Entre o desejo e o receio da volta às aulas presenciais

Dirceu Antonio Ruaro

Amigos leitores, no texto de hoje quero me dirigir, especialmente, às escolas, pais, professores, crianças e adolescentes que estão retornando às aulas presenciais na nossa região.

Sabemos, todos nós, que a crise sanitária pela qual passamos, deixou todos, pais, professores, gestores, alunos desorientados, ansiosos e com muitos receios. A suspensão das atividades educacionais presenciais, foi, e de certa maneira, um grande choque para todos.

Ter de “reinventar” uma forma de ação foi extremamente complicado pois a educação básica, especialmente nas redes públicas brasileiras, não apresentava e ainda não apresenta, as condições necessárias de equipamentos e preparação do corpo docente para as chamadas aulas remotas (síncronas ou assíncronas).

Todos tivemos que aprender. E a escola, certamente, tentou fazer o melhor que podia dentro das condições e contextos que tinha.

Enfim, chegamos ao segundo semestre de 2021 e, fazendo uma retrospectiva, temos a impressão de que, por melhor que tenhamos feito, perdemos muito.

Os dados oficiais que apresentamos na semana passada, levam a pensar que não se pode mais adiar o retorno. Porém, é claro que, não se pode simplesmente retornar.

Concordo com os pais, professores e alunos que apresentam sentimentos contraditórios nesse momento. E uma das maiores questões contraditórias está entre o desejo e o receio da volta às aulas presenciais.

Um primeiro ponto, sobre o qual precisamos refletir é de que, nesse momento, se avança positivamente o processo de vacinação na nossa região. Nossos professores, grande parte dos adultos da relação escolar, avós, tios, pais estão se vacinando, o que, de certa forma, traz um aspecto positivo.  Evidentemente que a vacina por si só não é garantia de tudo, mas é um aspecto fundamental.

Aliás, falando em garantia, infelizmente, não se pode dizer que haja garantia de nada. O vírus desconhece nossas “garantias”, por isso, além do processo de vacinação, nesse momento, é importante continuar com os cuidados sanitários de distanciamento social, uso do álcool em gel e a máscara. Esses elementos serão nossos companheiros de rotina até que se possa ter a certeza de que a doença esteja controlada.

Nesse retorno, que gradativamente está ocorrendo, temos certeza de que as escolas estão preparadas para receber seus alunos, não da mesma maneira como retornavam das férias, mas com uma experiência vivida que pode ter deixado diversos impactos negativos, não apenas na aprendizagem, mas no desenvolvimento socioemocional causado pelo isolamento social e distanciamento escolar.

Em muitas redes, escolas, famílias e alunos, será agora a primeira experiência do retorno às aulas presenciais durante esse contexto de pandemia.

E, é claro que as equipes pedagógicas e os professores têm consciência de que nesses momentos tão especiais do retorno às escolas, terão de exercitar a “escuta” das experiências pelas quais os alunos e suas famílias passaram. O acolhimento, e a escuta são fundamentais pois nossas crianças passaram por experiências de luto próximas a elas, de familiares, amigos e pessoas conhecidas, e as perdas vividas precisam ser tratadas de maneira especial.

Outra situação que precisa ser compreendida é que a rotina familiar foi alterada imensamente. De repente, em 2020, muitos descobriram suas famílias. Costumo “brincar” dizendo que muitos pais descobriram que tinham filhos e muitos filhos descobriram que tinham pais e irmãos. Ou seja, houve uma alteração enorme na rotina familiar e agora, com o retorno às aulas, esse processo se repete e isso causará outros impactos na vida de cada um.

Haverá, certamente, um período de “readaptação” à convivência familiar e escolar, que não pode ser ignorado. E, é, nesse sentimento de mudança que se encontra o maior receio das crianças e adolescentes. A “casa”, a “família”, o convívio restrito, fornecia uma imagem de “segurança e proteção” e, muitas crianças e adolescentes têm medo de perder essa “segurança”.

Além desse receio, permanece muito grande o medo da doença, da contaminação. Sabemos que o medo que os adultos manifestam no círculo restrito de suas casas, influencia diretamente nos sentimentos das crianças e adolescentes. E, toda a insegurança e ansiedade que sentem em casa, manifestarão na escola, de diferentes maneiras.

Por mais que as autoridades sanitárias e os gestores escolares expliquem e assegurem que há protocolos que “garantem segurança”, há o receio da contaminação, fato perfeitamente compreensível, pois quem passou pela experiência sabe a dor e o desespero que isso traz.

Os pais, os gestores, devem demonstrar aos alunos que o ambiente escolar é seguro, que está preparado, mas que é necessário que todos, inclusive eles, façam sua parte, evitando aglomeração, usando máscara, seguindo as orientações dos professores.

Os pais são fundamentais nesse momento, e devem agir como grandes aliados da escola, mesmo que também tenham receios. Se os pais agirem demonstrando segurança e zelando pelos protocolos, recomendando aos filhos que façam a parte deles, será mais fácil e mais cedo sairemos dessa situação desoladora e dolorida, mas para isso, temos todos de agir no sentido de contribuir com as autoridades sanitárias, tomando a vacina, mantendo distanciamento social, usando máscaras, enfim, sabendo que temos de ter esperanças, precisamos estar juntos fisicamente nas escolas e em casa, mas precisamos agir com precaução e responsabilidade, pense nisso, enquanto lhe desejo boa semana.

Doutor em Educação pela UNICAMP, psicopedagogo clínico-institucional e assessor pedagógico da Faculdade Mater Dei

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