Saúde

Macacos servem como marcadores para contenção da Febre Amarela

Quando um macaco é encontrado morto, com suspeita de Febre Amarela, é um sinal de que é preciso atenção redobrada para evitar surto da doença naquela região. No entanto, leigos acreditam que eles são responsáveis pela transmissão, o que é errado. Ao contrário, além de ser crime ambiental, matar macacos pode atrapalhar o monitoramento da doença

A Febre Amarela, doença hemorrágica viral aguda causada pelo vírus o gênero flavivírus, e que pode ser prevenida através da vacinação, teve seu último surto em 2016-2017, quando 777 casos, com 269 mortes, foram confirmados. Mesmo que tenha atingido muitas áreas urbanas, a forma predominante foi a silvestre, sendo a Febre Amarela urbana considerada erradicada desde 1942, conforme informação da Fiocruz.

Na época, o Ministério da Saúde relacionou o fato à baixa cobertura vacinal, que de lá pra cá tem diminuído ainda mais. Como agravante, um dos vetores da forma urbana da doença é o Aedes argypti, mosquito que também transmite Chikungunya, Dengue e Zika, e que todo verão se prolifera desmedidamente pela falta de cuidado da população, causando graves problemas sanitários, por isso há uma grande preocupação das autoridades em saúde de um retorno.

Conforme trecho de artigo retirado da Biblioteca Virtual em Saúde, do Ministério da Saúde, “a febre amarela silvestre ocorre, principalmente, por intermédio de mosquitos do gênero Haemagogus. Uma vez infectado em área silvestre, a pessoa pode, ao retornar, servir como fonte de infecção para o Aedes aegypti (também vetor do dengue), principal transmissor da febre amarela urbana”.

Monitoramento

Nesta semana, 16 macacos foram encontrados mortos na região Sudoeste com suspeita de Febre Amarela.

Conforme monitoramento realizado pelo Ministério da Saúde, de julho de 2019 a junho de 2020, haviam sido notificados 3.196 eventos envolvendo a morte de macacos com suspeita de Febre Amarela, das quais 358 epizootias foram confirmadas por critério laboratorial, 722 foram descartadas e 505 permanecem em investigação e 2.106 foram classificadas como indeterminadas, por não ter sido possível coletar amostras para diagnóstico.

As detecções foram registradas em São Paulo (4), Paraná (298) e Santa Catarina (56), sinalizando a circulação ativa do vírus nesses estados e o aumento do risco de transmissão às populações humanas durante o período sazonal.

Conforme previsão do modelo de corredores ecológicos, a manutenção da transmissão nessas áreas corrobora a dispersão do vírus nos sentidos oeste do Paraná e sudoeste de Santa Catarina, com possibilidade de dispersão para o Rio Grande do Sul e outros países.

Neste mesmo período foram notificados 881 casos humanos suspeitos, dos quais 18 casos haviam sido confirmados em junho, quando o monitoramento foi divulgado. Apenas um dos casos era em pessoa do sexo feminino, todos com idades entre 18 e 59 anos e não vacinados.

Os casos com registro em Santa Catarina (SC), por exemplo, se deram em localidades nas quais os serviços de vigilância e imunização já havia realizado busca ativa e vacinação, mas a recusa em tomar a vacina favoreceu que indivíduos expostos em áreas com transmissão adoecessem.

Macacos ajudam a monitorar a Febre Amarela

Conforme Laura Calderan de Lannoy, bióloga e residente técnica no Instituto Água e Terra (IAT), o surto de Febre Amarela em humanos é comum em alguns estados do Brasil, mas não no Paraná. “O que temos é a Febre Amarela na forma silvestre, em primatas não humanos (PNH), monitorada pela SESA, para combater a transmissão entre humanos”, esclarece.
No entanto, diante do perigo da exposição à doença, há pessoas que preferem cometer atos de violência contra os macacos, que são hospedeiro do vírus e muito sensíveis à Febre Amarela – muitos acabam morrendo — do que se vacinar. Mas matar os macacos não elimina a doença e nem tira a nossa região do mapa de transmissão. “Pelo contrário: matá-los aumenta a chance da Febre Amarela atingir populações humanas. Os macacos atuam como sentinelas, indicando a presença do vírus e alertando para que medidas preventivas sejam tomadas a tempo. Eles são muito sensíveis ao vírus e geralmente morrem, enquanto os humanos possuem uma solução simples de prevenção: a vacina”, avalia.

Laura explica que vetor é o responsável pela transmissão do vírus, enquanto hospedeiro é o organismo que porta esse vírus e, no caso da Febre Amarela, é incapaz de transmitir a doença. “Ou seja, para que a Febre Amarela infecte outros organismos é necessária a presença de um vetor, que neste caso são mosquitos dos gêneros Haemagogus e Sabethes”, fala.

Ou seja, as mortes de macacos causadas por Febre Amarela atuam como alerta para proteção humana. Também, lembra a bióloga, matar macacos ou outros animais silvestres é crime um ambiental que prejudica os humanos que buscam se proteger. “Se você quer proteger da Febre Amarela, você deve tomar a vacina, que está disponível para todos os municípios do Paraná”, reforça.

Já no caso de encontrar um macaco morto, a indicação é comunicar a Vigilância Sanitária de seu município. “Aconteceu de encontrarem uma mãe morta com um filhote vivo. Nesse caso, o ideal é também acionar a Vigilância Sanitária, que junto ao IAT providenciarão a devida destinação do animal para que ele seja examinado e cuidado. Até que isso ocorra, se possível, manter o animal em gaiolão com tela para mosquitos para evitar que ele seja picado por mosquito que posteriormente poderá picar outros animais ou mesmo as pessoas próximas”, fala.

No caso de um casal de macacos encontrados mortos em Mangueirinha, um filhote vivo estava junto a eles. O macaquinho, de cerca de 3 meses, foi encaminhado ao Hospital Veterinários Com Amor, mas veio a óbito antes de o resultado da testagem para Febre Amarela ser confirmado.

A médica veterinária Karine Marques Pacheco, que recebeu o macaco, percebe que há muito preconceito com os macacos devido a serem hospedeiros da Febre Amarela. “É importante saber que eles são apenas sinalizadores da doença, eles não são transmissores. Se um macaco morreu, significa que há mosquitos transmitindo a doença naquela região”, informa.

Ser humano também é hospedeiro

Pouca gente sabe que, além dos macacos, o ser humano também é hospedeiro da Febre Amarela. Quando assintomáticas, elas também podem espalhar o problema se picadas pelos mosquitos – apenas as fêmeas transmitem a doença. “Quando se fala que um macaco foi encontrado morto com Febre Amarela, a sensação que passa para alguém totalmente leigo é que eles são os responsáveis pela sua disseminação, mas não é bem assim. Na verdade essas mortes servem como um termômetro para que não haja surto da doença”, diz Karine.

É por isso que Laura insiste em dizer que é importante ressaltar que os macacos, em hipótese alguma, devem ser maltratados ou mortos. “Essa é uma medida que prejudica o monitoramento e controle da Febre Amarela, além de ser crime ambiental”, reforça.

Mas, assim como um macaco não transmite a doença para outro macaco ou para um ser humano, uma pessoa não transmite a doença diretamente para outra. É imprescindível a presença de mosquitos infectados agindo como vetores para que haja transmissão.

Outras doenças
Tão importante quanto monitorar a Febre Amarela é não perder de vista o cuidado com outras doenças transmitidas por mosquitos, como a Chikungunya, Dengue e Zika, também transmitidas pelo Aedes aegypti e muito mais problemáticas em centros urbanos do que a Febre Amarela. “Novamente, o foco deve ser no mosquito vetor, que neste caso pode ser combatido eliminando ambientes com água parada, onde se prolifera”, diz a veterinária.

Saiba mais sobre a Febre Amarela

A febre amarela é causada por um vírus, do gênero flavivírus, transmitido por mosquitos pertencentes às espécies Aedes, Haemogogus e Sabethes . As diferentes espécies de mosquitos vivem em diferentes habitats, o que determina três tipos de ciclos de transmissão:

  • Febre amarela silvestre (ou selvática): nas florestas tropicais, os macacos, que são o principal reservatório da febre amarela, são picados por mosquitos selvagens que passam o vírus para outros macacos. Ocasionalmente, os seres humanos que trabalham ou que viajam para a floresta são picados por mosquitos infectados e desenvolvem a doença.
  • Febre amarela intermediária: neste tipo de transmissão, os mosquitos semidomésticos (aqueles que se reproduzem tanto na natureza quanto em torno das famílias) infectam tanto macacos quanto pessoas. Este é o tipo mais comum de surto na África.
  • Febre amarela urbana: grandes epidemias ocorrem quando pessoas infectadas introduzem o vírus em áreas densamente povoadas com grande presença de mosquitos e onde a maioria das pessoas tem pouca ou nenhuma imunidade devido à falta de vacinação.

Sintomas

Geralmente quem contrai o vírus não chega a apresentar sintomas ou os mesmos são muito fracos. As primeiras manifestações da doença são repentinas: febre alta, calafrios, cansaço, dor de cabeça, dor muscular, náuseas e vômitos por cerca de três dias. A forma mais grave da doença é rara, só uma pequena proporção de pacientes que contraem o vírus a desenvolve. Ela costuma aparecer após um breve período de bem-estar de até dois dias, quando a pessoa infectada pode apresentar insuficiências hepática e renal, icterícia (olhos e pele amarelados), manifestações hemorrágicas e cansaço, sintomas que podem resultar em morte num período de sete a 10 dias.

Contudo, a maioria dos infectados se recupera bem e adquire imunização permanente contra o vírus, o que quer dizer que, depois de se recuperarem, não são mais suscetíveis à doença.

Diagnóstico

Difícil de se identificar, o diagnóstico muitas vezes é baseado nas características clínicas do paciente, nos locais e datas de viagens, nas atividades e na história epidemiológica do local onde a presumida infecção ocorreu. Geralmente, o diagnóstico por laboratório é realizado por meio de testes para detecção de anticorpos específicos e, as vezes, o vírus pode ser encontrado em amostras de sangue coletadas no estágio inicial da doença. Os resultados dos testes estão normalmente disponíveis entre 4 e 14 dias após o recebimento da amostra.

Tratamento

Não há um medicamento antiviral específico para a febre amarela, mas tratamentos contra desidratação, febre e falência do fígado e do rim trazem melhoras.

Prevenção

A febre amarela pode ser prevenida por uma vacina extremamente eficaz, segura e acessível, que produz imunidade em 99% das pessoas vacinadas. Segundos as diretrizes da OMS, uma dose única da vacina é suficiente para conferir imunidade sustentada e proteção ao longo da vida. No Brasil, no entanto, o Ministério da Saúde recomenda duas doses, mas as especificações podem variar.

Em áreas de alto risco, onde há pouca cobertura vacinal, o reconhecimento imediato e o controle de possíveis surtos por meio de imunizações em massa são essenciais para prevenir uma epidemia.

Na transmissão urbana da febre amarela, a prevenção deve ser feita evitando a disseminação do Aedes aegypti. Os mosquitos se reproduzem em água limpa e se proliferam dentro dos domicílios e suas adjacências. Qualquer recipiente com água limpa e parada, como caixas d’água, latas e pneus, são ambientes ideais para que a fêmea do mosquito deposite seus ovos. Portanto, deve-se evitar o acúmulo de água parada em recipientes destampados.

É de extrema importância que a população em geral considere o risco atual, atendendo aos alertas dos serviços de saúde para que se possa prevenir a ocorrência de casos, óbitos e surtos de maior magnitude.

*Fontes: Médicos Sem Fronteiras e Ministério da Saúde

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