Ultrapassando fronteiras: famílias ampliam agroindústrias com adesão ao Susaf-PR

Irmãos Everton e Anderson (Crédito: Paloma Stedile) / Roseli Martinazzo (Crédito: Marcilei Rossi)

Em meio à pandemia da covid-19, agroindústrias do Sudoeste têm recebido boas notícias. No município de Itapejara D’Oeste, por exemplo, duas delas foram incluídas no Sistema Unificado Estadual de Sanidade Agroindustrial Familiar, Artesanal e de Pequeno Porte do Paraná (Susaf-PR), no início deste mês: Queijos Martinazzo, situada na comunidade de Linha Santa Bárbara; e Pescados Doichmann, na comunidade de Lajeado Bonito.

Com isso, além de comercializar os seus produtos em Itapejara D’Oeste, possibilita com que expandam os seus negócios para outros municípios paranaenses.

Mas, para obter essa adesão junto ao Susaf-PR, eram necessários alguns requisitos. Sobretudo, que o Município tivesse o Serviço de Inspeção Municipal de Produtos (SIM) de origem animal.

No caso de Itapejara D’Oeste, ele já estava instituído desde 14 de abril de 1998, por meio da Lei Municipal N° 602/98, e, atualmente, é regulamentada pela Lei Municipal N° 1844/2019 e pelo Decreto nº 080/2021, que dispõe sobre a inspeção sanitária e industrial dos produtos de origem animal.

Conforme o diretor de Agricultura e Meio Ambiente de Itapejara D’Oeste, Leandro André Petkowicz, o SIM é vinculado ao departamento e foi criado para garantir segurança à população ao consumir carnes, leite, queijo, ovos, mel e demais produtos de origem animal.

Ele explica que, por meio do SIM, as agroindústrias interessadas em obter o selo são avaliadas na produção, manipulação, beneficiamento, transformação, industrialização, fracionamento e preparação desses produtos; bem como são analisados projetos arquitetônicos dos estabelecimentos.

“Atendendo aos requisitos, elas recebem o Certificado de Registro no SIM – Itapejara D’Oeste e passam a ser autorizadas a comercializar esses produtos de origem animal exclusivamente dentro do município”.

Por meio do SIM, Petkowicz conta que é possível ter o controle das Boas Práticas de Fabricação (BPF), evitando, dessa maneira, doenças como: teniose, brucelose, tuberculose, listeriose e salmonelose, que causam danos à saúde. “Atualmente, sete agroindústrias de Itapejara D’Oeste estão registradas no Serviço de Inspeção Municipal. Além da Queijos Martinazzo e da Pescados Doichmann, há duas unidades de beneficiamento de ovos e derivados; uma granja leiteira; e dois abatedouros frigoríficos de suínos”, enumera.

Susaf-PR

O Sistema Unificado de Atenção à Sanidade Agroindustrial Familiar e de Pequeno Porte (Susaf-PR) foi criado por lei em 2013, porém regulamentado apenas no ano passado. Ele envolve um conjunto de ações de inspeção sanitária e de fiscalização dos produtos oriundos da agricultura e agroindústria familiares, de produção artesanal e de agroindústria de pequeno porte. “Com esse selo, produtos industrializados coloniais [derivados de carne, leite, pescado, ovos e mel] podem ser vendidos livremente não só em seu município de origem, mas em todos os demais do Estado”, destaca o diretor.

Ele conta que, logo após a publicação da Portaria Nº 081, de 29 de abril de 2020, pela Agência de Defesa Agropecuária do Paraná (Adapar) — que trata a respeito do Susaf-PR —, o município de Itapejara D’Oeste encaminhou o pedido de adesão à câmara técnica do Suasa/Susaf-PR, dando início ao processo de aprovação. “No início deste ano, o Município teve a adesão ao Suasa/Susaf-PR, possibilitando as agroindústrias de pequeno porte de Itapejara D’Oeste comercializarem seus produtos em todo o Estado do Paraná. Logo após receber o parecer favorável da câmara técnica, o Departamento de Agricultura e Meio Ambiente indicou as agroindústrias Queijo Martinazzo e Pescados Doichmann, que felizmente foram contempladas”, diz, reiterando que, para isso, precisavam ter registro no SIM.

Assim, esses estabelecimentos e os demais que recebem o registro no SIM/Susaf-PR devem apresentar no rótulo dos seus produtos a chancela do SIM — nesses casos de Itapejara D’Oeste —, acompanhada da chancela do Susaf-PR.

Conforme Petkowicz, no momento há outros dois estabelecimentos do município que estão se adequando às exigências para poderem receber o selo Susaf-PR: Produtos Lácteos Borgoli, situado na comunidade de São Miguel; e Embutidos Weber, na comunidade de Barra do Vitorino. “Acreditamos que, em um prazo de três meses, já estarão aderidos ao Susaf-PR”.

Do fogão para a agroindústria

Há 34 anos, Roseli se casou com Claudemir Martinazzo; e trabalhavam com o plantio de milho e soja. Naquele tempo, ela observava a sua sogra fazendo queijo e, com isso, aprendeu, bem como despertou a iniciativa de também produzir em sua casa.

Mal sabia a moradora da comunidade de Linha Santa Bárbara que, com o passar dos anos, essa seria a principal fonte de renda da família, obtendo com a agroindústria Queijos Martinazzo inclusive prêmios, como o Paraná Queijo Artesanal, em 2018; a premiação ouro, no Queijo Brasil, em 2019; e, agora, o selo Susaf-PR.

Conforme a agricultora, há 18 anos o casal produz queijo. A princípio era tudo improvisado, numa panela em cima do fogão à lenha. Depois de alguns anos, em 2008, eles ganharam um pasteurizador, a fundo perdido da prefeitura, e construíram a agroindústria, na qual produzem até hoje.

No início, ela conta que produziam apenas uma peça por dia, entre 1,5 e 2 kg cada. Com o pasteurizador, passou para uma média entre 25 e 30 peças de queijo por dia, em vários tamanhos, entre 0,5 e 8 kg.

“Agora está mais baixa a produção, devido à diminuição de pastagem nessa época do ano. Mas no forte do verão conseguimos chegar a 30 peças de queijo por dia. Pretendemos manter nessa meta, tendo em vista que trabalhamos somente meu esposo [na ordenha], meu filho e eu [na produção]”.

Quanto à matéria-prima, conforme a produtora, é exclusivamente da propriedade da família. “Temos 15 vacas, mas na ordenha são 12, as quais produzem 190 litros por dia; tudo destinado para o queijo”, diz Roseli, completando que a produção é comercializada até então somente no município, em três mercados.

Para ela, a adesão ao SIM/Susaf-PR é de grande importância, pois “é uma chance de crescer e tornar meu produto mais conhecido por outras pessoas”, comemora.

De pai para filhos

Há 38 anos, a família Doichmann mora na comunidade de Lajeado Bonito, interior de Itapejara D’Oeste. A princípio, trabalhava especificamente com lavoura e leite para comercialização; e, há duas décadas, criava tilápia para consumo próprio, em um açude.

Com o passar do tempo, começou a também vender tilápia para outros abaterem. “Como estava ruim a venda, há dez anos a nossa família resolveu produzir filé de tilápia, o que aumentou a procura”, conta Everton Júnior Doichmann.

No começo, seu pai e seu irmão [Pedro e Anderson, respectivamente] começaram a produção dos filés, com um açude, no qual eram criadas em torno de 6.000 tilápias por ano; e abatidos cerca de 200 kg por dia, em um pequeno tanque, ao lado de sua casa.

“Quando passou de 200 kg, o pai fez o investimento em um frigorífico. E começaram a abater entre 300 e 500 kg por dia. Daí ele teve problemas de saúde, há quatro anos, e precisou parar com as atividades”, diz Everton, completando que, a partir daí, ele passou a auxiliar o irmão. Hoje, são oito açudes, nos quais são criadas cerca de 100 mil tilápias por ano e abatidas 2.500 kg por semana.

“Trabalhamos em seis pessoas. Apenas dois da mesma família [meu irmão e eu]. Um corta o peixe, dois fazem o filé, dois limpam e um embala”, explica, acrescentando que a Pescados Doichmann conseguiu o SIM há, aproximadamente, três anos.

Com isso, a família passou a comercializar o produto em cerca de 50 empresas, distribuídas entre os municípios de Itapejara D’Oeste, Coronel Vivida, Dois Vizinhos, Francisco Beltrão, Santa Izabel D’Oeste, Salgado Filho, Cruzeiro do Iguaçu, Nova Prata do Iguaçu, Marmeleiro, Quedas do Iguaçu, Chopinzinho e Ampére.

“Agora, com a certificação SIM/Susaf-PR, a meta é aumentar a quantidade de abate de dez para 15 toneladas por mês, uma vez que isso faz com que aumente a possibilidade de mais comércios e clientes em todo o Paraná”, destaca, finalizando que a agroindústria prima pela qualidade, entregando 100% peixe, sem gelo ou água.