Volta às aulas: quais cuidados devo tomar com o meu filho?

Com o Poder Público liberando as aulas presenciais, pais se preocupam com a saúde dos filhos. E não por menos, já que a pandemia ainda está longe de ser vencida. Nessas condições, que cuidados devemos tomar para garantir a segurança das crianças e professores?

Recentemente, diversas entidades públicas responsáveis pela pasta da Saúde, tanto em âmbito Federal, quanto Estadual e Municipal, decretaram a liberação das aulas presenciais, que devem ocorrer no mês de fevereiro. Em geral, as instituições de educação devem ter um plano de segurança sanitária para receber os alunos de volta. Há quem fale que o retorno ocorrerá de forma híbrida (parcialmente presencial, com metade da turma presente e metade com aulas online), há quem  mais salas com menos alunos, tudo para cumprir a regra do distanciamento de, no mínimo, 1,5 metro, indicado pelos órgão de Saúde.

No entanto, mesmo com os cuidados previstos, muitos pais e profissionais ainda estão com receio de que essa seja uma decisão errada para este momento.

Conforme o pneumologista pediátrico, Rodrigo Akira Furukawa, neste período pouco maior que um ano desde o surgimento dos primeiros casos de covid-19, muitos estudos epidemiológicos foram realizados com o intuito de tentar identificar as faixas etárias e fatores de risco mais importantes para o surgimento de casos graves. “O que se pode afirmar através dos resultados obtidos é que as crianças representam menos de 1% da mortalidade e respondem a 2 a 3% das internações. A maioria delas tem sintomas leves ou em algumas vezes são assintomáticos. Portanto, pode se afirmar que a volta às aulas é segura, desde que se respeitem alguns cuidados com os alunos e professores”, alerta.

Entre esses cuidados, o médico cita distanciamento; diminuir o número de pessoas dentro da sala; ambientes arejados com janelas e portas abertas; locais para lavagem de mãos; álcool 70% em gel disponível; uso de garrafas individuais; e preferência por lanches individuais, regras que são mais fáceis de serem aplicadas nas crianças maiores, as quais devem ter a prioridade na volta. Ele diz ainda que ser importante  o planejamento por parte das Secretarias de Educação sobre como as escolas devem estar preparadas para receber os alunos de volta. Por exemplo, com planejamento do fluxo de pessoas nas escolas para evitar aglomerações, principalmente na entrada e saída dos alunos; preparar a estrutura física para o acolhimento adequado; e oferecer condições satisfatórias para o uso de atividades remotas. “Também é importante que haja um planejamento quanto ao uso de transporte coletivo pelos alunos para sua chegada a escola e as medidas preventivas a serem aplicadas”, alerta.

Vacinação

Mesmo que a vacinação tenha começado neste mês, seu calendário é bastante extenso. Furukawa lembra que ela é direcionada inicialmente aos grupos de risco identificados até o momento e as pessoas que estão mais expostas. “O objetivo inicial é diminuir a mortalidade da doença. Dentro dessa classificação, os profissionais que trabalham na educação serão contemplados com as vacinas”, explica.

Já as crianças não receberão a vacina inicialmente devidos a dois fatores: algumas vacinas ainda estão em fases iniciais de testes na faixa etária pediátrica e também pelo fato de desenvolverem formas assintomáticas ou pouco sintomáticas na sua maioria. “É importante lembrar que as vacinas só serão disponíveis pelo SUS, uma vez que toda a produção está sendo direcionada para que a rede pública seja atendida”, comenta.

Por isso, cabe aos pais orientar e informar de modo adequado conforme a idade da criança sobre os cuidados necessários para prevenir o contágio. “Muitas informações equivocadas, as ‘fakenews’, têm sido divulgadas, portanto é importante buscar as informações em órgãos confiáveis através de redes sociais ou meios de comunicação oficiais”, alerta.

Entre elas, está o uso de medicações preventivas. “Nenhuma até agora se mostrou realmente efetiva nos adultos, quanto mais em crianças. O uso indiscriminado de determinados tratamentos tem aumentado o número de casos de intoxicação e efeitos colaterais nas crianças”, avisa.

Máscaras

O pneumologista pediátrico diz que “segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria, dentro da escola, é recomendado o uso de máscaras de pano, com duas camadas, bem ajustadas ao rosto, cobrindo do nariz até o queixo. Devem ser trocadas a cada 3 horas ou antes, caso fiquem úmidas ou sujas. Recomenda-se inclusive na Educação Infantil, a partir dos 2 anos de idade. Mesmo que inicialmente tenham dificuldade, a escola, por ter um papel pedagógico, pode ensinar o uso correto de modo lúdico e que estimule o seu aprendizado”.

Ele reforça que os pais devem explicar que as máscaras são individuais e que, por estarem em contato com a boca e o nariz, elas podem estar sujas e por esse motivo não devem ser compartilhadas. “Usar métodos lúdicos na escola também pode ajudar. É interessante ainda personalizar a máscara conforme o gosto da criança, sempre respeitando as normas de confecção”.

Banheiro e bebedouros

O médico informa que as idas ao banheiro são seguras desde que sempre, após a ida, a lavagem de mãos seja estimulada. “Quanto aos bebedouros coletivos, esses devem ser restringido totalmente e orientado ao aluno levar sua garrafa individual”.

Educação física

Conforme Furukawa, as aulas de Educação Física devem ser realizadas em ambientes abertos e com distanciamento, evitando atividades com muito contato. “As atividades físicas deve ser as mais praticadas pelo seu benefício físico e para a saúde mental. Após as aulas, orientar os alunos a realizarem a lavagem de mãos e troca das máscaras”.

Hora do lanche

Para o médico, sempre será mais seguro, como alternativa à cantina, o lanche individual, trazido de casa, onde há conhecimento da procedência e do manuseio dos alimentos. “O local de consumo deve ser na sala e ser evitado o refeitório coletivo. Quando isso não for possível, deve-se calcular a capacidade do local, respeitando o distanciamento de 1,5 metro entre os alunos. Também deve-se evitar sistema de self-service. O profissional que vai servir aos alunos deve usar máscara e protetor facial. Independente do tipo de lanche, é importante a lavagem das mãos antes de manipular os alimentos”.

No caso de sintomas

Mesmo que a OMS e a UNICEF tenham publicado estudo mundial, em agosto de 2020, mostrando que as crianças representam de 1% a 7% do total de casos confirmados e que é a faixa etária que menos tem mortes, a infecção pode ocorrer. No entanto, diz Furukawa, em sua maioria apresentaram poucos sintomas ou são assintomáticas, como já foi dito anteriormente. “Mas é bom saber que os principais sintomas são de um resfriado ou de quadro gripal: tosse seca, nariz escorrendo, dor de garganta, febre, dor de cabeça e dores pelo corpo. Pode ter diarreia também”, diz.

Para ele, toda escola deve ter um fluxo de triagem para detectar casos sintomáticos. “O uso de termômetros na entrada e o questionamento verbal ou escrito sobre a existência de algum sintoma também deve ser aplicado. Uma vez que criança inicie com sintomas dentro da escola, deve haver um espaço que ela seja encaminhada para aguardar a chegada dos pais e direcioná-la para atendimento médico”, fala.

Ainda, ele indica que todo aluno que se submeter ao exame para diagnóstico deve aguardar o resultado em casa, e só retornar quando houver a melhora completa e se o resultado for negativo. “Crianças positivas devem respeitar a quarentena de 14 dias de isolamento total desde o início dos sintomas”, diz.

O especialista cita a Síndrome Inflamatória Multissistêmica, uma reação tardia que pode ocorrer (não é obrigatório) em crianças após o contágio com a covid-19, como um dos causadores de receio entre os pais pela sua gravidade na evolução. “Ela acomete mais crianças maiores de 5 anos. Entretanto, vale ressaltar que é rara com poucos casos acontecendo no mundo todo e no Brasil”.

Voltar ou não?

Furukawa acredita que a prioridade da volta às aulas deve ser para as crianças maiores, devido a maior facilidade de compreensão das medidas preventivas. “Para os menores de 5 anos e aqueles que convivem com pessoas com fatores de risco, seu retorno deve ser evitado inicialmente. Para essas crianças devem ser disponibilizado a possibilidade de atividades remotas. Com o início da vacinação para pessoas de risco, uma vez que realizada as duas doses da vacina, essas crianças poderiam retornar as atividades escolares”, opina.

Impacto do afastamento

Para o médico, o afastamento das crianças da escola trouxe um lado positivo para a contenção à pandemia. “O que se viu foi uma redução drástica nos casos de doenças comuns durante o ano e também o pouco número de casos confirmados de covid-19. Entretanto, notou-se vários impactos negativos no desenvolvimento infantil desde o início da pandemia”, diz.

Entre os aspectos negativos, ele cita:

  • Aumento da prevalência de transtornos mentais (depressão, ansiedade e anorexia) e do desenvolvimento (regressão de comportamentos – por exemplo: enurese noturna)
  • Riscos negativos na escolarização e na evasão escolar
  • Aumento de casos de estresse tóxico e de violência domiciliar afetando a saúde individual e familiar
  • Surgimento de distúrbios do sono.

“Cabe ressaltar também o papel social que a Escola tem na vida dos alunos de áreas menos favorecidas. Estando na escola, a criança pode desenvolver atividades evitando o ócio, consegue se alimentar de modo adequado, socializa com pessoas da mesma idade e com mesmos interesses e a protege contra a violência nos seus mais diversos níveis”, pondera.

O pneumologista pediátrico cita ainda diversos estudos em Centros de Países desenvolvidos (CDC – EUA, Austrália, Salt Lake City – EUA, Irlanda e Reino Unido) que comprovam que a chance de a criança contrair covid-19 dentro da escola é pequena, “uma vez que respeitados os cuidados sugeridos. A maioria dos casos confirmados foi contaminada por adultos que convivem na mesma casa da criança. Com esses resultados, o que se vê atualmente são as escolas abertas mesmo com a 2ª onda que atingiu os países do hesmifério norte. A atual recomendação de órgãos como UNICEF e OMS é que as escolas sejam as primeiras a serem abertas e as últimas a serem fechadas”, reforça.




Rodrigo Akira Furukawa é pneumologista pediátrico