Aulas presenciais: controvérsias e pendências

Dirceu Antonio Ruaro

Na semana passada, trouxe para nossa reflexão o texto “Entre o desejo e o receio às aulas presenciais”. Como anunciado pela maioria das redes municipais e rede estadual, o retorno às aulas presenciais está ocorrendo na maioria das escolas públicas, nesse semestre. Não me referi às escolas privadas porque, na sua grande maioria, estão funcionando desde o início do ano letivo, na modalidade presencial e on line.

Diante do anúncio e da “vontade política” de retornar às aulas presenciais, muitas pessoas, de diversas regiões do estado se manifestaram e vem se manifestando, muitos a favor e, outros, contra o retorno, nesse momento.

Quem se manifesta contra o retorno, evoca questões como a estrutura de internet das escolas (para poder oferecer ensino híbrido), dizendo que os professores têm muito mais capacidade técnica trabalhando em casa, pois as redes de internet dos professores são muito melhores do que as redes das escolas.

Entendo essa questão e, a bem da verdade, muitíssimas escolas não tem mesmo condições de funcionamento das redes de comunicação e informação como deveriam, apesar de tanto governo federal quanto estadual terem anunciando “investimentos” na área.

Ora, sabemos por diversos meios, inclusive por ter feito parte do Conselho Estadual de Educação do Paraná, por seis anos, que a estrutura física das escolas está há muito tempo sucateada, atrasada e em péssimas condições, salvo honrosas exceções.

Li, nas redes sociais, muitas manifestações a respeito dessa questão e, com certeza, não se pode simplesmente ignorar o que pais e professores estão manifestando a respeito da infraestrutura de comunicação, que é fundamental para que o ensino híbrido tenha algum sucesso.

Outra situação manifestada pelos professores e pais, é com respeito à vacinação, pois a alegação é de que os professores receberam a primeira dose e a grande maioria receberá a segunda dose ainda no final do agosto, o que também não pode ser ignorado.

Também a questão dos “protocolos de segurança” ou “protocolos sanitários” recebe muitas críticas. Diz o governo federal que enviou recursos para as escolas para garantir que haja máscaras, álcool em gel, e produtos sanitizantes à disposição da comunidade escolar. Porém, o que se sabe, é que, no fundo, os recursos foram muito pequenos ou quase que inexistentes. E essa é uma preocupação muito grande. Os estudantes precisarão trocar de máscaras pelo menos no intervalo (recreio), pois sabemos que é necessária a troca após duas horas.

Outra questão muito abordada é a do transporte escolar. Essa situação não está clara, talvez por falta de comunicação ou explicação por parte dos gestores, o que poderá ser esclarecido ao longo da semana. Mas é uma questão séria que precisa ser considerada com profundidade.

Como podemos observar, são questões sérias sim, que, a principio não estão bem esclarecidas e, como disse, pode ser apenas falha de comunicação, o que poderá ser resolvido ao longo da semana em curso.

Por outro lado, muitos pais estão considerando que é excelente a volta, inclusive ouvi numa entrevista, uma mãe dizendo que “agora os nossos filhos vão ter as mesmas oportunidades que os alunos da escola privada”. Essa é uma questão preocupante pois, em termos pedagógicos, o processo de ensino e aprendizagem deve e, precisa, ser o mesmo para qualquer rede de ensino, inclusive como direito legal.

A questão da presencialidade é apoiada por muitos especialistas, pois sabemos da importância da troca, do relacionamento interpessoal, do acompanhamento individual do aluno por parte do professor. Pesquisas têm apontado para o grande atraso provocado pela pandemia na questão aprendizagem. Entendo isso e, entendo, também, que a presencialidade é fundamental, e que se os cuidados forem tomados, de fato, os protocolos seguidos a rigor, a responsabilidade de todos se aliarem em prol do aluno, as aulas podem retornar para todos.

Sou a favor do retorno na forma híbrida, responsável, com todos os cuidados, e entendo as preocupações dos que pensam diferente, até porque, em nenhum setor há segurança alguma de não ser infectado.

É uma discussão complexa, pois nem o pessoal que atua na saúde está a salvo e pode se infectar cuidando de pacientes e/ou tendo contado com pessoas da própria família que se infectam porque circulam em muitos locais e dentre estes, muitos desnecessários e que poderiam ser evitados.

Ah, antes que me esqueça, a sociedade precisa entender que, apesar de todas as dificuldades pelas quais todos passamos, os professores, desde o início da pandemia, bem ou mal, fizeram a parte deles.

Muitos compraram por conta própria equipamentos para poder transmitir suas aulas, outros adquiriram equipamentos para poder digitar, digitalizar e imprimir conteúdos para os alunos que não tinham acesso às redes sociais.  Nessa situação, como em outras que o Brasil passa, a culpa não e dos professores, mas daqueles que fazem da educação “palanque político” para se eleger, pense nisso, enquanto lhe desejo boa semana.

Doutor em Educação pela UNICAMP, psicopedagogo clínico-institucional e assessor pedagógico da Faculdade Mater Dei

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