Mulheres, que resolveram continuar com seus negócios durante a covid-19 ou iniciaram no ramo, precisaram dar conta de turnos extras de trabalho

Silvia optou por abrir seu próprio negócio, aos 35 anos de idade, após seu contrato de trabalho ser rescindido durante a pandemia de covid-19; ter sua terceira filha e não ter com quem deixá-la; bem como precisar bancar os estudos da mais velha.

Joana, aos 22 anos de idade, uniu-se à sua amiga e colega da faculdade em um projeto inovador, também durante a pandemia, e criou um modelo de negócios totalmente digital. 

Eliane, com 48 anos, acorda há dez, todos os dias às 5h para trabalhar no campo. Ela abandonou a cidade grande para empreender na agricultura familiar.

Jenneffer, com 37 anos, é mãe de duas crianças, trabalha em tempo integral no seu empreendimento, é artesã e ingressou recentemente na quarta faculdade.

As Silvias, Joanas, Elianes e Jenneffers do Brasil

Silvia, Joana, Eliane e Jenneffer representam todas as Marlenes, Marias, Alices, Anas, Catarinas, Marileis, Luanas e tantas outras mulheres que, diariamente, acordam antes do sol raiar e só param depois de todo mundo já estar muito bem aconchegado dormindo. Isso porque, resolveram empreender, são mulheres e têm uma família — salvo raras exceções, que não são os casos das entrevistadas para esta reportagem.

‘Quem vê close, não vê corre’

Como já bem diz o termo, popularizado na internet, ‘quem vê close, não vê corre’. Quem vê uma mulher empreendedora, dona de seu negócio, não imagina os desafios diários que ela precisou e, muito provavelmente, precisa passar para chegar onde está.

Ser empreendedora tem um significado muito além de ser apenas uma mulher de negócios. A essa profissão incumbem-se outras atividades, como, por exemplo, a de ser mãe em tempo integral, de limpar a casa, preocupar-se com as refeições da família e, claro, cuidar do seu negócio.

Para esta reportagem, com exceção de Joana, todas as outras entrevistadas vivem esta realidade — situação comum na maioria dos casos de mulheres que resolvem empreender pelo Brasil.

É a típica situação ‘se vira nos 30’, ‘faz tudo ao mesmo tempo’, ‘se desdobra em 1.000’, ‘dá conta de tudo’, ‘faz tudo sozinha’, entre tantos outros termos que são sinônimos da exaustão feminina ao tentar ter algo seu, sem abrir mão de ter uma família.

Empreendedoras no Sudoeste

O número de mulheres empreendendo aumentou durante a pandemia, de acordo com dados do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas (Sebrae) Paraná.

Dianalu de Almeida Caldato, consultora do Sebrae/PR, explica que esse crescimento é um reflexo do chamado empreendedorismo por necessidade — quando a pessoa decide investir porque está desempregada e não consegue uma recolocação no mercado.

“A pandemia acelerou muito o empreendedorismo por necessidade. Entre as mulheres isso foi mais acentuado, porque muitas acharam no empreendedorismo a possibilidade de obter renda e garantir o sustento da família”.

Mesmo que o número de empreendedoras tenha aumentado na pandemia, o sexo feminino ainda é minoria na região, e em todo o país. Conforme dados do Sebrae, do total de empreendedores cadastrados no Paraná, mais da metade (54,90%) são homens — deixando às mulheres a fatia de 45,10%. Isso reflete no Sudoeste, pois nenhum dos 42 municípios conta com a participação feminina, em sua maioria nos negócios.

O índice máximo da existência de mulheres empreendendo na região é apontado em Planalto, onde se registra 44,60% de sua atuação. Já o menor, é apontado em Salgado Filho, que contabiliza 33% de seus empreendedores como sendo mulheres.

De um lado cresce, do outro não

Ao mesmo passo em que novos empreendimentos foram sendo criados na pandemia, muitos outros, principalmente os liderados por mulheres, foram extintos.

Conforme Dianalu, o impacto da pandemia nos negócios geridos por mulheres foi, de modo geral, percebido em todo o território nacional. “Tivemos uma retração em média de 1% — estávamos em um crescimento constante —, a qual também foi percebida em nossa região. Hoje, o Paraná conta com 549.972 empreendedoras”, conta.

Segundo a consultora, um dos principais fatores que levaram a essa redução foi a chamada ‘dupla jornada’ que as mulheres assumiram, com ainda mais frequência, na pandemia. Na prática, precisam dedicar mais tempo aos filhos sem aulas, à família toda em casa e ao trabalho, também afetado pela crise global.

Ainda tem o fato de os negócios geridos por mulheres serem, em sua maioria, atividades de estética, moda, beleza e alimentação. E eles foram os setores mais afetados pela pandemia. Sem contar que, historicamente, as mulheres possuem menos acesso a créditos, o que foi um fator decisivo neste momento”.

Dianalu também observa que dupla jornada; preconceito; não reconhecimento do seu potencial; crenças limitantes, como ‘isso não é coisa de mulher’, ‘não dou conta’ ou ‘não devo’; falta de incentivo, tanto da família quanto da sociedade; e, até mesmo, questões comportamentais, como insegurança e baixa autoestima, são os principais fatores que seguram as mulheres na hora de decidir empreender.

As consequências da dupla jornada

De acordo com uma pesquisa feita por Rachel de Souza Fonseca Iagnecz, mestra em Desenvolvimento Regional e colaboradora do grupo de pesquisa Artemis, que estuda gênero, juventude e cartografias da diferença, da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) em Pato Branco, as mulheres que continuaram exercendo atividade remunerada na pandemia tiveram suas jornadas de trabalho dobradas.

“Ela ficou ainda mais extensa, com atividades domésticas e de cuidados somadas às atividades escolares das crianças. A sobrecarga materna é uma realidade que se expressa através dos sentimentos das mulheres, que se sentem cansadas (54,3%), preocupadas (60%,) estressadas (42,9%), angustiadas (37,1%), tristes (11,4%), insatisfeitas (8,6%) e incompetentes (8,6%). Apenas a minoria se diz estar tranquila (11,4%), feliz (11,4%), satisfeita (8,6%) e descansada (2,9%)”.

Esses dados foram obtidos por Raquel por meio de uma pesquisa aplicada em 35 mulheres de Pato Branco, entre julho e novembro de 2020.

“No Brasil, durante a pandemia, a média de horas dedicadas às atividades domésticas chegou a 21,4h semanais para as mulheres e 10,5h para os homens”, finaliza.

Segundo a pesquisadora, para o enfrentamento da problemática “seriam necessários esforços de iniciativas pública e privada, para criação de políticas/projetos que oportunizem o acesso a emprego e renda, que contemplem as diferenças de gênero e oportunizem melhores condições de vida e de trabalho para mulheres que são mães, especialmente àquelas em situação de vulnerabilidade”.

Empreender, muito mais do que uma renda, um ato de liberdade

Caroline Dambrós Marçal atua como advogada no Creas em Pato Branco e é presidente do CMDDHM

Para a advogada do Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas) e presidente do Conselho Municipal de Defesa dos Direitos Humanos da Mulher (CMDDHM) de Pato Branco, Caroline Dambrós Marçal, abrir mão do trabalho remunerado, seja ele um negócio próprio ou não, para ficar em casa, amplia o número de mulheres dependentes financeiramente de seus companheiros.

Ela afirma que a dependência precisa ser analisada com cuidado e pensada se, de fato, vale a pena, uma vez que é um dos principais fatores que levam as mulheres a não conseguir romper ciclos de violência doméstica.

“A ausência da autonomia financeira oprime, pois a incerteza quanto à futura fonte de renda para a própria mantença e dos filhos [diante da possibilidade de uma separação] prende as mulheres à relações abusivas; sobretudo nos casos em que os companheiros agressores também trabalham na informalidade e, portanto, a comprovação de renda, até para fins processuais, torna-se mais dificultosa”.

A advogada comenta ainda que o contexto “escancara a necessidade de políticas públicas de trabalho e renda voltadas especificamente às mulheres em situação de violência doméstica”.

Mas, afinal, quem são as empreendedoras?

Segundo dados do Sebrae, a nível nacional, a maioria das mulheres, donas de seu próprio negócio, tem maior grau de escolaridade do que os homens empreendedores. Elas também são mais jovens e ganham menos. Trabalham sozinhas, menos horas no negócio — fator que pode estar associado à dupla jornada — e 49% são chefes de domicílio.

Ainda, de acordo com o Sebrae, as mulheres são as que menos contratam. Ou seja, acumulam mais funções; têm estruturas de negócio mais simples; contribuem mais à previdência na atividade atual; trabalham mais em casa (55%); e, por fim, seus negócios são menores do que os dos homens.

Conheça um pouco mais sobre a história de cada uma das personagens que ajudaram a construir esta reportagem:

“Tenho três filhas. Uma bebê, com quase um ano de idade, uma com 12 anos e uma com 17. Abri meu negócio para ficar perto delas e também para bancar os estudos, principalmente da maior, que está fora fazendo cursinho. Comecei em novembro vendendo em casa, de porta em porta, e agora eu abri uma loja.
Minha rotina se baseia em ficar com a bebê na loja e em casa. Para a mulher, a carga é sempre mais pesada, porque é casa, filho, trabalho. Não é nada fácil, mas temos que nos virar, com ou sem pandemia. Temos que dar o máximo para poder conciliar família e trabalho.” – Silvia Mara Damer Brandalize, proprietária de uma loja de lingerie e sex shop em Santo Antônio do Sudoeste. 
 
“A ideia de empreender veio em um momento muito oportuno. Tanto eu, quanto a minha sócia, Amanda Hagnes, estávamos trabalhando juntas e tínhamos acabado de sair da faculdade. O desejo de fazer algo maior estava latente. Era o momento da mudança. Oficialmente, são oito meses de empresa.
Entre os desafios de empreender, está o fato de sermos jovens. Mesmo que temos propriedade do que falamos, tem muita barreira quando se trata em lidar com profissionais e empresários mais velhos.
É claro que tiveram situações em que, por sermos mulheres jovens, sentimos sim que éramos subestimadas e até mesmo desacreditadas. A gente sabe que precisamos falar muito mais firme e, muitas vezes, mais alto para que a nossa palavra e serviços sejam aceitos. Aí junta isso com nicho bem novo, em que a cultura ainda precisa ser moldada.” – Joana Novello, sócia-proprietária de uma empresa digital de assessoria e networking para micro e nano influenciadores.
“Abandonei a cidade grande e vim empreender com meu marido no campo, em busca de qualidade de vida. Hoje, trabalhamos com lavoura, hortaliças e panificados. Como sempre fui do interior, eu quem guiei nossa família na transição para a agricultura, então as pessoas estranham quando me veem tomando algumas decisões sem meu marido.
Além disso, todos nossos financiamentos são em meu nome, já que meu marido teve uma empresa antigamente e não pode fazer outros. Essa situação já me causou desconforto, uma vez que um bancário deduziu que meu marido era o com maior renda. Eu senti que isso foi preconceito comigo, por eu ser mulher. Como se eu não pudesse ter renda, não fizesse nada. É como se só o homem quem faz tudo.
Por ter mais liberdade no campo, sinto que até sou chamada de ‘machona’. Às vezes até sinto vergonha e me retraio porque eu sinto que as pessoas pensam que eu mando no meu marido, mas não é assim. Aqui nós dois dividimos e nos apoiamos em tudo. Muito diferente da realidade que eu vejo.
Mas, mesmo sendo parceiros, ainda há atividades do lar que eu faço sozinha, sem ajuda de ninguém.” – Eliana Teresinha de Abreu Silva, agricultora residente na comunidade Campina em Chopinzinho.
“Trabalho com micropigmentação de sobrancelhas, olhos e lábios. Sou artesã e estou na minha quarta faculdade. Durante o dia fico em meu atelier e, à noite, tenho aulas. Depois disso, faço os afazeres domésticos. Entre uma atividade e outra, tiro um tempo para meu marido e meus filhos. Posso dizer que tenho uma jornada mais que tripla.
Nesse processo de empreender passei por altos e baixos, mas aprendi a lidar com a situação e com as críticas por ter uma vida agitada. Entendi que podemos fazer tudo, só precisamos entender nossos limites e sermos felizes.
Trabalho e estudo porque amo. Me sinto viva. Me sinto amada no meu meio em que estou inserida. Me sinto amada pelo meu marido e filhos. Isso sim é o combustível para eu poder seguir em frente.” – Jenneffer Kelly Rodrigues Nichelle, empresária formada em história, filosofia, pedagogia e especialista em metodologia do ensino de história e religião, em micropigmentação e maquiagem e acadêmica de biomedicina, residente em Coronel Vivida.

Presença de mulheres empreendedoras no Sudoeste

Municípioíndice (%)
Planalto44,70
Realeza41,90
Capanema41,80
Cruzeiro do Iguaçu41,20
São João41,10
Santo Antônio do Sudoeste41,00
Barracão40,90
Dois Vizinhos40,80
Francisco Beltrão40,60
Ampére40,30
Coronel Vivida40,30
Renascença39,80
Sulina39,70
Pranchita39,60
Marmeleiro39,50
Salto do Lontra39,40
Clevelândia39,30
Palmas39,20
Saudade do Iguaçu39,20
Bela Vista da Caroba39,20
Flor da Serra do Sul39,10
Mangueirinha39,00
Bom Sucesso do Sul39,80
Boa Esperança do Iguaçu38,80
São Jorge D’Oeste38,70
Pato Branco38,60
Santa Izabel D’Oeste38,70
Itapejara D’Oeste38,20
Honório Serpa37,90
Chopinzinho37,80
Pérola D’Oeste37,80
Nova Esperança do Sudoeste37,70
Coronel Domingos Soares37,60
Enéas Marques37,50
Manfrinópolis37,30
Verê37,10
Mariópolis36,90
Nova Prata do Iguaçu36,70
Vitorino36,70
Pinhal de São Bento36,40
Bom Jesus do Sul35,60
Salgado Filho33,00
Fonte: Sebrae/PR