Opinião

O legado de Levinas

* Judinei Vanzeto

Após a Páscoa deste ano comecei a escrever semanalmente nesta página do Jornal Diário do Sudoeste. Agradeço imensamente por este preciso espaço e parceria.

Tendo em vista a solicitação de meus leitores que escrevesse mais sobre filosofia, então concluo este ano com o legado de um filósofo que considero muito importante para o nosso tempo: Emmanuel Levinas.

Levinas (1906-1995) é de origem judaica e nasceu na cidade de Kaunas, na Lituânia, e morreu em Paris, na França. O seu pai era vendedor de livros, o que possibilitou desde cedo contato com os clássicos da literatura russa, como, por exemplo, Dostoiévski.   

Em 1917, aos 12 anos, Levinas assistiu à Revolução de Outubro, na Ucrânia. Em 1923, foi para a França e iniciou seus estudos de filosofia em Strasbourg. Em Friburgo (1928 a 1929), foi aluno de Husserl e de Heidegger.

O pensamento filosófico de Levinas, portanto, teve influência da fenomenologia de Husserl, Heidegger e também de Rosenzweig. Seu ponto de partida é a ética. Ele acredita que é no face a face humano que surge o sentido da vida. É diante do rosto do Outro que o Sujeito se descobre responsável e lhe confere é conferida a ideia do Infinito.

Ao estourar a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), Levinas é capturado em Paris e feito prisioneiro pelo exército alemão por longos cinco anos. Este período deixou marcas do ódio do homem contra o homem. No entanto, mesmo em cativeiro, escreveu parte da obra Da existência ao existente, que foi publicada dois anos após o fim da guerra.

Levinas traz em sua história a inquietação de um século marcado pela dominação do homem sobre o outro homem, bem como o assassinato de seis milhões de judeus. Pois, segundo, ele “o século que, em 30 anos, conheceu duas guerras mundiais, os totalitarismos de direita e de esquerda, hitlerismo e stalinismo, Hiroshima, o goulag, os genocídios de Auschwitz e do Cambodja. Século que finda na obsessão do retorno de tudo o que estes nomes bárbaros significam. Sofrimento e mal impostos de maneira deliberada, mas que nenhuma razão limitava na exasperação da razão tornada política e desligada de toda a ética”.

Levinas entende que o pensamento ocidental perdeu a originalidade da filosofia grega e desenvolveu-se apenas como discurso para dominação do seu semelhante. A época moderna perdeu a unidade unificadora e totalizante. Excluiu o confronto e a valorização da diversidade e esqueceu o Outro.

O legado de Levinas consiste numa abertura emergente para uma ética que repense os caminhos da filosofia que conduzam em direção ao Outro. Esses elementos éticos ele colheu na sabedoria bíblico-judaica.

Em suas obras tratou de diversos temas pertinentes, a saber: o Outro, o Rosto, a ideia do infinito, o desejo metafísico, a in-condição humana, Ser, guerra e totalidade e a responsabilidade frente ao Deus ausente.

Em síntese, o pensamento de Levinas pauta sobre a responsabilidade ética em relação ao Outro. Além disso, constitui-se numa ética da alteridade que muito contribui para o discurso da Teologia moral cristã. Por 18 anos, Levinas dedicou-se na direção da Escola Normal Israelita Oriental de Paris. Lecionou nas universidades Poitiers (1964-1967), Paris-Nanterre (1967-1973) e Paris-Sorbone (1973-1984). Faleceu em dezembro de 1995, em Paris.

Portanto, 25 anos de sua morte e seu legado é imensurável perante o ser humano que ainda sofre no mundo hodierno com a falta de ética.

Feliz Ano Novo!

*Por padre Judinei Vanzeto, jornalista, diretor administrativo da Rádio Vicente Pallotti, gestor da Unilasalle/Fapas Polo Coronel Vivida e pároco da Paróquia São Roque de Coronel Vivida-PR.

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