Opinião

Por favor, alguém me escuta?

* Por padre Judinei Vanzeto

Os séculos últimos trouxeram grandes transformações globais que refletem diretamente no comportamento humano. Junto com as conquistas e avanços tecnológicos em todos os sentidos, fruto da inteligência humana, vieram também os desafios e dificuldades ao ser humano.

Nas últimas décadas, por exemplo, o crescente número da violência urbana, a corrupção institucionalizada, o medo, a insegurança. Os frutos do egoísmo, do fechamento em si mesmo, têm assombrado nossa geração. O que está acontecendo com o ser humano?

O ser humano tem se mostrado cada vez mais angustiado, inquietude e na solidão. Ele é uma obra-prima do Criador, ou seja, algo de melhor na face da terra, mas este mesmo vem se destruindo. E gritando: ‘Por favor, alguém me escuta?’.

Na rotina diária, infelizmente, é difícil encontrar alguém com algum tempo disponível para escutá-la. O contexto profissional exige aperfeiçoamento constante, o mercado de trabalho é cada vez mais competitivo e exigente. São prioridades que absorvem todo o tempo das pessoas.

Na visão criacionista, Deus criou o ser humano único e cada um traz sua história pessoal, com experiências e marcas. À luz da Bíblia, da história do Povo de Israel, percebe-se que o ser humano enfrenta crises, quando se afasta de Deus. O sofrimento psíquico e os seus difíceis caminhos de busca só podem ser tratados adequadamente quando se tem presente a situação humana no contexto mais amplo da fé.

Dessa maneira, as pessoas necessitam ser escutadas com acolhida, atenção, empatia, sem julgamentos, como fazia o próprio Cristo. E enquanto falam de si mesmas, a dimensão do problema diminui e surge sempre uma solução e paz interior ao viver.

O Mestre de Nazaré inaugurou uma pastoral da escuta em seu tempo. Jesus fazia perguntas-chaves, do tipo maiêutico, como fez aos discípulos de Emaús (cf. Lc 24, 13-35). Antes de respondê-las é preciso dar um profundo mergulho em si, e isso auxilia a encontrar-se consigo mesmo e a superar suas crises existenciais.

A escuta é esse cuidado pastoral de extrema urgência e muito evidenciado em tempo de pandemia. Um serviço discreto e silencioso, com autenticidade para que a pessoa possa confiar em quem a está escutando. É um serviço disponibilizado pela Igreja especialmente por religiosos e ordenados. No Projeto Nacional de Evangelização (2004-2007), a CNBB propõe a Pastoral da Escuta como uma ação evangelizadora, tendo como meta número um a necessidade de “criar centros de escuta”.

A Pastoral da Escuta, entendida a partir do documento, conta com a participação dos próprios leigos e leigas. Um atendimento gratuito e estendido a todas as pessoas. É muito importante frisar que o serviço de escuta não é uma terapia convencional, mas quer ser um espaço, na Igreja, para o primeiro “desabafo” e caso for necessário, encaminha-se para a Confissão Sacramental ou para atendimento psicológico profissional.

Depois de escutar a pessoa, pode-se partilhar a fé, pois o “vazio interior” precisa ser preenchido com Deus, e Ele vem a através de diversas formas: a Palavra anunciada é uma delas. Assim, a escuta e a vivência da Palavra são essenciais para que aconteça a transformação interior e a superação das crises existenciais.

O evangelista Lucas, no capítulo 10,38-42 (Marta e Maria), diz que Maria, que o escutava falar, ficou com a melhor parte. A Palavra de Deus pode re-significar, transformar a vida daquela pessoa, naquele momento de escuta. A escuta da Palavra leva à obediência e, portanto, a um novo agir, uma mudança de mentalidade; abre um processo de conversão pessoal.

Além disso, é importante frisar que nunca se está a sós quando há um engajamento no desenvolvimento da plena imagem de Deus nas pessoas. É o desejo de Deus de realizar uma obra nova, mas também é o desejo dentro de cada pessoa que faz com que queira ser melhor, não depende do esforço de quem as escuta, mas da ação o próprio Deus. O apóstolo Paulo estava convicto disso quando afirmou: “Eu plantei, Apolo regou; mas o crescimento veio de Deus” (1Cor 3,6).

Enfim, quando as pessoas se dão conta que Deus caminha com elas, a exemplo dos discípulos de Emaús, suas vidas mudam. E o mundo hodierno, com sua rotina e dissabores, torna-se diferente, mais atraente, dá goste de viver e traz paz interior.   

* Judinei Vanzeto é jornalista, técnico em Contabilidade, licenciado em Filosofia, bacharel em Teologia, e com especialização em Gestão de Instituição de Ensino e especialização em Jornalismo Digital. Além disso, é diretor administrativo da Rádio Vicente Pallotti e pároco da Paróquia São Roque de Coronel Vivida (PR)

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