O ser humano que não interroga a si próprio, assim como não interroga o mundo que o envolve, é na verdade um iludido e muitos dizem até que é um ser meramente pulador de galho em galho, ao sabor do momento que melhor lhe convém, a existência humana não está alicerçada em somente viver, consumir tudo o que nos oferecem, aceitar tudo de modo passivo; uma existência digna está sempre atenta às transformações que ocorrem em todos os âmbitos da vida e não se conforma com aquilo que vê e sente. Tudo em nossa vida, ou seja, do nascer ao morrer, é passível de ser pensado, discutido, analisado, o todo numa indagação profunda vale mais do que a parte, mas para que isso aconteça deve haver um esforço genuíno pela verdade, a principal arma para que isso se desenvolva, é o bom uso da razão e um são diálogo com o outro, bem como com tudo aquilo que nos tem inquietado.

O momento presente com as suas alegrias e tristezas é ponto crucial para se usar ainda mais o pensamento, não raro temos notado que há um contentamento generalizado com a situação vigente, muitos dão de ombros e até aplaudem os preconceitos mais infames arraigados na sociedade, bem como dentro de cada um, outros de comum acordo passivamente caminham rumo ao precipício como senão houvesse outras tantas saídas e outros tantos nem sequer acreditam naquilo que julgam acreditar, de tão profundos que são, iguais àqueles pratinhos que se colocam debaixo de uma xícara. Numa era em que a sociedade se julga estar com seus olhos bem abertos, é onde percebemos a sua incrível cegueira, gostam de procurar soluções em outros mundos que não o nosso; dizem que são livres para assim proceder, mas ignoram aquilo que nos faz fracos e insensíveis com o todo.

Acima de toda e qualquer contingência humana, está a filosofia, uma grande amiga que pode nos fazer enxergar as mais amargas e trágicas experiências humanas, frutos da nossa incapacidade, limitação e ao mesmo tempo da hybris desmedida, como aquela que pode nos fazer rejuvenescer para buscarmos novos modelos de vida. As atitudes parciais de hoje, com as quais a maioria esmagadora está de mãos dadas, abrem pouco ou nenhum espaço para aquilo que realmente nos importa como seres humanos, neste sentido nosso patriarca Sócrates continua insuperável, em suas andanças, nos seus diálogos com os integrantes da sociedade ateniense, com o seu bom humor sempre à flor da pele e esse misturado com uma dose generosa de ironia fazia com que seus conterrâneos parassem subitamente e lhe dessem ouvidos; alguns entenderam sua mensagem, outros o mataram.

A filosofia não perdeu seus adeptos como muitos pretenderam fazer com ela ao longo das eras, ao contrário ativa e combativa cabe a ela entre tantas tarefas, analisar as nossas crendices mais arraigadas, apontar os erros em momentos de crise como agora por exemplo, onde se pensava que éramos os portadores do elixir para uma vida perfeita, mas eis que nos deparamos com a nossa real ignorância, incerteza e insegurança; não menos importante para ela é a questão da memória que a sociedade tem de si e o que isso significa para ela. Cabe ainda a filosofia apontar diferentes formas de alienação em que incorremos, bem como nossa dificuldade em nos libertarmos dessas miragens, recentemente a filosofia tem voltado cada vez mais seu olhar para a ciência e a técnica como instrumentos que quando usados indevidamente afetam de maneira drástica e brutal o meio ambiente todo.

A filosofia do século XXI de modo bem apropriado reúne em si a realidade complexa, todas as angústias que atormentam o ser humano da era tecnológica, essa mesma filosofia não descansa nunca porque esse mesmo ser humano reiteradamente cai nas armadilhas que ele próprio cria julgando estar fazendo um bem para todos os seus; aquilo que parecia ter ficado para trás e que muito havia contribuído para criar as mais terríveis infâmias contra povos e nações, é tema recorrente hoje para a maioria dos filósofos e estes tem apontado que o fracasso humano reside na maioria das vezes em apenas aparentar, do que resolver de fato as questões que mais perturbam o ser. A boa e velha senhora Filosofia, está acima de toda e qualquer convenção meramente perene; sua tarefa maior reside no fato de que nenhum vírus pode ser mais mortal do que a ausência deliberada da reflexão sobre tudo.

Bioeticamente, a filosofia nos presta um serviço inestimável, diga-se de passagem, uma filosofia comprometida com todo o desenvolvimento humano, seria uma covardia extrema a filosofia se ausentar do atual debate sobre as tantas questões que queiramos ou não afetam todos e todas em graus diferentes; enquanto a maioria convencional se fixa em apenas querer debelar a crise viral (algo legítimo em sua essência), a filosofia vai muito além, ou seja, ela analisa, o antes, o agora e o depois, mais especificamente: Quem? Quando? Onde? Por que? Uma prática verdadeira da filosofia nos ensina e isso de modo magistral, que o ser humano está imerso num mundo de contradições desde o seu nascimento, em todos os setores que habita e atua cotidianamente. Não menos verdade é o fato de a filosofia nos apontar o dedo para aquelas situações em que deveríamos mais prestar atenção, ter mais cuidado conosco mesmos e com os outros, o meio ambiente; o individualismo que deixamos emergir em nós não raro se mostrou ser um vírus apavorante.    

Rosel Antonio Beraldo, mora em Verê-PR, Mestre em Bioética, Especialista em Filosofia pela PUC-PR; Anor Sganzerla, de Curitiba-PR, é Mestre e Doutor em Filosofia, é professor titular no Mestrado de Bioética na PUCPR.