Rosel Antonio Beraldo e Anor Sganzerla

Todas as grandes religiões possuem sim de um modo ou de outro, muitos tesouros sejam eles em forma escrita, na arte e também naqueles que as difundem mundo afora, são sim verdadeiros patrimônios da humanidade que ultrapassam toda e qualquer linha temporal; para os cristãos católicos em especial, o mês de setembro é todo ele consagrado à Bíblia, uma joia cujo valor jamais poderá ser calculado à altura por quem quer que seja. A Bíblia é antes de mais nada um conjunto de livros que pode ser lida por qualquer pessoa em qualquer parte do Planeta, a qualquer hora do dia ou da noite, já foi traduzida para todas as línguas que se tem conhecimento; como toda obra de arte, ela não nasceu pronta, foi sendo confeccionada aos poucos, os grandes estudiosos desse conjunto magnífico nos relatam que ela levou mais de mil anos para ficar pronta, trabalho humano e também divino.

Para ela chegar até nós hoje, a Bíblia envolveu e ainda envolve um grande número de pessoas, pensemos então nela em seus primórdios quando as condições de vida eram completamente diferentes do que se tem hoje, um mundo bem distante da nossa realidade, pessoas com hábitos e costumes muito diversos, uma geografia de enormes contrastes, enfim uma diversidade monumental onde se mesclam fé, política, religião, disputas por vezes violentas entre nações, pessoas que se tornaram muito populares até os dias de hoje. Esse incrível mosaico de alta complexidade, apesar de estar ao nosso alcance num clique, se somos coerentes, chegamos à conclusão de que ele leva muito tempo para ser devidamente compreendido; no mundo veloz hoje, muitos sentem a dificuldade tremenda em internalizar a sua mensagem, lê-la então parece ser algo muito distante ou impossível.

Como dito pouco acima, a Bíblia foi traduzida para inúmeras línguas, mas para que isso acontecesse teve alguém por primeiro que se empenhou nessa tarefa gigantesca, seu nome: Jerônimo, nascido entre 331-347 da nossa era, mente privilegiada, conhecedor do hebraico, latim e grego desde cedo; hoje se sabe com certeza que foi exímio escritor, deixou obras importantes de filosofia, bem como de teologia, seu campo abrangeu ainda a retórica, a gramática e a história. Jerônimo ansiava por dar uma resposta em termos de Bíblia para a sociedade do seu tempo, convidado pelo papa Dâmaso, embrenhou-se na monumental tarefa de traduzir para o latim as Sagradas Escrituras, que por fim recebeu o nome de Vulgata; tal trabalho consumiu praticamente sua vida inteira, só parando mesmo quando da sua morte em 420; até o seu último dia, sua competência e amor ao trabalho foram únicos.

Haveria nesse conjunto, um livro mais importante? Como ler a Bíblia? Há um método eficaz de começar e não parar mais a sua leitura? Ela nos diz algo para os dias atuais? Não estaria ela ultrapassada em meio a tanta tecnologia em nosso cotidiano? Pode-se confiar nela inteiramente? Esses e outros tantos questionamentos aparecem com muita frequência nas pessoas do século XXI. Todos os seus livros são importantes, do primeiro ao último, mas para descobrir toda a sua riqueza, requer-se um primeiro passo, isto é, começar a lê-la, ao longo do caminho muitas dúvidas surgirão e até mesmo o cansaço mental fará parte dessa aventura, algo normal como em qualquer outra atividade, muito do que se passou lá atrás acontece hoje, apenas com algumas diferenças; enfim a Bíblia jamais quer nos assustar como ingenuamente pensam e falam alguns, ela é um rico e inestimável tesouro.

Nosso mundo carece hoje de uma boa leitura, em especial daquelas que nos levem para o encontro com o Sumo Bem, muitos querem encontrar na Bíblia aquilo que ela não diz, muitos inclusive forçam a barra, ou seja, colocam no texto sagrado coisas totalmente despropositadas, sem nexo, o que muito atrapalha a caminhada de cada um e até mesmo em alguns casos o afastamento completo da pessoa para com a Bíblia. Não raro vê-se uma profundidade rasa em assuntos bíblicos, pessoas pouco ou nada conectadas com a realidade bíblica “palpitando” sobre assuntos que já foram amplamente estudados ou ainda estão sob investigação criteriosa de grandes estudiosos da área; nada, entretanto nos impede de termos um contato diário com ela, num mundo em que se gasta energia, tempo e dinheiro em tantas futilidades, ter a Bíblia diante da mente e do coração já é um começo.

Bioeticamente, a Bíblia no seu conjunto todo pode nos iluminar em muitas questões contemporâneas que assolam a humanidade, especialmente quando se trata da resolução de questões infamantes que muitos julgavam não estar mais presentes entre nós, incomoda o fato de muitos afirmarem categoricamente que seguem à risca os preceitos bíblicos, mas quando olhados mais de perto pelas lentes nuas e cruas das realidades à nossa volta, notamos claramente uma divisão profunda entre o ser real e o ser ideal dos “seguidores da palavra”. A Bíblia não se presta a fazer o mal, embora a história nos mostre que muitos que a seguiram ao pé da letra e diziam ser portadores da salvação eterna, fizeram coisas terríveis em seu nome; hoje mais do que nunca as pessoas precisam de um norte em suas vidas, isso é claro em todas as partes; num momento em que se precisa de ânimo, coragem, inspiração e sobretudo esperança, isso tanto para os sãos quanto para os doentes, a Bíblia é ferramenta valiosa, nela está o Senhor da História, basta procurarmos Ele com atenção.

Rosel Antonio Beraldo, mora em Verê-PR, é Mestre em Bioética, Graduado em Teologia pelo ISTA-BH e Especialista em Filosofia pela PUC-PR; Anor Sganzerla, de Curitiba-PR, é Doutor e Mestre em Filosofia, é professor titular de Bioética na PUCPR