Enfim, é setembro, tempo de retorno

Dirceu Antonio Ruaro

Prezados leitores, no texto da semana que passou, falei da “imprecisão da vida” ou de certa forma, de imprevisibilidade da vida. Sabemos todos nós, que estamos nessa dimensão de passagem. Sabemos que chegamos aqui, alegramos um grupo que se chama “família” e com esse grupo, crescemos e nos desenvolvemos.

A imprevisibilidade da vida é certa, mas certo também é que, em algum momento, estaremos de partida. Se chegamos a esse lugar provisório, dele partiremos.

Mesmo tendo essas referências ou crenças, na semana passada fiz um apela pela vida. Disse aos meus leitores que, apesar da “imprecisão da vida”, precisamos mantê-la e que, nesse momento de pandemia, é necessário tomarmos todos os cuidados para a manutenção dela e, entre eles, o da vacina.

Pois bem, estamos navegando, e chegamos ao mês de setembro. Hora de celebrar o retorno às aulas presenciais que, na grande maioria das redes de ensino está a todo vapor.

Com muitos cuidados, com protocolos de segurança, com recomendações sanitárias, sim, mas com muita esperança e vontade de rever os amigos, de reencontrar o ambiente escolar que deixamos em 2020.

Ainda é difícil fazer um balanço real da situação acadêmica de todos os alunos brasileiros. Mas temos a certeza absoluta e inegável de que houveram muitas perdas.

Imagine as crianças que estavam “prontas” para iniciar o processo formal de alfabetização. Boa parte delas, precisa dos professores, inclusive para aprender a “segurar e manejar” o lápis.

Isso, agora, precisa estar no planejamento dos professores e na preocupação dos pais. Ocorreram perdas, especialmente nos anos iniciais, anos em que a criança necessita da intervenção do professor a todo instante, que, dificilmente serão superadas de imediato.

Sabemos, todos, porém, que ninguém se quer imaginava uma situação de pandeia como a que ocorreu (e ainda está ocorrendo). Tenho dito que, apesar de tudo, os docentes de todas as redes e, todos os níveis de ensino, se preocuparam em fazer e, dar o melhor de si, para manter o vínculo com a escola e, de alguma, forma continuar o processo de aprendizagem.

A adaptação forçada a que fomos submetidos, mostrou que temos de estar preparados para “navegar em águas turbulentas”, também.  As aulas e atividades “remotas” trouxeram muitos aprendizados, tanto para as escolas, professores, alunos e famílias.

Com certeza, a união entre professores e famílias foi responsável por uma perda menor na aprendizagem, se não houvesse esse “laço” certamente, como se diz popularmente, “teria ido o boi com a corda”, ou se quiserem, o desastre educacional teria sido bem maior.

O empenho de cada um dos atores do processo escolar foi que possibilitou minimizar as consequências. As urgências e incertezas que nos cercaram dão lugar, hoje, ao otimismo.  Otimismo sim, mas com precaução. Com cuidados. Mesmo otimista, sabemos que tanto pais quanto crianças, adolescentes e jovens estão exaustos de vivenciar incertezas sem saber como e quando o cenário da pandemia cederá lugar ao retorno definitivo, confiável e seguro.

Apesar de estar otimista, é preciso ter ciência de que o limite entre a segurança, a incerteza e o medo estão muito presentes em todos os estudantes, professores e famílias. É básico ter a noção de que o limiar de resistência ao estresse está menos sólido e ações positivas de acolhimentos, compreensão e relacionamentos interpessoais são indispensáveis.

Por isso os sentimentos de empatia, de esperança, de otimismo devem ser a marca de nossos relacionamentos interpessoais nesse retorno tão aguardado.

Estamos iniciando o mês de setembro. A marca desse mês é o céu azul. Esse azul seja de tranquilidade, de reencontro, de alegrias, de vida nova. Assim como as plantas que renascem e florescem em setembro, seja nosso retorno às aulas presenciais.

Que possamos retomar nossas amizades, reencontrar e reviver nossas esperanças, nossos sonhos, nosso aprendizado. Que as manhãs de setembro nos encontrem prontos para o tal de “novo normal”, nas nossas vidas, e que sejamos, acima de tudo, portadores de alegrias, de certezas de que valeu a pena aguardar pelo retorno, pela retomada da nossa rotina, com todos os cuidados que ainda são necessários, que possamos, relembrando um trecho da letra da música “Manhãs de setembro” do compositor Mário Campanha, olhando para 2020 e agora, possamos dizer:

“Fui eu que na primavera só não viu as flores E o sol
Nas manhãs de setembro/ Eu quero sair/ Eu quero falar/ Eu quero ensinar o vizinho a cantar/ Eu quero sair/ Eu quero falar/ Eu quero ensinar o vizinho a cantar/ Nas manhãs de setembro/ Nas manhãs de setembro/”,  pense nisso, enquanto lhe desejo boa semana.

Doutor em Educação pela UNICAMP

Psicopedagogo Clínico-Institucional,

Assessor Pedagógico da Faculdade Mater Dei