Opinião

Sucessos e insucessos das aulas remotas, ou se quiserem: a arte de ser feliz com o que temos!

Amigos leitores, na semana passada falei de “entremeios” de angústia, medo, esperança e resiliência, numa clara tentativa de expor o estado de alma em que me encontrava (e ainda me encontro).

Recebi muitas comunicações, comentários a respeito. Retorno no texto de hoje, com muito mais preocupações do que tinha.

Percebi, claramente, que não só eu, mas muitas crianças, adolescentes, jovens, pais, professores e gestores educacionais se encontram na mesma situação.

Repito, a realidade aí está, e não é fácil. Assim como, repito, também, que a situação é inusitada. Que ao lado de experiências fantásticas de superação do medo, das angústias e das incertezas, existem, e em grande número, experiências de fracasso com as aulas remotas.

As primeiras reclamações e inseguranças eram relativas aos instrumentos (celulares, computadores, redes de internet). Depois o acesso às plataformas digitais. Talvez, mesmo essas crianças/pré-adolescentes/ adolescentes/jovens e até adultos, ditos “geração digital”, não sejam tão digitais assim quando se trata de buscar ferramentas que as mantenham conectadas e “ligados” ou “antenados” no ensino remoto. Pode ser uma variável.

Depois, veio a insegurança dos professores. Coisa muito normal, a maioria teve de tornar-se “YouTubers”, transformar seu escritório, sala, cozinha, ou quando não a casa, em palco de produção de videoaulas. Foi preciso aprender muito. Depoimentos, a mim mesmo feitos, variaram entre “eu tenho vergonha de me mostrar, de gravar a minha aula, de ouvir a minha voz”, até “bom, não tinha o que fazer, era aprender a fazer ou cair fora, mas eu preciso ganhar o meu salário”, só para citar algumas.

Muitos pais e professores reportam às aulas remotas como “transferência de conteúdo” e não a questão pedagógica de ensinar e aprender. Pais preocupadíssimos com a alfabetização, com o término do ano letivo, com o horário das aulas e com a métrica para saber se isso pode ser contado como um dia letivo e dizem que não são professores, que não sabem “imitar” o comportamento da professora em relação ao aprendizado de uma criança e dizem entre tristes e desesperadas: estou “fazendo o melhor que posso como mãe”!

Ao mesmo tempo em que circulam mensagens nas redes sociais dando notícias de estudantes que se sentem “massacrados” pelo número de atividades e pela extensão das mesmas. Tem até mensagens com cálculos dizendo que são “120 atividades em dois meses, o que equivale a 60 tarefas por mês e quase 15 atividades por semana…” isso tudo, segundo os relatos em meio ao “governo” que não se preocupa com a aprendizagem de fato, nem com a ansiedade, nem com as dúvidas e dificuldades dos estudantes. Na contramão, pais dizendo que as atividades são insuficientes e que a aprendizagem é muito superficial.

Outras correntes defendendo que “Quarentena não é sinônimo de férias”, e outra afirmando que “quarentena também não é homeschooling (ensino domiciliar)”, E há ainda aquelas correntes de mães/pais mais apreensivos com o atraso de conteúdos no período sem aulas que levantam a bandeira da “rotina de estudos rigorosa no isolamento”.

Outros depoimentos dizendo que “…e estou levando as coisas da seguinte forma: faço o que dá certo, não o que é certo. Funcionou deixar meus filhos fazer metade da lição de manhã e metade à tarde? Ótimo, assim vai ficar”.

Ainda assim, muitos pais tentam fazer o possível para não estressar ainda mais as crianças e criam, juntos, uma possível rotina, um possível planejamento para dar conta dos estudos.

Não poderia deixar de registrar o depoimento do ator Cauã Reymond num programa de TV sábado, dia 27, dizendo que vê na rotina imposta pela quarentena uma possibilidade de estreitar os laços com a filha e participar dos estudos dela.

Bem, tentei fazer um pequeno inventário do que tenho ouvido e visto nesse tempo “transitório” de uma quarentena sem precedentes. Por isso, a resiliência a que me referi no texto da semana passada.

Por outro lado é preciso reconhecer que a escola se organiza de uma maneira, ou de outra, para que as crianças continuem estudando, seja por aulas remotas ou outra forma de contato.

Também é preciso reconhecer que a família quer que a criança resolva as atividades e se ocupe.

Mas é preciso que todos nós paremos e façamos uma reflexão, não temos mais nossa vida normal, por ora, temos uma quarentena que nos impõe afastamento social e não dá, em hipótese alguma, para nenhum de nós, professores, educadores, pais, alunos pensar que dentro de casa é possível reproduzir o modelo da escola.

Precisamos agir com o máximo de tolerância, estabilidade emocional, racionalidade e deixar para o retorno das aulas presenciais a questão das aprendizagens não alcançadas. Vamos dar conta do que é possível, conversar com a escola, com os professores, usar a métrica do bom senso tanto na quantidade quanto na qualidade de conteúdos de aprendizagens ou de direitos de aprendizagem (como está na moda).

Uso, para encerrar da licença poética de Cecilia Meireles, em “A arte de ser feliz”, pois tenho pra mim que, daqui a pouco poderemos dizer “houve um tempo em que minha janela dava para a rua vazia, a escola abandonada, as praças trancadas, o silêncio habitando a cidade”. Mas como diz a poetiza: “Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino” e que, “finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim”, pensem nisso enquanto lhes desejo muita esperança/resiliência e uma ótima semana.

Assessor pedagógico da Faculdade Mater Dei e membro do CEE/PR

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