Saúde

Harmonização facial: qual o limite para a beleza?

Há cerca de 4, 5 anos, a “harmonização facial”, como é chamado um conjunto de procedimentos que promete deixar o rosto mais, como o próprio nome diz, harmônico, ganhou os instagramáveis. O resultado são pessoas mais semelhantes entre si, com rostos angulosos, mandíbulas proeminentes, maçãs do rosto marcadas pela falta de gordura na bochecha, expressões congeladas pelo botox, sobrancelhas desenhadas por micropigmentação, narizes delicados, lábios carnudos…

Até pouco tempo, todo mundo parecia bem feliz com essa harmonia, mas recentemente o cantor Lucas Lucco anunciou que reverteria esse processo por não se reconhecer mais quando olhava no espelho, e então abriu-se o questionamento: todo mundo realmente precisa de harmonização facial? Por que, na beleza, sempre se estabelecem padrões?

Conforme a médica dermatologista Vanessa Sokoloski Schirr, o rosto é a parte mais importante de toda a imagem corporal, afinal ele é o nosso cartão de visitas. “Muito se fala sobre considerar um rosto harmonioso aquele que apresenta medidas relacionadas ao conceito eurocêntrico da proporção áurea ou da espiral de Fibonacci, que são baseados em medidas e cálculos, cujo resultado final consistiria num rosto harmonioso, mas penso que um rosto harmonioso transcende números: ele condiz com a personalidade, características psicossociais, etnia e que representa o indivíduo pelos códigos não verbais que expressa”, diz.

Ou seja: para a médica, rosto harmonioso é aquele que é autêntico. “Qualquer tentativa de tornar um indivíduo como uma caricatura através de procedimentos padronizados ou que modifique sua diversidade estética é um rosto sem harmonia”, define.

Harmonização facial e o uso de preenchedores

Harmonização facial, explica Vanessa, é um termo que se difundiu amplamente com a ideia de estar relacionado a preenchimento facial, mas que vai muito além. “Usar preenchedores, na verdade, é um desfecho que pode ou não ser indicado a depender do desejo do indivíduo e da avaliação do médico. Para mim, harmonização facial é um contexto de bem-estar do indivíduo que pode abranger um corte de cabelo, desenho de sobrancelha, deixar ou não barba, diminuir flacidez e melhorar textura da pele e, por fim, de amenizar rugas de expressão ou sulcos, definir ângulos faciais, volumizar compartimentos com pouca estruturação ou projeção. Então vemos que o uso de preenchedores é apenas uma das possibilidades para se harmonizar um rosto”, avalia.

A dermatologista diz que o uso de preenchedores está indicado para indivíduos que apresentem perda de volume, seja por diminuição de compartimentos de gordura, estruturas ósseas ou de colágeno que ocorrem durante o processo de envelhecimento. Também para minimizar sulcos demarcados, falta de definição de ângulos, pouco volume nos lábios, “mas sempre com objetivo de um resultado estético natural, belo e principalmente melhorando a autoestima sem descaracterizar o indivíduo”.

Isso porque Vanessa enxerga uma banalização de procedimentos estéticos “e, principalmente, feitos de forma não parcimoniosa e sem senso estético, o que reflete em indivíduos que perdem sua identidade, sua beleza nata, suas características pessoais e muitas vezes até alguma particularidade que a tornavam única e bela mas que foi ‘corrigida’ em um procedimento”, avalia.

A principal falha, na visão da médica, é uma lacuna que existe entre avaliação do paciente, indicação correta e alinhamento de expectativas. “O papel de quem executa o procedimento é trazer o paciente para a sua realidade estética. Me preocupa pensar que para muitos indivíduos o belo seja se distanciar de sua essência, diferenciar-se de si e projetar na sua imagem pessoal a característica do outro”, define.

Menos é mais

Para Vanessa, menos é mais, principalmente porque muitas vezes não se trata de excesso de produto, mas de execução mal realizada ou mesmo sem indicação correta. “A avaliação minuciosa do paciente, orientando e trazendo as informações que faltam, percebendo quais os seus objetivos reais com relação ao procedimento, suas expectativas com o resultado e tomada de decisões de forma sensata e coerente é a melhor forma de não errar a mão”, indica.

A dermatologista diz ainda que há várias formas de melhorar os atributos faciais, realçar o que há de belo, minimizar características indesejáveis que não necessariamente com procedimentos com preenchedores. “Também há como fazer tudo isso com preenchedores, mas de forma sutil. Para isso é necessária a abordagem integralizada da pessoa, que não deve ser vista apenas como ‘compartimentos a serem preenchidos’”.

Quem optar pela harmonização facial deve buscar um profissional com habilidade de realizar essa ampla abordagem “e que seja também qualificado a manejar eventuais complicações inerentes ao procedimento, ou seja, um médico especialista nas áreas de dermatologia/cirurgia plástica que tenha sua forma de abordagem e execução de procedimentos alinhadas com as do paciente”, aconselha a médica. “Vale a reflexão de que indivíduos não são compartimentos a serem preenchidos, somos muito mais do que eu isso. Somos, acima de tudo, essência”, finaliza.

Legenda: Vanessa Sokoloski Schirr é médica dermatologista

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O que é proporção áurea?

Matematicamente falando, a proporção áurea é uma constante real algébrica irracional obtida quando dividimos uma reta em dois segmentos de forma que o segmento mais longo da reta dividida pelo segmento menor seja igual à reta completa dividida pelo segmento mais longo, e seu valor é constituído por 1,6180339887… ou, arredondando, 1,6180. Complicado de entender? Nós também achamos, por isso vamos ilustrar.

COLOCAR AQUI A IMAGEM DA PROPORÇÃO ÀUREA

Sua representação por meio da letra grega PHI (φ) foi inspirada no arquiteto, Phidias, que teria usado o conceito da proporção áurea no projeto do Parthenon, ainda no século V a. C. A natureza de número irracional atribuída ao segmento áureo significa que nunca haverá nada exatamente com o seu valor numérico. E quanto mais próximo algo estiver desse número, maior será considerada a sua proporcionalidade e simetria.

acredita-se que a secção áurea é usada há mais de 4 mil anos na arquitetura, no design e outras áreas, e que até os egípcios antigos a empregaram na construção das pirâmides de Gizé. Além deles, os gregos teriam projetado alguns dos seus mais importantes monumentos com base em seus princípios.

Suas aplicações remontam há séculos. A relação entre a razão áurea e as artes pode ter nascido de um livro escrito por um monge italiano, Luca Pacioli, intitulado: “De Divina Proportione”, no século XVI, e confiou ao seu amigo Leonardo da Vinci as ilustrações do manuscrito.

A partir desse ponto, a proporção divina teria sido empregada em incontáveis quadros e esculturas renascentistas, com o objetivo de alcançar mais equilíbrio e beleza nas composições. Da Vinci seguiu aplicando o conceito em sua obra “A última Ceia”, “Mona Lisa”, e o “Homem Vitruviano”. Assim como ele, outros artistas fizeram o mesmo, entre eles, Botticelli, Michelangelo, Raphael, Salvador Dali e Rembrandt.

No entanto, engana-se quem considera sua aplicação apenas em obras ou monumentos arquitetônicos. Sua abrangência tem caráter universal, alcançando a organização dos ossos humanos e dos animais, a ramificação de nervos e veias, os galhos das árvores, a disposição das pétalas das flores, as conchas de animais marinhos, a formação das galáxias, a geometria dos cristais e até o DNA.

Há quem diga que a razão áurea também pode ser encontrada na nona sinfonia de Beethoven, ações da bolsa, peças maçônicas, templos, pirâmides, palácios e na proporção do corpo humano. Além disso, é amplamente explorada na literatura pop, como na obra “O Código da Vinci”, do escritor Dan Brown. E, agora, na harmonização facial.

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