Saúde

A aids não tem cara

Com evolução do tratamento, o paciente portador de HIV que desenvolve a aids deixou de ter cara de doente, no entanto a doença ainda está presente no mundo todo

Todo dia 1º de dezembro marca o Dia Mundial de Combate a Aids, uma doença que surgiu nos anos de 1980 como uma sentença de morte, mas que hoje mostra uma realidade completamente diferente.

Reconhecida como doença em 1981, ela ganhou o nome de Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (Aids) em 1982, e apesar de suspeitarem que ela era transmitida através de sangue contaminado sua causa ainda era desconhecida.

O vírus foi isolado pela primeira vez em 1983.

Entre 1984 e 1985, devido ao número de mortes causados pela Aids, o mundo viveu uma verdadeira histeria, com portadores da doença sendo perseguidos. Essa fase se reflete até hoje no preconceito sofrido por portadores do HIV.

Também foi em 1985 que apareceu o teste que identifica a presença de anticorpos no sangue, mas o nome HIV surgiu apenas em 1986.

Os Estados Unidos chegaram a proibir a entrada de portadores HIV no país – lei revogada somente em 2010 –, e a a primeira droga para ajudar no tratamento da doença, o AZT, foi criada em 1987.

Entre 1988 e 1990, os cientistas descobriram que, conforme o vírus circula no sangue, vai reduzindo a imunidade, e isso ocorre muito antes do aparecimento dos sintomas da Aids. Por isso, eles mudaram o alvo de ação: o objetivo do tratamento passou a ser manter os níveis de vírus no sangue baixos.

O dia 1º de dezembro de 1988 marcou primeiro dia mundial contra a aids, com o lançamento de uma campanha de conscientização no mundo todo. Mas foi em 1992 que o laço vermelho virou o símbolo dessa luta.

Também foi em 1992 que a aids se tornou a primeira causa de morte entre homens de 25-44 anos nos Estados Unidos e que foi licenciado o primeiro teste rápido.

Enquanto isso, no Brasil, o AZT passou a ser distribuído pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e, posteriormente, fabricado no país. Descobriu-se que ele era capaz de cortar a transmissão do vírus de mãe para filho durante a gestação e o parto.

A campanha de conscientização foi crescendo, e em 1993 a televisão começou a exibir informes sobre a importância do uso de preservativos durante a relação sexual na prevenção à transmissão do HIV.

O ano de 1996 marcou o início do tratamento antirretroviral, e o coquetel utilizado é capaz de baixar a taxa viral a níveis quase indetectáveis no sangue, reduzindo as mortes por HIV em 40%.

No entanto, entre 1998 e 2000, os efeitos adversos desses tratamento começaram a surgir, com colaterais graves e falhas, e foi quando a FDA aprovou novas classes de antirretrovirais: os inibidores de protease.

Nesta época, a aids se tornou a principal causa de morte no mundo entre pessoas de 15 a 59 anos e, por isso, em 2006, a Unaids passou a recomendar a circuncisão como forma de redução do risco de transmissão da mulher para o homem em locais de alto risco.

Em 2012, a FDA aprova o uso de Tenofovir/Entricitabina como Profilaxia Pré-Exposiçao – PrEP com o objetivo de prevenir novas infecções entre pessoas de alto risco, e em 2016 ela chegou ao Brasil, disponibilizada pelo SUS.

O CDC – Centro de Controle de doenças dos Estados Unidos, definiu pela primeira vez que pessoas com Carga Viral indetectável não transmitem o vírus, mesmo em relações sexuais sem preservativo.

Hoje, mesmo que a aids – ou doenças relacionadas – já tenha matado 32,7 milhões de pessoas desde o início da epidemia até o fim de 2019, é possível conviver com o HIV com ótimo prognóstico. Para isso, é preciso a detecção e o tratamento correto que, no Brasil, é feito inteiramente pelo SUS. No entanto é importante alertar para as coinfecções, que ainda levam muitos pacientes à óbito devido a baixa imunidade causada pelo vírus no organismo.

Em 2019, havia 38 milhões de pessoas vivendo com HIV, sendo que 81% conheciam o seu estado sorológico – cerca de 7,1 milhões de pessoas não sabiam sobre a infecção. Cerca de 25,4 milhões tinham acesso à terapia antirretroviral, um aumento de 6,4 milhões em relação a 2009.

Com isso, as novas infecções foram reduzidas em 40% desde o pico, em 1998, e as mortes relacionadas à aids foram reduzidas em mais de 60% desde o pico em 2004.

Pato Branco

Conforme Bernadete Centurion, coordenadora do COAS – Centro de Orientação e Apoio Sorológico de Pato Branco – que presta atendimento na área de Saúde Pública aos pacientes Usuários do SUS portadoras de IST/HIV/AIDS/HEPATITES VIRAIS, bem como trabalha a prevenção, promoção e proteção à saúde – há, no Centro, aproximadamente 350 pacientes em acompanhamento e tratamento. “Esses dados oscilam com frequência devido ao elevado número de transferências oriundas de outros municípios e novos casos”, explica.

Bernadete comenta ainda que a faixa etária dos pacientes são as mais variadas. “Temos crianças a partir de 5 anos de idades até idosos com mais de 80 anos, mas a maior prevalência hoje está na faixa etária de 20 a 39 anos, pacientes jovens em fase reprodutiva”, diz. Destes, há aproximadamente 64 Crianças exposta ao HIV em acompanhamento.

Bernadete observa que os números permanecem estáveis, sendo 25 novos casos diagnosticados em 2019 e 15 em 2020. “Acreditamos que essa diminuição dos casos se deu devido a pandemia da covid-19, ou seja, nossos trabalhos foram reduzidos e, automaticamente, o diagnóstico também”, reflete.

Jovens

A coordenadora do COAS diz que, no Brasil, a epidemia de HIV é concentrada em alguns segmentos populacionais que respondem pela maioria de casos novos da infecção, como gays e outros homens que fazem sexo com homens, além de pessoas trans e profissionais do sexo. Destaca-se ainda o crescimento da infecção pelo HIV em adolescentes e jovens. “Nos anos 80, a aids tinha cara, hoje não tem. Ou seja, as pessoas não tem mais a fisionomia de doente devido a eficácia da medicação”, fala. Por isso, o medo da infecção diminuiu.

Bernatede acredita que o resultado positivo para o HIV está relacionado, principalmente, ao número de parcerias. “Quanto mais parceiros, maior a vulnerabilidade”, alerta. Também tem a ver com a coinfecção com outras doenças sexualmente transmissíveis e às relações homossexuais. “Percebemos e acreditamos, felizmente, que melhorou bastante essa questão da sexualidade na base familiar, e que isso realmente é cultural. Percebemos, em nosso dia a dia, que os pais estão mais informados a respeitos das ISTs (infecções sexualmente transmissíveis), e que falam a respeito dessas doenças com seus filhos e recomendam o uso dos preservativos nas relações, mas estamos muito longe do ideal”, diz.

Ela ainda pondera que o uso indiscriminado de álcool e outras drogas ajudam na disseminação dessas doenças. “Os jovens iniciam a vida sexual mais cedo, de forma desprotegida e inconsequente, achando que ninguém mais morre de aids, banalizando a doença, pois pensam que, se pegarem o vírus, é só tomar um remedinho que está tudo bem. Infelizmente ainda se perdem pacientes com aids devido as coinfecções ocasionadas pela imunidade baixa e diversos fatores correlacionados a doença”, indica.

Além disso, para Bernadete, muitas pessoas ainda não gostam de ouvir sobre o assunto e tem medo de fazer o exame. “Existe, ainda, muito preconceito com relação à doença”.

Transmissão, PEP e PrEP

A transmissão se dá através de relação sexual (heterossexual ou homossexual) sem preservativos; ao se compartilhar seringas; em acidentes com agulhas e objetos cortantes infectados; na transfusão de sangue contaminado; na Transmissão Vertical da mãe infectada para o feto durante a gestação ou no trabalho de parto e durante a amamentação.

Existe, hoje, a PEP sexual, que é a profilaxia pós-exposição. “É a medida de prevenção que consiste no uso de medicamentos até 72 horas após a relação sexual (preferencialmente nas primeiras 2 horas), por 28 dias, para reduzir o risco da transmissão de HIV quando ocorrer falha ou não uso da camisinha. É também, indicada em casos de violência sexual contra mulheres ou homens e em casos de acidentes com materiais biológicos e pérfuro cortantes”, conta a coordenadora.

Há também a PrEP, que consiste no uso de antirretroviral continuamente por quem faz parte do grupo mais vulnerável para reduzir o risco de adquirir a infecção do HIV, e faz parte das estratégias de prevenção combinada do HIV. “É uma estratégia adicional de prevenção, disponível no Sistema Único de Saúde de Pato Branco, com objetivo de reduzir a transmissão do HIV e contribuir para o alcance das metas relacionadas ao fim da epidemia”, comenta.

O SUS disponibiliza, ainda, o Teste Rápido para HIV – Sífilis – Hepatite B e Hepatite C, em todas as Unidades Básicas de Saúde, UPA – Unidade de Pronto Atendimento e no COAS. “Os mesmos são ofertados aos pacientes obedecendo aos princípios de humanização. Esses testes demoram em média de 30 minutos, sendo que o paciente, no momento da execução, são orientados a respeito dessas doenças”, explica.

O Centro de Orientação e Apoio Sorológico de Pato Branco – COAS fica na Rua Paraná, 340, e seu horário de atendimento é das 7h horas às 12h e das 13h às 16h, de segunda a sexta feira. O telefone para contato é 046 3213-1730, e o e-mail: [email protected].

A equipe do COAS é formada por Maurício Centurion Candia (Médico Responsável Técnico), Maria Jurema Rangel Nunes (Enfermeira Responsável Técnica), além de Bernadete.

*Com informações do Unaids e Dra. Keila Freitas (médica infectologista)

Clique para comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Para cima