Saúde

Os idosos e a segunda onda da covid-19

As recomendações abaixo são baseadas nas diretrizes da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia para o enfrentamento à pandemia

Há inúmeras histórias pessoais sobre como a pandemia tem sido difícil para a população, em especial para os idosos, que são um grupo altamente diverso, no qual a resposta ao estresse da pandemia depende de um conjunto único de circunstâncias — como idade, histórico de doenças crônicas, nível socioeconômico, capacidade cognitiva, traços de personalidade e saúde física, acentuando a heterogeneidade, que é marca registrada do envelhecimento.

Grande parte da preocupação inicial relacionada a como os idosos responderiam à covid-19 baseava-se em como a solidão e o isolamento seriam exacerbados à medida que as medidas de bloqueio fossem implementadas. Já os adultos mais velhos expressaram preocupações sobre seu bem-estar físico e financeiro a longo prazo.

No início de 2020, os adultos mais velhos experimentaram efeitos adversos desproporcionalmente maiores da pandemia, incluindo complicações mais graves, maior mortalidade, preocupações com interrupções em suas rotinas diárias e acesso a cuidados, dificuldade de adaptação a tecnologias como a telemedicina e preocupações de que o isolamento exacerba as condições de saúde mental existentes.

Contudo, eles apresentaram melhor reatividade ao estresse e, em geral, melhor regulação emocional e bem-estar do que os adultos mais jovens, e podem ser mais resistentes à ansiedade, depressão e transtornos mentais relacionados ao estresse característicos de populações mais jovens durante a fase inicial da pandemia da covid-19.

A resiliência pode refletir uma interação entre fatores internos (a resposta de um indivíduo ao estresse) e recursos externos (conexões sociais e estabilidade financeira). Para idosos que vivenciam o isolamento durante a pandemia, ter relacionamentos mais significativos parece ser mais importante do que ter mais interações com outras pessoas, e manter esses relacionamentos pode exigir o uso de tecnologia para se conectar com entes queridos. A resiliência pode ser apoiada por meio de maior atividade física, maior compaixão e regulação emocional e maior conectividade social. A tecnologia pode desempenhar um papel importante para alcançar esses objetivos.

Um fator adicional a considerar é a sabedoria, um traço de personalidade complexo composto de componentes específicos, incluindo comportamentos pró-sociais, como empatia e compaixão, regulação emocional, a capacidade de autorreflexão, determinação ao aceitar a incerteza e diversidade de perspectivas, aconselhamento social e espiritualidade. O componente da sabedoria que se correlaciona mais fortemente (e inversamente) com a solidão é a compaixão. Outros dados também sugerem que aumentar a compaixão pode reduzir a solidão e promover um maior bem-estar.

Contudo, muitos idosos não têm os recursos necessários para lidar com o estresse da covid-19. Isso pode incluir recursos materiais (por exemplo a falta de acesso à tecnologia inteligente), sociais (por exemplo, poucos membros da família ou amigos) ou cognitivos/biológicos (por exemplo, incapacidade de praticar exercícios físicos ou participar de atividades ou rotinas).

Os médicos e cuidadores devem estimar a disponibilidade de recursos e considerar como a ausência de recursos pode ser mitigada para um determinado indivíduo e família.

De particular importância é o papel da tecnologia, que surgiu como um fator considerável para manter a conexão social, bem como o acesso aos serviços de saúde mental. Isso pode ajudar a manter a conectividade, fornecer acesso a cuidados via telemedicina e também facilitar uma série de outras atividades que podem ajudar a lidar com o isolamento,

Essas abordagens incluem promoção de atividade física, maior conexão, treinamento de compaixão e envolvimento com a espiritualidade, conforme apropriado.

Essas abordagens também mostraram melhorar o enfrentamento, promover resiliência e reduzir a solidão.

As formas de defesa do organismo

Os idosos são especialmente vulneráveis aos efeitos da pandemia da covid-19, com maiores riscos de complicações graves e morte, e potencialmente maiores dificuldades de acesso aos cuidados. Entre as mais de 200 mil vítimas que a pandemia de coronavírus fez no Brasil, por volta de 136 mil foram de pessoas com mais de 60 anos de idade.

Esse número se deve ao fato de que, com o passar do tempo, o organismo humano apresenta respostas mais lentas no processo de defesa, passando a ser um processo menos eficaz, o que faz com que os idosos desenvolvam quadros mais graves da doença. Ainda, os idosos apresentam várias comorbidades, como hipertensão arterial, diabetes, doença pulmonar crônicas, e a infecção pela covid-19, associada ao menor acompanhamento rotineiro pré-existente, contribui com maior mortalidade nessa faixa etária.

Os residentes das Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPI) frequentemente têm mais de 80 anos, são portadores de doenças crônicas e dependentes quanto à funcionalidade, necessitando de cuidados médicos e pessoais realizados pelos funcionários das instituições. Essas condições colocam os residentes das ILPI em maior risco de infecção pelo SARS-CoV-2, de doenças graves e de morte pela covid-19.

Sobre a vacinação para os idosos

Como já foi dito, a doença causada pelo novo coronavírus apresenta seus maiores impactos sobre a população idosa, principalmente entre os subgrupos mais vulneráveis clinicamente: pacientes frágeis, portadores de síndromes demenciais, de doenças crônicas e moradores de Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPI) . Apesar de 80% dos casos confirmados da doença serem diagnosticados entre adultos e adultos jovens, 80% do total de mortes relacionadas à infecção aconteceram entre idosos.

O organismo humano reage de duas maneiras quando entra em contato com um organismo estranho:

  • A primeira é a resposta inata, que já nasce com a pessoa, que é uma defesa quase imediata de combate ao invasor;
  • A segunda resposta é a adaptativa, ela é adquirida ao longo da vida, e é esse tipo de defesa que a vacina induz: a criação de anticorpos.

Com o passar do tempo, o organismo humano passa a ter respostas mais lentas no processo de defesa, passando a ser um processo menos eficaz, o que faz com que os idosos apresentem quadros mais graves da doença. As células de defesa do organismo idoso agem de uma forma um pouco mais lenta. É muito importante inclusive o diagnóstico precoce dessas doenças.

Por isso, a resposta imunológica induzida por vacinas pode ser menor em pessoas com mais de 60 anos. Entretanto, a maior incidência de apresentações graves da doença e sua alta letalidade entre idosos permitem estimar relevante redução absoluta de desfechos morte, mesmo se a eficácia da vacina (redução relativo de risco) for menor nessa população. Ou seja, o principal objetivo vacina não é evitar a doença, mas diminuir as manifestações da forma grave da covid-19 e a incidência de morte.

Infelizmente não existem medicamentos preventivos ou tratamentos precoces com efetividade demonstrada em estudos clínicos controlados de qualidade para a covid-19. Por sua vez, a rápida resposta da comunidade científica mundial se concentrou em estudar e desenvolver vacinas para reduzir a disseminação do vírus e prevenir evolução da doença.

O impacto da vacinação extrapola o benefício individual por tratar-se da mais eficaz estratégia de bloquei epidemiológico de surtos epidêmicos ao longo da história, considerando adicionalmente a eficácia divulgada das vacinas disponíveis no Brasil.

As vacinas hoje disponíveis Brasil usam como tecnologia o vírus inativo e a que usa RNA mensageiro.

A sociedade brasileira de geriatria e gerontologia é favorável à ampla e imediata vacinação de idosos no Brasil, sobretudo direcionada aos mais expostos e suscetíveis às graves formas da covid-19, suas complicações e a morte: idosos frágeis, portadores de doenças crônicas (incluindo a demência) e moradores de asilos.

Mesmo após a vacinação é importante aliar as “seis regras de ouro”, medidas já comprovadamente efetivas na prevenção da covid-19, até atingir cerca de 70% de toda população imunizada, o que diminuirá a circulação do vírus. As regras são:

1. Uso de máscaras;

2. Distanciamento físico de pelo menos 1,5 metro;

3. Higienização frequente das mãos com água e sabão ou álcool 70%;

4. Evitar aglomerações;

5. Permanecer em isolamento respiratório domiciliar, desde o 1º dia de sintomas suspeitos de covid-19. Procurar atenção médica para o diagnóstico correto e seguir a orientação recebida e apropriada para cada caso em sua individualidade. Não se automedicar;

6. Manter os ambientes arejados e ventilados.

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Quem deve fazer vacina?

Todos os idosos, principalmente os portadores de doenças crônicas (Diabetes, Hipertensão, Demência, Parkinson, entre outras). Algumas exceções serão orientados pelo seu médico.

Qual vacina é melhor para os idosos?

A que estiver disponível. Mas se fizer a primeira dose de um fabricante, a segunda dose devera ser do mesmo fabricante, pois mesmo que utilize a mesma tecnologia, a mudança do fornecedor pode modificar a ação.

Se já fui positivado para covid-19, devo me vacinar?

Sim, pois não temos conhecimento cientifico do tempo de duração da imunidade adquirida após doença. Aqueles que tiveram covid-19 devem aguardar 30 dias sem sintomas para realizar a vacinação.

Se fiz outros tipos de vacina recentemente, posso fazer a vacina contra a covid?

Sim, apenas deve aguardar período de 30 dias entre as doses.

Quais principais efeitos colaterais?

Alguns efeitos foram relatados, principalmente nas primeiras 48 horas, como náuseas, cefaleia e diarreia.

Legenda: Dra. Giana Daclê Telles é médica especialista em Geriatria, titulada pela SBGG, e Medicina Interna. CRM-PR 12682 / Geriatria RQE 850 / Medicina Interna 4556/94

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