Saúde

Quero um filho, mas não agora

A situação descrita no título é cada vez mais comum, a de pessoas que preferem esperar um momento de estabilidade para trazer um bebê ao mundo. A reprodução assistida ajuda nessa missão, de adiar uma gestação sem se preocupar com a infertilidade

A publicitária Eryka Fortes, de 24 anos, sempre teve o desejo de ser mãe, de construir uma família. “Acho que pela minha família de origem ser grande. Estar sempre rodeada de pessoas, de crianças, acabou contribuindo com esse desejo”, disse.

Contudo, assim como diversas outras mulheres, Eryka planeja ter um filho mais pra frente, quando já tiver estabilidade financeira e flexibilidade profissional para cuidar da criança. “Mas não quero esperar os 40 anos. Acho que ser mãe com 28 anos ou 30 anos, no máximo, é o ideal”.

Nessa fase, a fertilidade da mulher ainda não está comprometida, mas se a publicitária optar por esperar mais alguns anos, então pode ter problemas com isso.

Contudo, hoje há diversos recursos disponíveis, e entre eles a criopreservação de óvulos (no caso de mulheres) e embriões (no caso de casais). A técnica, que teve um aumento de 71,4% de procura no ano de 2020, de acordo com levantamento do Grupo Huntington, consiste em manter congelados óvulos e embriões por tempo indeterminado. Geralmente, é uma prática de rotina das clínicas de reprodução assistida.

Eryka diz que não teria problemas de optar por um desses procedimentos, caso seja necessário. “Até porque a tecnologia da reprodução assistida é algo que evoluiu muito, tanto em procedimentos disponíveis para cada situação da mulher ou do homem, quanto em equipamento, conforto e atendimento ao paciente”, acredita.

No entanto, ela acredita que falar sobre fertilidade é ainda um assunto muito delicado de ser tratado pelas mulheres e homens, mas que é necessário porque não apenas um adiamento da maternidade pode influenciar na fertilidade da mulher e do homem, mas diversos outros fatores, como patogenias, genética e hábitos de vida. “Se existem procedimentos confiáveis, seguros e confortáveis para que o desejo de se ter um filho seja realizado, devemos falar e procurar mais sobre. Claro que tudo deve ser feito acompanhado pelo médico de confiança, por profissionais especializados e clínicas seguras, que vão indicar o melhor tratamento para o caso de infertilidade ou preservação da fertilidade”, reflete.

Como funciona a criopreservação?

Conforme a embriologista Martina Cordini, responsável técnica pela Clínica Progênese, em Pato Branco, na reprodução assistida, óvulos, sêmen ou mesmo embriões feitos em laboratório podem ser congelados. Para chegar até o congelamento, o paciente passa por tratamento de fertilidade, que envolve exames, hormônios, consultas, checagens, triagens, entre outros procedimentos. 

No caso de congelamento de óvulos, o tratamento inicia com a paciente recebendo medicamentos com base hormonal para induzir a ovulação no seu segundo dia da menstruação. Esse processo faz com que o ovário produza a maior quantidade de folículos em um ciclo menstrual.

O sucesso do procedimento é acompanhado com exames de sangue e ultrassonografias, que vão mensurar a quantidade de óvulos que serão congelados.

Já a coleta desses óvulos é realizada em até 36 horas após a última aplicação hormonal através de aspiração guiada com o auxílio de um ultrassom transvaginal.

Os óvulos são avaliados em laboratório e os melhores são congelados em um recipiente com nitrogênio líquido a -196°C.

Todo esse processo dura cerca de 11 dias.

Biologicamente falando, as mulheres entre os 20 e 30 anos estão no auge da fertilidade, portanto o ideal é fazer o congelamento de óvulos nesse período. Isso não descarta a possibilidade de congelar os óvulos aos 39, 40 ou 43 anos, porém as chances de sucesso diminuem.

Em relação ao sêmen, em geral os homens que procuram por esse serviço são aqueles que passarão por tratamentos que podem comprometer a fertilidade, como a quimioterapia.

Para isso, é colhida uma amostra que pode ser proveniente de ejaculação ou de procedimento cirúrgico diretamente no testículo. A amostra passa por um espermograma para contagem de espermatozoides e análise de coloração, viscosidade, motilidade e morfologia do sêmen. Em seguida, é adicionada a ela uma solução crioprotetora, ou seja, uma substância que encobre os espermatozoides e evita que eles morram ou sejam danificados no congelamento.

Em seguida, o congelamento é feito em imersão no nitrogênio líquido a -196°C.

No caso dos embriões, o mais comum é que o congelamento seja realizado após ciclos de Fertilização in Vitro (FIV), na qual há geralmente uma sobra de 20% a 30% de cada ciclo (mas nada impede que o embrião seja feito somente para ser preservado).

Esse congelamento deve ser feito entre o 3º e 6º dia de fecundação, quando o cultivo atinge um estágio que chamamos de blastocisto. Antes de congelar, é realizada uma avaliação morfologica para saber como está a saúde daquele embrião e se vale a pena que ele seja criopreservado.   

No caso do congelamento, há uma suspensão do estado evolutivo sem que o embrião perca seu potencial para o desenvolvimento normal. Assim, quando o casal decidir que é o momento de ter um filho, o embrião é descongelado e implantado.

Por quanto tempo esses materiais podem ficar criopreservados?

Martina explica que “com técnicas bem estabelecidas e métodos mais seguros de congelamento embrionário, como os utilizados na Progênese, a resposta para a questão ‘quanto tempo o óvulo, o sêmen ou o embrião podem ficar congelados sem perder seu potencial reprodutivo’ é: eternamente. Até hoje não há comprovação que exista um tempo máximo”, afirma.

As chances de engravidar com a transferência de um embrião congelado, ou mesmo de utilizar na fertilização in vitro óvulo ou sêmen congelados, são as mesmas ou maiores que o mesmo procedimento realizado com os materiais frescos. 

Martina explica que isso varia de acordo com a saúde e idade da paciente. “A média é de 55% de chance até 30 anos, 50% de 31 a 35, 40% de 36 a 39 anos e 20% em mulheres com 40 anos ou mais”, explica.

Também, um estudo realizado na China, em 2014, com 3367 embriões, mostrou que não há diferença nas taxas de sobrevivência ao descongelamento, de gravidez, de implantação em relação ao tempo de congelamento dos embriões. 

No entanto, um embrião, mesmo que desenvolvido em laboratório, pode sofrer alterações genéticas tal qual um concebido por vias naturais. Por exemplo, nas pacientes acima dos 38 anos, é possível que mais da metade dos embriões apresentem alterações genéticas. 

Se eu desistir de ter um filho, como o material é descartado?

Caso a mulher, o homem ou o casal desistam de reproduzir, há uma legislação para o descarte desse material.

No caso de embriões, por exemplo, eles podem ser:

• Doados para pesquisa de Células Tronco-Embrionárias, desde que tenham mais de 3 anos de criopreservação (art. 5º, da Lei Federal de Biossegurança nº 11.105/2005).

•  Descartados depois de mais de 5 anos (Resolução CFM Nº 2.013/13).

• Doados para outra pessoa ou casal com objetivo de reprodução, sem caráter lucrativo ou comercial, com sigilo de identidade entre doador e receptor (Resolução CFM Nº 2.013/13)  .

O descarte dos óvulos e sêmen segue a mesma linha, e pode ser feito quando o paciente achar oportuno. Ele deve ser feito pela clínica de fertilização, após a assinatura de um termo de responsabilidade. O paciente pode ainda encaminhar o material para a doação de maneira anônima, ou seja, não é permitido escolher para quem eles serão doados.

É importante ainda levar em consideração que, enquanto o congelamento de óvulos se restringe ao gameta feminino, o de embriões é resultado de uma fertilização in vitro do óvulo com o espermatozoide. Isso significa que o embrião pertence a duas pessoas, um homem e uma mulher. Por isso, todas as decisões sobre descarte – que, neste caso, só pode ser feito obrigatoriamente depois de cinco anos – e descongelamento devem ser conjuntas. Por isso, burocraticamente o segundo processo é muito mais complexo.

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