Opinião

O modo de ser “online”

Padre Judinei Vanzeto

Em tempo de pandemia, quando entramos em debates sobre ensino-aprendizagem, tomamos consciência dos desafios que a arte de pensar e projetar o futuro de uma sociedade nos impõe.

Sentimos a preocupação com a eficiência e a eficácia do labor intelectual e afetivo, já que tanto a razão quanto o coração, unidos pelo compromisso humano e social, formam o conjunto pelo qual se escreve a história.

Escrevemos a própria história em meio a um turbilhão de mudanças que podem nos deixar confusos e perplexos. Recorremos à linguagem poética para encontrar soluções para os desafios do nosso tempo.

Não obstante, somente é digno de amor àquilo que o homem escreve com a própria vida, pois, segundo Rubem Alves, a “arte que produzimos é a perpetuação de nossos sonhos e a exteriorização de nossos desejos”.

Perante tal dinâmica, as novas tecnologias implantaram um novo modo de ser do sujeito contemporâneo, o modo de ser “online”. E a pandemia tem provocado aprimoração. É a era da conectividade. Não vivemos mais em simples ambientes humanos; agora somos e constituímos sentido também nos ambientes de rede. Será que estamos nos tornando meros sujeitos virtuais? Um simples avatar?

O risco que se corre quando o ambiente de rede passa a ter a primazia no horizonte de sentido da comunidade humana é de gerarmos sujeitos embrutecidos, ou seja, pessoas que perderam a autonomia da arte de pensar, de ser e agir.

Quando as novas tecnologias deixam de serem utensílios e se tornam polo exclusivo de doação de sentido para o ser humano, começam a surgir pessoas distraídas. E para Rancière, “a distração é, de início, preguiça, desejo de subtrair-se ao esforço. A própria preguiça não é, todavia, torpor da carne, ela é ato de um espírito que subestima sua própria potência”.

Nessa ótica, o maior desafio para uma educação humanizadora, em meio às novas tecnologias, é de promover a emancipação intelectual dos sujeitos de tal forma que eles possam, mesmo imersos num ambiente altamente tecnológico, desenvolver a autonomia do pensar e não negligenciar o compromisso social com o outro. Porque na era da subjetividade as pessoas não seguem mais instituições, pessoas seguem pessoas.

Assim, mesmo que as novas tecnologias sejam deslumbrantes, elas não substituirão os educadores e tão pouco relativizam sua importância, isso porque elas não são dignas de amor, pois não têm vida para escrever uma bela história.

Por isso, o educador continua a dispor de um lugar privilegiado no sistema educacional, sua arte é comparada por Rubem Alves, com a arte da cozinheira. É ela quem prepara um delicioso prato de conhecimento que instiga os educandos, já pelo aroma e pela beleza, a saboreá-lo com prazer e desejo. Por mais tecnologia que se tenha numa cozinha, o sabor da comida ainda é mérito da cozinheira. O mesmo vale para todo o ambiente educacional.

Dessa maneira, ainda não sabemos como será o desenrolar do ano letivo em 2021, mas apenas sugiro que comecem as mudanças pelo fim, isto é, vislumbrando aonde querem chegar, isso porque, na verdade, tudo começa pelo sonho, pela expectativa de se tornar real aquilo pelo qual se está apaixonado enquanto projeto, este é o método para se realizar qualquer coisa. Assim sendo, nobres docentes e discentes tenham gravado em seus corações uma inspiração da sabedoria antiga que ensina que “os ingênuos herdam a insensatez e os sábios fazem do conhecimento sua própria vida”.

Jornalista, diretor administrativo da Rádio Vicente Pallotti, gestor da Unilasalle/Fapas Polo Coronel Vivida e pároco da Paróquia São Roque de Coronel Vivida-PR

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