Saúde

Os dias que nunca terminam

Daniel Spilmann é médico cardiologista e eletrofisiologista - CRM: 42051 / RQE 25304

Alguns pacientes da covid-19, mesmo após 21 dias de sintoma, quando é comum a regressão do vírus e recuperação do organismo, continuam a apresentar sintomas e sofrem com sequelas que podem, inclusive, levar ao óbito

No início, quando o Sars-COV-2, novo coronavírus, foi descoberto, a doença causada pela sua infecção, a covid-19, era classificada como respiratória. Tendo como sintomas mais comuns a tosse, falta de ar, perda de olfato e paladar e febre, o modo mais grave era um ataque repentino aos pulmões dos pacientes, que se inflam até que a saturação fique tão baixa que não é mais suficiente para oxigenar as células e manter aquela pessoa viva.

No decorrer do tempo, foi-se descobrindo outros agravamentos, que vão de ocorrências neurológicas a alterações coronarianas.

A verdade é que o novo coronavírus ainda é um grande desafio para a comunidade médica e científica. Mutações, afecção, reinfecção e até mesmo as sequelas ainda estão sendo descobertas a medida em que a pandemia se intensifica.

E, se no início acreditava-se que tempo de recuperação da doença levava cerca de duas a seis semanas, dependendo da gravidade do quadro. Hoje há relatos de pacientes com sintomas persistentes, que perduram por meses, ou que aparecem mesmo depois da fase infecciosa da doença. Trata-se da Síndrome Pós-Covid-19.

Conforme o médico cardiologista e eletrofisiologista Daniel Spilmann, que atua junto a equipe Cardiovascular da NEOCOR – Centro Médico Integrado, em Pato Branco, o vírus da covid circula na corrente sanguínea e atinge todos órgãos, porém alguns são mais sensíveis a ele: coração, pulmão e a própria circulação.

“O período de infecção aguda, que é o mais intenso em agressividade do vírus no organismo, dura até o 21º dia do início dos sintomas, conforme indicam os estudos”, disse. “Após esse período, os órgãos afetados começam a se recuperar. Porém muitas vezes os danos são irreparáveis e o paciente acaba tendo sintomas por meses após o final do quadro agudo. Sabe-se que quanto mais grave o quadro inicial, maior a chance de gerar sequelas ao coração”, explica o médico.

A principal forma de acometimento do coração é a inflamação que o vírus causa: a miocardite, que deixa o músculo cardíaco fraco, com função diminuída, sujeito a ter alterações elétricas que levam a arritmias, por vezes fatais. “Também pode ocorrer acúmulo de líquido ao redor das membranas que envolvem o coração, causando sua compressão, o que chamamos de derrame pericárdico / tamponamento cardíaco. A inflamação por fim, leva a fibrose e perda de função de bomba do coração”, esclarece.

De acordo com estudos norte-amerianos e alemães que realizaram autópsias de pacientes que morreram pela covid, m 60% dos casos há presença do vírus no miocárdio. Já uma análise dos pacientes alemães que conseguiram se recuperar, houve envolvimento cardíaco em 78% dos casos.

Entre as sequelas cardíacas e circulatórias do pós-covid, diz Spilmann, estão tromboses de artérias e veias; arritmias, por vezes graves, levando à Morte Súbita; e inflamação e enfraquecimento do músculo cardíaco.

Já os sintomas dessas sequelas são fraqueza e dor muscular e nas articulações; cansaço e fadiga para atividades físicas antes praticadas e até mesmo ao repouso; palpitações; e dor no peito. “A mais grave apresentação pode ser Morte Súbita. Outros sintomas comuns também são perda de cabelo, insônia, ansiedade pós-isolamento social e perda do olfato e paladar”, fala o cardiologista.

Quando procurar um médico?

Mesmo os casos leves podem gerar acometimento cardíaco, que podem passar desapercebidos, diz Spilmann. Inclusive, o médico alerta que a liberação para atividades esportivas e físicas nesse período deve ser cautelosa e acompanhada pelo cardiologista.

“Os grandes centros mundiais no atendimento e atenção ao paciente após o quadro agudo da covid-19 estão na China, nos Estados Unidos e na Europa. O acompanhamento tem sido preconizado após 21 dias do início dos sintomas ou após alta hospitalar, tanto para casos graves quanto para casos leves. Esse acompanhamento é periódico, com consultas e exames, e é feito por um período de até 6 meses”, diz.

Algumas situações são importantes para indicar o acompanhamento médico após os 21 dias de sintomas, no período chamado Síndrome pós-covid. Entre elas:

• Quando o paciente é portador de hipertensão arterial, diabete melitos, doenças renais ou pulmonares prévias;

• Quando o paciente esta tendo os sintomas descritos em algum momento do período pós-infecção, não importando se o quadro foi leve ou não;

• Quando a apresentação do quadro clínico foi grave, necessitando internação, UTI ou oxigênio.

O cardiologista diz ainda que é muito difícil dizer quais são os riscos que as pessoas correm devido a sequelas do pós-coronavírus. “Sabe-se que há tendência de sequelas mais graves daqueles que passaram por quadros agudos mais severos, porém mesmo os casos leves podem levar a riscos de vida. A única forma de descobrir o real estado cardiovascular de um paciente pós-covid-19 é fazer uma avaliação completa cardiológica e vascular”, indica.

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Crianças

Apesar de as crianças também desenvolverem síndrome pós-covid, esse quadro tende a ser menos agressivo, com sintomas mais leves e por vezes totalmente assintomático.

No entanto, conforme o American Academy of Pediatrics, há a estimativa de que 13% dos casos de covid-19 nos EUA sejam em crianças.

“Os bebês com menos de 1 ano de vida podem ser mais suscetíveis a apresentações mais graves, mas os sintomas mais comuns são gastrointestinais, como diarreia, rash cutâneo, vômitos e desidratação”, diz Spilmann.

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