Pato Branco

10 motivos para não se automedicar com o “kit covid”

Um debate político permeia a pandemia e atrapalha significativamente a forma como a Saúde do Brasil está lidando com o problema. O chamado “kit covid”, ou “kit de tratamento precoce”, composto por hidroxicloroquina, ivermectina, azitromicina, vitaminas C e D e zinco, divide opiniões: de um lado os discursos ideológicos; do outro a ciência.

Em Pato Branco, um movimento chamado “Sara Pato Branco” fomenta a distribuição gratuita do kit a quem tiver interesse de se “imunizar”. Enquanto isso, a Câmara de Vereadores tenta que o município distribua gratuitamente o kit, projeto que deve ir a votação em breve. Na contramão dessas ideias, a secretária Municipal de Saúde, Lilian Brandalise, é contra a distribuição do kit sem receituário médico (leia a entrevista completa nas próximas páginas).

Separamos 10 evidências científicas para que se refute o “kit covid”. Confira:

1 – Nenhum estudo comprova sua eficácia
Os estudos científicos sobre o assunto mostram que o protocolo é inútil e potencialmente perigoso. Só para começar, dois estudos publicados em novembro na “New England Journal of Medicine”, principal revista médica do mundo, apontou que o uso de hidroxicloroquina e azitromicina não teve benefício em nenhum dos 4.500 pacientes britânicos internados, nem nos 500 brasileiros em estágio moderado da doença. Ao mesmo tempo, um estudo da Universidade Monash, na Austrália, indicou que a ivermectina poderia matar o coronavírus em 48 horas, mas a pesquisa utilizou testes preliminares em laboratório na qual a substância foi testada em uma cultura de células. Mesmo apresentando uma atividade antiviral, a dose necessária de ivermectina para esse fim mata também as células do organismo. O ser humano precisaria de uma hiperdose, o que acabaria nos intoxicando.

2- Os números de hepatite medicamentosa aumentaram devido a ingestão indevida do kit
Esta semana, diversos hospitais registraram casos de hepatite medicamentosa devido ao uso do kit covid. Uma publicação do presidente da Sociedade Paulista de Pneumologia e Tisiologia, Frederico Fernandes, viralizou depois de ele revelar que uma paciente jovem chegou a tomar 18g de ivermectina por dia para tratar um quadro leve de covid e, em função de complicações no fígado, poderia necessitar de um transplante. O gastroenterologista Rafael Carlos Volpato, de Pato Branco, relata que já ocorreram alguns casos de hepatite medicamentosa em pacientes que fizeram uso de ivermectina profilática na região. “Mas até o momento não tivemos nenhum caso grave no Sudoeste”. O médico alerta que todo medicamento, industrial ou fitoterápico, tem efeitos colaterais e não existe medicamento 100% seguro. “A ideia de que ‘mal não faz’ é totalmente incorreta quando estamos falando de medicações. Como estes remédios estão sendo usados em larga escala pela população, e em doses e indicações não preconizadas em bula, o surgimento de efeitos colaterais graves é uma questão de tempo”, analisa. O médico acrescenta que a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) já se posicionaram de forma contrária à utilização do kit-covid.

3- As fabricantes emitiram nota dizendo que os medicamentos não servem para o tratar covid
A farmacêutica norte-americana MSD (Merck Sharp and Dohme), que produz a ivermectina, afirmou que ainda não há evidências de que o medicamento traga benefícios ou seja eficaz no tratamento da covid-19. Em nota, a EMS disse que “com muita seriedade e responsabilidade, como parte de seu compromisso de ajudar a comunidade científica, apoiou dois dos maiores estudos clínicos realizados no Brasil para avaliar a eficácia e segurança da hidroxicloroquina no tratamento de pacientes leves e moderados com coronavírus (…) O resultado, publicado no New England Journal of Medicine, atestou que o medicamento não promoveu melhoria nos quadros clínicos.

4- Há indicação de que os pacientes com sintomas graves que utilizaram o kit têm mais risco de morte
Médicos de centros de referência, como hospital das Clínicas, Albert Einstein e Emílio Ribas, em São Paulo, explicam que efeitos colaterais de medicamentos sem eficácia estão prejudicando o tratamento de doentes graves. Entre 80% e 85% das pessoas infectadas não desenvolvem a forma grave da doença, e usar o “kit covid” não vai ajudar em nada, e talvez nem prejudique – a não ser que a pessoa tome doses excessivas. Mas para os 15% ou 20% que precisam de internação, essas drogas podem prejudicar o tratamento e contribuir para a morte de pacientes, segundo os médicos intensivistas da linhas de frente.

5- Vários órgãos de saúde se posicionam contra o tratamento precoce
Entre eles Organização Mundial da Saúde (OMS), Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), FDA (depois de dispensar dois milhões de doses para o Brasil), Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS), Agência Europeia de Medicamentos (EMA), Associação Médica Brasileira (AMB), Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI). O Conselho Federal de Medicina diz que não reconhece a existência de quaisquer tratamentos válidos para a prevenção ou cura da covid-19, mas defende que o médico tenha autonomia para prescrição de “medicamentos off label”, ou seja, fora da indicação que está na bula, desde que os pacientes sejam alertados para isso.

6- O criador do “kit covid” morreu de covid
Guido Céspedes, médico criador do kit covd, morreu aos 46 anos vítima de coronavírus depois de passar 46 dias em tratamento em unidade de terapia intensiva (UTI). Isso ocorreu em setembro de 2020.

7 – Diversas cidades estão tendo problemas com a Justiça pela distribuição
O Ministério Público tem investigado cidades que distribuem o kit covid, entre elas Sorocaba – SP, São Mamede – PB e Iguaí – ES. A Justiça determinou a suspensão da distribuição do kit e Porto Alegre – RS e Uberlândia – MG, enquanto a prefeitura de Curitiba – PR mandou tirar outdoors que promoviam o kit.

8 – Aumenta um problema sério de saúde pública no Brasil: a automedicação
O grande alerta é justamente para a automedicação, sem receituário médico, um hábito de 77% dos brasileiros, segundo pesquisa do Conselho Federal de Farmácia (CFF). Além de tempo e quantidade superior ao indicado, o problema se agrava se o paciente já toma medicação de uso contínuo que também é metabolizada pelo fígado, agravando o quandro de interação medicamentosa.

9 – Falta conhecimento sobre sua utilização
Há quem confunda tratamento precoce com tratamento preventivo e faça uso do kit covid prevenção à doença. Isso gera dois graves problemas: o primeiro é que, ao pensar que está imunizado, o paciente deixa de lado as medidas de segurança, como distanciamento social, uso de máscara e higiene das mãos. O segundo é que foi apontado que o uso pode retardar a procura de atendimento pela população que, ao perceber os sintomas, acredita ser outra doença por ter utilizado os medicamentos.

10 – Poucos médicos acreditam na eficácia do kit
Dos cerca de 422 mil médicos que estão na linha de frente do combate à covid no Brasil, por volta de 2 mil assinam o manifesto “Médicos pela Vida”, que utilizam informações falsas para defender o posicionamento, como pesquisas sem chancelas.

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