Opinião

O País que continuou na década passada

* Willian Cemin

O novo. Era assim que se apresentava alguns anos atrás o atual presidente do Brasil, Jair Bolsonaro; em alguns momentos autodenominado até mesmo “Messias”. Parecia ser a esperança, era quem destoava de uma esquerda desgastada que comandava o Brasil há muitos e muitos anos e vinha de seguidos escândalos de corrupção e mensalão.

Em seus discursos, inflamados e truculentos, nunca fez nenhuma questão de esconder os ataques às minorias e à imprensa. E, pasmem, chegou a saudar ditadores e torturadores, como o próprio Brilhante Ustra, primeiro militar condenado pela Justiça Brasileira pela prática da tortura durante a ditadura.

Em sua campanha, Bolsonaro deixava claro que, caso eleito, não seria um presidente fácil. Em junho de 2018, afirmou que participaria de todos os debates para levar o que chamou de “propostas factíveis” aos brasileiros.

Pouco tempo depois, Bebiano, líder do PSL, seu então partido, disse que Jair não participaria de nenhum debate. Contudo, o então presidenciável participou do primeiro debate na Band; depois disso, sofreu um atentado, no qual foi vítima de uma facada e não esteve presente em nenhum outro debate.

O que chamou a atenção de todo o Brasil foi que, mesmo tendo recebido alta, o candidato preferiu não participar dos debates no segundo turno, quando disputava as eleições com Fernando Haddad. Mas, ao mesmo tempo, continuava participando de atos políticos.

Chegou lá! O ex-deputado federal por 28 anos foi eleito presidente do Brasil com um discurso de renovação e anticorrupção. Contudo, o agora presidente não chegou sozinho; com ele vieram seus filhos, mas três deles merecem destaque: Eduardo, deputado federal; Carlos, vereador; e Flávio, senador. E assim se instituía o clã Bolsonaro no comando da república.

Passou o tempo e, hoje, conseguimos ver que a tão esperada mudança infelizmente ainda não chegou. “Os Bolsonaro” sim, a mudança não. A corrupção continua batendo todos os dias em nossa porta. A promessa de campanha “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” não passou de um trecho extraído da Bíblia, haja vista que a verdade já é conhecida, mas nos falta a liberdade, pois as amarras políticas continuam exatamente as mesmas. Sai Pedro, entra Paulo; ou sai Michel, entra Jair, os acordos estão sempre lá.

Na última segunda-feira (1º), por exemplo, tivemos eleição da câmara e do senado. E o Presidente do Brasil, o mesmo que foi eleito com um discurso contra a corrupção, irá liberar R$ 3 bilhões e quatro ministérios aos parlamentares que votaram em seus candidatos [Arthur Lira, na Câmara dos Deputados; e Rodrigo Pacheco, no Senado], eleitos presidentes das casas, que posteriormente recusarão seu pedido de impeachment; tudo combinado como todos sabem, o velho toma-lá-dá-cá da velha política.

De acordo com o que vem sido noticiado aos quatro ventos, dos 208 deputados, que haviam declarado apoio a Bolsonaro antes da eleição, por exemplo, 125 já tem seu nome na lista para receber parte da gorda fatia dos R$ 3 bilhões em emendas; e dos 33 votos declarados no Senado, 22 dos parlamentares também já estão nominados na listinha amiga.

Resta saber se os outros nobres parlamentares também terão seus nomes inclusos em tal lista, já que as votações se encerraram com um placar de 302 votos favoráveis ao agora presidente da Câmara Federal e 57 votos que elegeram o supracitado presidente eleito do Senado.

A oferta de recursos foi feita no gabinete do ministro Luiz Eduardo Ramos, da Secretaria de Governo. Graças às manobras feitas pelo atual governo para a distribuição desta quantia de dinheiro, que “pulou” algumas fases, os valores são repassados a prefeitos indicados por deputados ou senadores sem que o nome do congressista fique marcado, como ocorre com a emenda parlamentar tradicional. Isso evita que o nome do parlamentar seja associado ao envio do dinheiro, caso haja alguma irregularidade em sua aplicação.

Quantas vacinas de Coronavac poderiam ser compradas com este dinheiro? Quantas vidas poderiam ser salvas, por exemplo? E você sabe quem está pagando essa conta, não é mesmo? Você sabe por que o preço do arroz está tão alto, por que a gasolina está tão cara, por que tudo está tão caro ultimamente. Você sabe quem está pagando a conta de tudo isso.

Era essa a mudança esperada? Era essa a verdade que iria libertar? Por falar em verdade, a verdade é que nenhum dos extremos, nem direita e nem esquerda, nunca foi “trigo limpo”. É um querendo apontar a sujeira do outro e o brasileiro que se exploda! Mas quando isso acabar, e só quando isso acabar, é que nosso país será verdadeiramente uma “Pátria amada, Idolatrada”, porque, até então, a impressão que dá é que continuaremos “deitado eternamente em berço esplêndido”, dizendo “Amém” para tudo o que for dito e decidido pelos velhos lobos da política.

Mas, como brasileiros que não desistem nunca, seguimos acreditando que se o mundo muda as pessoas, as pessoas também podem mudar o mundo. No fim, com isso tudo, aprendemos, descobrimos que aquele se dizia novo, de novo não tinha nada. Entendemos que não se deve confiar em quem fala o que quer, sem antes pensar e que a velha política ainda continua dominando nossa sociedade. E aprendemos a duras penas que a política continua suja, que os dias melhores ainda não chegaram e que Jair não era novo… muito menos o Messias.

Ator e publicitário de Saudade do Iguaçu.

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