Saúde

Diretrizes orientam assistência ao luto por perda do bebê na gestação ou primeiros dias de vida

No Brasil são poucos os estudos e orientações sobre o luto perinatal, período enfrentado pelas mães que perdem uma gestação ou o bebê nos primeiros dias de vida. Também não há diretrizes para os profissionais da saúde na assistência a essas mulheres e seus familiares.

Essa falta de acompanhamento e apoio foi enfrentada pela professora universitária Maria Fernanda Queiroz Ceron, que, aos 35 anos, já casada há bastante tempo, resolveu que estava na hora de ter filhos. Mas o planejamento, inicialmente, não saiu como esperado. Aos três meses da primeira gravidez, descobriu que o bebê, um menino, tinha má formação cardíaca e dificilmente a gravidez chegaria ao fim. Desde então acompanhou semanalmente a gestação para “esperar” a morte do feto, que ocorreu oito semanas após o diagnóstico da má formação. No dia seguinte da constatação do óbito, ela foi internada e teve o parto normal induzido por medicamentos. “Foi uma fase muito difícil, teve toda a expectativa do primeiro filho, e isso acompanhado de perguntas e felicitações dos amigos e parentes. Não tive apoio psicológico, também não quis procurar, não sabia o que fazer.”

A tristeza que tomou conta da professora só foi interrompida pela expectativa da segunda gravidez e com a chegada da Marina, hoje com 2 anos, esbanjando saúde e alegria. “Depois da primeira gestação foi muito difícil decidir pela segunda, pois fiquei muito traumatizada com tudo o que ocorreu.” 

Para orientar os serviços de saúde na assistência a essas mães, a psicóloga e pesquisadora Heloisa de Oliveira Salgado, pós-doutoranda na Faculdade de Medicina da USP, trabalha no desenvolvimento de um protocolo com diretrizes para o atendimento durante o luto perinatal.

Esse não é o primeiro trabalho da pesquisadora sobre o tema. Em 2018 ela publicou o livro  Como lidar: luto perinatal, junto com a professora Carla Andreucci Polido, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Na obra, as autoras adaptaram as diretrizes canadenses para a realidade brasileira.

Agora, no pós-doutorado, Heloisa amplia as informações do livro, utilizando também as diretrizes britânicas para validação de um protocolo específico para o Brasil. “Na proposta, partimos do pressuposto de que essas famílias têm pouca ou quase  nenhuma memória do bebe ou da gestação que foi perdida. Todo o trabalho é no sentido de a família construir e coletar memórias, pois essas memórias criadas e vividas são importantes e serão acessadas no processo do luto.”

Diretrizes envolvem a mãe, familiares e os profissionais da saúde

A pesquisadora lembra que todo o processo de luto envolve uma boa assistência, a começar pelo comunicado do óbito, sem esquecer da possibilidade de se criar uma possível caixa de memórias com itens e lembranças do bebê. Além da necessidade de memórias físicas e sensoriais, Heloisa salienta que são importantes as memórias emocionais: “A mãe e familiares precisam se sentir acolhidos em todos os momentos desse processo, até mesmo nas questões do funeral”.

Mas, nesse processo, diz, é importante que a família participe das tomadas de decisões em conjunto com a equipe de assistência e que seja acompanhada também depois da alta, como no processo de investigação das causas do ocorrido e até na decisão de uma nova gestação. “Medos e inseguranças farão parte de uma nova gestação, as questões que levaram à perda da gestação anterior vão surgir durante a nova gestação, no parto e até mesmo no pós-parto, e isso deve ser lavado em conta pelas instituições e pelos profissionais.

Na proposta de Heloísa, além da assistência e acompanhamento, aparece a figura do profissional do luto, um profissional de dentro da instituição, com conhecimento sobre a teoria do luto para fazer a interface com a família em momentos específicos, por exemplo no momento em que as famílias não vão querer ver o bebê, o que segundo Heloísa é importante. “A grande maioria vai se arrepender de não ter visto. E esse profissional tem também formação e experiência para trabalhar junto à equipe de profissionais, que também precisam de suporte e apoio, pois estão na linha de frente do atendimento.” A psicóloga explica que o nascimento de um bebê em óbito é um momento diferente daquilo que se desejava, pois pais e mães desejam filhos vivos e saudáveis, por isso é tão necessário dar um fechamento para essa situação e “é na maternidade que isso acontece”.

Heloisa lembra ainda que durante a pandemia os profissionais da saúde têm alertado sobre a possibilidade de uma epidemia de luto complicado naqueles que perderam familiares para a covid-19 e não conseguiram se despedir, “o que não é diferente do que passam as mulheres que perdem uma gestação ou um bebê”. (Jornal da USP)

Clique para comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Para cima