Opinião

S.O.S. Vida, não podemos enlouquecer!

Dia após dia, a quarentena nos tem trazido questões fortes de reflexão e análise. Muitas, tão simples de resolver. Há bem pouco tempo, parece que se transformaram em montanhas intransponíveis.

A cada dia, a situação, ao invés de se amenizar, parece que se torna mais ameaçadora e nos deixa em situação de pedir socorro.

Seria cômico, se não fosse trágico. 

Calma, não estou julgado nada e ninguém, digo isso porque um “pequeno diário de uma mãe”, me levou a considerar isso.

Diz minha interlocutora:

“ …como se eu já não tivesse de me equilibrar com o home office, tenho mil tarefas domésticas a fazer, atividades escolares para acompanhar, comportamento familiar a ensinar, roupa, comida, marido….”

Entendo, perfeitamente, que a dinâmica familiar se alterou profundamente. A “presencialidade” próxima, todo dia, toda hora, alterou os comportamentos. E, de fato, equilibrar o teletrabalho com filhos e tarefas domésticas dia após dia e, em isolamento, tem sobrecarregado pais e mães. Talvez, mais as mães, sem demérito ao papel dos pais.

Ah, se tivéssemos uma varinha mágica e voltássemos no tempo passado. Pois é, mas não temos. Então, como já consideramos aqui, é preciso manter a calma e a mente sadia, o emocional controlado, mesmo com vontade de explodir e/ou chorar muito. Além de todas as questões que se nos apresentam, temos como obrigação, nesse mundo maravilhoso da paternidade, de oferecer conforto e equilíbrio emocional aos nossos filhos.

Mas, vamos “ao pequeno diário”. Vou resumi-lo aqui, por questões de espaço.

“ …são 7h da manhã. SETE HORAS e os três, que Deus me perdoe, os “três pestinhas” já estão funcionando a todo vapor. Entro no quarto deles, lembrando que tenho mil tarefas a cumprir e, que, meu chefe logo vai me ligar cobrando. Levo um susto: estão construindo uma “cabana” com os colchões, colchas, travesseiros, lençóis. Dou meia-volta, arrumo o café pra eles e os deixo brincando no quarto. 

Fui ao trabalho. De repente, sabe aquele “oitavo “ sentido? Fui ao quarto bem devagar porque o silêncio era sepulcral. Quando vi a cena, quase fui pra sepultura…. o mais novo (4 anos) tinha escalado a janela do quarto e simplesmente estava “pendurado” na rede de proteção, bem no alto, enquanto os outros dois de 6 e 8 anos incentivavam com vozes abafadas. Não gritei, por puro pavor. E se a rede se rompesse? 

Com a calma, que só Deus consegue nos dar, aproximei-me e, silenciosamente (por milagre), tirei o menino da aventura. Sentei na cama e conversei com eles. Tudo bem, foram para o café. Foram fazer brincadeiras de jogos. Fiquei mais tranquila.

Eram 11h30 da manhã e, novamente, muito silêncio na sala. Eu havia fechado a porta do escritório, onde eu e meu marido fazíamos o teletrabalho, para que pudéssemos nos concentrar. Abri a porta, e quase tive um treco. Meu filho do meio, 6 anos, estava com uma “corda” feita de meias, no pescoço, e os outros tentando colocá-lo na posição de “enforcado” no pé da luminária do canto da sala. Deus do céu, que será que eles ainda vão “aprontar”. Era o “ jogo da forca” posto em prática. Novamente, falei, expliquei, conversei. Coloquei-os de “castigo” para pensar.

Fui pra cozinha ver o que faria de almoço. Claro que a “secretária” do lar, por morar longe, não podia estar trabalhando, precisava ficar no isolamento social, para nem ela, nenhum de nós adoecermos.

Tive a “brilhante” ideia de convidá-los a me ajudar no almoço. Ainda bem que “arrependimento não mata”. 

De repente, não mais que de repente (como dizem os poetas) os dois “pestinhas mais velhos” estavam lutando de espadas com as facas da cozinha. Outra vez, quase tive um “treco”. Separei, coloquei-os no escritório com o pai. Voltei à cozinha com o menor para me “ajudar”. Fui preparando o arroz, o feijão, a carne, coisas que já estavam semiprontas. Arrumamos tudo e chamamos a família para o almoço. 

Quando começamos a comer: eca!!!, eca!!!, eca!!!. Que tem essa comida? Foi feita para o gado? Pergunta meu marido. Experimentei e, dessa vez, o treco veio: chorei feito uma doida. O “pestinha” menor me ajudou. Enquanto eu estava arrumando a mesa ele “temperou” novamente a comida com muuuuuuuuuuuuuuuito sal e pimenta.” Bom, vou parar por aqui. Só me diz, como não enlouquecer? “.

Bom, se eu disser que precisa ter paciência, minha leitora, você vai me mandar para um lugar nada bonito. Se eu disser para você que precisa manter uma rotina o mais próxima da vida real anterior, você também ficará brava comigo e me perguntará, mas como, no isolamento?

Se eu disser que é possível que eles tenham “percebido” que sua maior preocupação era com o teletrabalho do que com eles, você não vai gostar. Se eu disser que sua ansiedade, seu estresse e seus medos se refletem nas atitudes deles, você ficará preocupada.

Se eu disser que é normal, que são crianças saudáveis e criativas, você me mandará para onde?

Ah, e você não me falou das atividades escolares, por que será? Não as valoriza como valoriza seu trabalho? Veja, vou lhe dizer, esse é o trabalho deles, das crianças, e cadê seu apoio, sua preocupação? Bom, você não disse se faz ou não, então não posso julgar, mas faz parte da rotina da família agora, ou não?

Se eu disser para que você reinvente, reorganize seus horários e chame seu marido para “compartilhar” a paternidade, resgatar brincadeiras da infância de vocês, contar “causos”, fazer roda de conversa, pular corta, brincar de peteca… Estabelecer uma rotina de brincadeiras e de estudos, de conversa familiar, até de fazer o que quiserem sozinhos, é uma das poucas saídas que temos na situação atual e, de nada adianta culpar governos pelo que se abateu sobre nós. 

Concordo que as preocupações são sérias. Concordo que tudo mudou, que nossa vida virou de cabeça para baixo. Mas, como se diz no popular: ”É o que temos para hoje”.

Na minha humilde percepção, diria para reinventar a dinâmica familiar, distribuir tarefas, tornar o ambiente de casa mais leve, ter um horário para todas as coisas, para o teletrabalho, para as aulas e, inclusive para as refeições, enfim, mudar o que é possível, sem culpar-se e culpar. Pensem nisso, enquanto lhes desejo boa semana.

* Assessor pedagógico da Faculdade Mater Dei e membro do CEE/PR

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