Opinião

Passado, presente e futuro

* Por padre Judinei Vanzeto

Uma ação pode ocorrer no passado, no presente ou no futuro. Os tempos verbais, por sua vez, indicam o momento em que ocorre a ação. O sujeito e predicado compõem a estrutura dos enunciados, que a partir de um verbo, projeta alguma afirmação sobre o sujeito. Tal ação, basicamente, ocorre nos três tempos: passado, presente ou futuro. Pensando sobre isso fez-me recordar da mitologia grega, especialmente, o deus Cronos. O deus do tempo e rei dos titãs.

Nas narrações gregas, o Cronos é o deus do Tempo, que após ter castrado seu pai Urano (o deus do Céu), passou a ser a representação do cosmo (mundo). Urano, com medo de ser destronado, obrigava sua esposa Gaia (Terra) a segurar seus filhos no útero, sem dá-los à luz. Revoltada, a mãe criou uma foice e deu a Cronos (filho mais novo), para que castrasse o pai.

Após o destronamento, Urano amaldiçoou o filho para que tivesse o mesmo destino seu. Dessa maneira, como castigo, Cronos passou a engolir seus filhos recém-nascidos para que não houvesse revolta contra ele mesmo. Daí vem a compressão de que Cronos come seus filhos, ou seja, “o tempo que tudo devora”.

Na linguagem judaico-cristã, há a compreensão do tempo a partir do termo Kairós, ou seja, o tempo da graça. Com a vinda de Jesus Cristo, os cristãos vivem o tempo da graça. Por isso, Cronos e Kairós são bastante discutidos no universo filosófico e teológico, trazendo à tona conceitos aplicados para a vida do ser humano, no tocante ao tempo, enquanto quantitativo e qualitativo.

Ao analisar a vida das pessoas em relação ao tempo, percebe-se que grande maioria fica “remoendo” o passado, outra parte pensando no futuro e uma pequena parcela vive, de fato, o tempo presente. Nisso acredita-se que as pessoas que vivem bem o tempo presente são as mais felizes.

A vida não tem rascunho e o tempo não volta mais. Na vida tem consequências que podem ser boas ou não. Tudo fruto das escolhas feitas aqui e agora. O passado influencia o presente e o presente influencia o futuro. Tudo está interligado, conectado. Interessante que no seriado Dark, distribuído pela Netflix, apresenta a premissa que o futuro também influencia o passado e o presente (será?).

Santo Agostinho (354-430) afirma que o passado não existe mais, o futuro ainda não chegou e o presente torna-se pretérito a cada instante. O que seria próprio do tempo é o não ser. Os tempos são três: presente das coisas passadas, presente das coisas futuras e presente das coisas presentes.

Em outras palavras, Agostinho quer dizer que o passado está na memória das pessoas (e nos livros de História). O futuro existe como uma possibilidade, mas o que existe mesmo é o tempo presente. E o presente, por sua vez, é o tempo mais importante, isto é, o hoje, o agora, neste instante.

Segundo Agostinho, para Deus não existe o tempo passado e o futuro, pois Ele é sempiterno, sempre presente. E conforme o filósofo alemão Immanuel Kant (1724-1804), Deus está fora do espaço e do tempo. Mas os seres humanos encontram-se no espaço e no tempo. Não obstante, deixando a filosofia e a teologia de lado, como a sociedade hodierna está administrando seu tempo hoje?

O tempo é precioso, valioso e tem até um ditado popular: “tempo é dinheiro”. A frase foi dita pela primeira vez pelo intelectual americano Benjamin Franklin (1706-1790) e ultrapassou fronteiras: “Remember that time is money” (Lembre-se que o tempo é dinheiro). O tempo é o bem mais precioso que o ser humano pode possuir, até mesmo para aqueles que pensam nada ter.

O livro de Eclesiastes afirma que: “Para tudo há uma ocasião certa; há um tempo certo para cada propósito debaixo do céu: tempo de nascer e tempo de morrer, tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou, tempo de matar e tempo de curar, tempo de derrubar e tempo de construir, tempo de chorar e tempo de rir, tempo de prantear e tempo de dançar, tempo de espalhar pedras e tempo de ajuntá-las, tempo de abraçar e tempo de se conter, tempo de procurar e tempo de desistir, tempo de guardar e tempo de jogar fora, tempo de rasgar e tempo de costurar, tempo de calar e tempo de falar, tempo de amar e tempo de odiar, tempo de lutar e tempo de viver em paz” (Ecl 3, 1-8).

Enfim, atualizando tudo isso, agora é tempo de ficar em casa, especialmente as pessoas de grupo de risco, para haver o devido enfrentamento ao novo coronavírus, enquanto se aguarda o tempo de uma solução advinda pela comunidade científica, colaborada pela Mão Divina.

* Judinei Vanzeto é jornalista, técnico em Contabilidade, licenciado em Filosofia, bacharel em Teologia, e possui especialização em Gestão de Instituição de Ensino e especialização em Jornalismo Digital. Além disso, é diretor administrativo da Rádio Vicente Pallotti e pároco da Paróquia São Roque de Coronel Vivida (PR)

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