desafios da missão evangelizadora no mundo hodierno. Inicialmente, o termo aparece no Novo Testamento, com o apóstolo Paulo ao ser desafiado a pregar no areópago, um espaço fundamental da cultura ateniense, onde se reuniam filósofos e conselheiros (cf. At 17,22-31).

No Doc. 105 aparecem sete novos areópagos, a saber: a família, a política, as políticas públicas, o trabalho, a educação e a cultura, as comunicações sociais e a Casa Comum. Os cristãos devem ter a consciência de que o mundo moderno, apesar de inúmeras facilidades e benefícios, traz consigo uma crise de sentidos e faz aumentar as condições precárias a que muitas pessoas são submetidas, sobretudo nas grandes cidades. Os novos areópagos exigem o uso de uma linguagem própria e adaptada, no ensejo de diálogo com as várias experiências culturais, expressando uma “Igreja em saída”.

A família é considerada o areópago primordial para os cristãos. Nela ocorre a iniciação à vida cristã. Como comunhão de amor, ela é sinal do que se deseja ao mundo, que ele se converta numa imensa família, onde todos se sintam em casa e entre irmãos. Cabe aos cristãos defender a dignidade humana desde o ventre materno se posicionando contra o aborto. Também vale frisar que a Igreja deve ter um olhar especial para as novas realidades de união entre pessoas, onde todos devem se sentir acolhidos, especialmente as crianças.

A segunda realidade é o desafiador mundo da política. Como cidadãos, todos os homens e mulheres são políticos, mesmo quando dizem que não o são. São João Paulo II lembrou que “os fiéis leigos não podem abdicar da participação na política destinada a promover o bem comum” e cabe à Igreja ajudá-los a exercer militância política (Exortação Apostólica Christifideles Laici, n. 2). Para tanto, no Doc. 105 há três elementos são fundamentais: formação, espiritualidade e acompanhamento, oferecidos pelas dioceses e paróquias aos fiéis.

Além disso, incentivar os cristãos a se candidatarem e acompanharem os que exercem mandatos políticos, bem como estimular a construírem mecanismos de participação que contribuam com a democratização do Estado, participando nos Conselhos paritários de Políticas Públicas, movimentos sociais, associações, nos conselhos de escola e outros em prol do bem comum.

O terceiro areópago são as políticas públicas. Há, pois, inúmeros “Conselhos de Direitos” empenhados em favor da saúde e da educação, do emprego e da segurança, da mobilidade urbana e do lazer, entre outras urgências, nos quais os leigos cristãos, em nome da fé, podem e devem atuar.

O quarto areópago moderno é o mundo do trabalho, que é um direito fundamental da pessoa humana. Diante dessa realidade, as Igrejas Particulares (dioceses) se esforcem para apoiar os cristãos trabalhadores através das Pastorais do Mundo do Trabalho urbano e rural, oferecendo formação e espiritualidade para permanecerem firmes na fé e na defesa dos direitos, especialmente no combate ao trabalho escravo e infantil.

O quinto areópago é o mundo da cultura e da educação. O Papa Francisco destacou que “crentes e não crentes podem dialogar sobre os temas fundamentais da ética, da arte e da ciência, e sobre a busca da transcendência” (Evangelii Gaudium, n. 257).

O sexto areópago é o vasto e complexo mundo das comunicações. A grande maioria das pessoas, em algum momento do seu dia a dia, se conecta a um meio de comunicação social: rádio, TV, internet, redes sociais. Os cristãos não podem se isentar de formar uma consciência crítica sobre tais meios e colaborar para que outras pessoas também a desenvolvam.

A Encíclica Laudato Si (2015), cinco anos de sua publicação, traz a Casa Comum como o sétimo areópago moderno que deve ser evangelizado. Com a acelerada exploração dos recursos naturais, as pessoas tomaram consciência da urgente necessidade de defender a “casa comum”.

O estudo do Doc. 105 poderia ser uma prioridade aos cristãos católicos, para assumirem mais e melhor sua missão na Igreja e na sociedade, em prol de uma fecunda presença nos areópagos modernos.

* Judinei Vanzeto é jornalista, técnico em Contabilidade, licenciado em Filosofia, bacharel em Teologia, e possui especialização em Gestão de Instituição de Ensino e especialização em Jornalismo Digital. Além disso, é diretor administrativo da Rádio Vicente Pallotti e pároco da Paróquia São Roque de Coronel Vivida (PR)

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