Pato Branco

Mulher que sabe o quer é fogo!

(Paulo Argollo)

Bartolomeu é o menos conhecido dos 12 apóstolos de Jesus. Porém, assim como seus 11 colegas, foi canonizado e celebrado pela igreja católica. São Bartolomeu ficou conhecido por suas peregrinações no oriente, onde acabou morto na região do Cáucaso, sendo esfolado até a morte. Na capela Sistina, ele é retratado segurando sua própria pele em uma das mãos e na outra uma adaga. Apesar de seu destino trágico, acabou recebendo menos atenção e crédito do que merecia e caiu no esquecimento. Por coincidência ou não, o dia 24 de agosto, dia de São Bartolomeu, ficou marcado na história do Brasil como um dia de resistência de pessoas que eram igualmente condenadas ao esquecimento e desprezo.

Em 1759 foi construído o Recolhimento da Nossa Senhora do Parto, ao lado da Capela da Nossa Senhora do Parto. A princípio o prédio fora construído para abrigar prostitutas arrependidas e mulheres perdidas. Mas acabou sendo o lugar para onde eram enviadas mulheres que contrariavam maridos ou pais. Ficou conhecido como o abrigo, pra não dizer prisão, de mulheres adúlteras, pecadoras e desobedientes. Em 1789, lá se encontravam Ana Campista e Matilde. Ambas consideradas adúlteras. As duas nutriam um ódio mortal uma pela outra, não se sabe bem a razão. O que se sabe é que viviam cada uma de um lado do Recolhimento, evitando terem qualquer contato. Mas quis o destino que elas tivessem exatamente a mesma ideia. Motivadas pelo amor, Ana Campista apaixonada por Gil Lopes e Matilde por Lopo de Freitas, planejaram, cada uma em sua cela, sem saber o que a outra pensava o outro lado, incendiar o Recolhimento, para que, no rebuliço do incêndio, pudessem fugir. Pra completar a espantosa coincidência, ambas escolheram a mesma data para a fuga: a noite do dia 24 de agosto.

Cada uma, com seu amante, planejou os detalhes da fuga dias antes do incêndio. Uma dessas conversas acabou sendo ouvida por um notório vagabundo que vivia pelas redondezas e era tido como bêbado e maluco. Ele saiu pela rua gritando “Fogo no Parto! Fogo no Parto!”. Todos riam dele, com exceção de um homem misterioso, que fez com que o maluco se calasse com uma garrafa de vinho. Durante a bebedeira, fez com que o pobre coitado contasse em detalhes tudo que ouviu no locutório do Recolhimento. O maluco conhecido por Bica-Botas acordou na manhã seguinte mal se lembrando do que acontecera na noite anterior.

Chega a noite do dia 24 de agosto. Todas as mulheres do recolhimento se preparam para dormir. Em sua cama, Ana Campista prepara uma pequena trouxa com seus poucos pertences e separa algumas velas que recolhera da igreja dias antes. Do outro lado do prédio, Matilde faz os mesmos preparativos .Já passa de meia noite e todos dormem. Ana Campista se levanta sorrateira e se dirige até a igreja para realizar seu plano. Eis que no corredor entre as celas, Ana Campista e Matilde quase trombam uma na outra. Cada uma com uma trouxa de roupas numa mão e velas na outra. No susto, Matilde tem um súbito desmaio. Ana Campista ampara o corpo de Matilde, não por compaixão, mas por cuidado, evitando qualquer barulho. Com cuidado, o corpo de Matilde é deixado inconsciente ali no chão com sua trouxa e suas velas. Ana Campista segue em frente.

O dia 24 de julho não foi escolhido pelas duas por ser uma data católica, mas sim por ser o início de um período de vendavais na região do Rio de Janeiro. Com o vento, o fogo se espalha mais rápido e é mais difícil de ser contido. Ana Campista acende suas velas e começa o incêndio no fundo da igreja, onde não chama a atenção dos sacerdotes que ainda dormem. Quando o fogo se alastra e toma quase toda a igreja, despertando a todos, já é tarde demais. Não há como contê-lo. O fogo avança rápido pelo prédio vizinho a igreja, o Recolhimento. Quando todos acordam em desespero como prédio cheio de fumaça, encontram no corredor Matilde desmaiada, com sua trouxa de roupas e algumas velas, logo a responsabilizam pelo incêndio. Ninguém dá pela falta de Ana Campista, que a esta altura, já se misturou a multidão e correu para fora do prédio, se esgueirou nas sombras e sumiu.

O destino de Ana Campista é desconhecido até hoje. Porém, o que se sabe é o seguinte. O misterioso homem que interceptou Bica-Botas dias antes do incêndio era um funcionário do pai de Ana, que temia pela vida da filha e não gostava de Gil Lopes, seu amante. Sabendo de todo o plano do casal, seguiu Gil Lopes até o ponto de encontro dos dois. No meio da madrugada, no meio da mata, quando o casal finalmente se encontra, o pai de Ana Campista e seus homens amordaçam Gil Lopes e o amarram a uma árvore e, contra vontade, ela é levada pelo pai.

Na manhã seguinte ao incêndio, Gil Lopes é encontrado amarrado e amordaçado. Ele se recusa a dizer quem causou-lhe aquele mal, sabendo que seria incriminado se contasse a verdade. De Ana Campista e seu pai nunca mais se ouviu falar. O Recolhimento e a igreja de Nossa Senhora do Parto foram reconstruídos tempos depois. O Recolhimento do Parto funcionou no Rio de Janeiro até 1812 aprisionando mulheres injustamente. Matilde continuou reclusa lá até o fim de sua vida, acusada de ter causado o incêndio. E uma das lembranças mais vívidas que as pessoas que viveram aquele evento tinham era do fogo consumindo o prédio com ferocidade, a multidão do lado de fora correndo, tentando apagar o fogo e no meio da bagunça a gargalhada frouxa de Bica-Botas que gritava “Eu avisei! Eu Avisei! Fogo no Parto!”.

Neste Dia Internacional da Mulher eu quero exaltar mulheres como a Ana Campista e a Matilde, que não se abateram pelo destino que tentaram forçar a elas. Mulheres que acreditavam que podiam fazer o que fosse preciso para viver sua vida da maneira que acreditavam. Mulheres que não se deixaram ser menosprezadas ou esquecidas. Todo o meu respeito e admiração a todas as mulheres.

HOJE EU RECOMENDO

Que você procure entender de verdade o real sentido do feminismo e o apoie sem medir esforços.

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