Não só direitos, mas novos deveres

Rosel Antonio Beraldo e Anor Sganzerla

Na esteira dos vários acontecimentos nada acontece ao acaso e se não tivermos um olhar amplo para todas as direções corremos o risco de ficarmos perdidos no labirinto criado por nós mesmos, assim como podemos perder a nossa já parca sensibilidade em relação aos demais seres humanos que habitam conosco o mesmo Planeta; não menos verdade é o fato corrente que de uns tempos para cá alguns com ideias totalmente fora da realidade tem se arvorado em questionar a legitimidade de que as pessoas são portadoras de direitos onde quer que elas se encontrem, o cenário global não é dos melhores para ninguém, em especial para os mais vulneráveis, há uma insistência muito grande em se criminalizar certas situações, assim como as pessoas que estão por trás dessas situações; a defesa da vida já não parece estar na ordem do dia e muito menos da consciência humana no todo.

Os infindáveis direitos humanos fazem parte do nosso cotidiano, peças integrantes do sistema vida e dos quais não podemos e muito menos devemos nos esquivar, o cenário mundial atual não poderia ser melhor para se trazer esse tema à tona, se até agora viver foi um desafio, daqui para frente diante da crise viral e outras que poderão surgir, viver não será tão simples como alguns ingenuamente ainda pensam, falam e escrevem a respeito. A humanidade só terá êxito em sua tarefa se realmente levar em conta o outro e as diversas facetas que esse outro assume perante mim e o mundo; pensar os direitos humanos apenas tratando eles como fazendo parte de pessoas encarceradas é cair num reducionismo ingênuo e barato, uma visão extremamente míope da realidade total; de certa maneira todos e todas vivemos presos, carentes de que os direitos humanos se efetivem.

Quando foram instituídos em 1948, os direitos humanos olhados apenas pelas lentes da individualidade, não resta nenhuma dúvida de que foram concebidos para proteger única e exclusivamente ele, ou seja, o próprio ser humano, aspiração essa sem dúvida alguma legítima, principalmente pelo que o mundo havia sofrido até o ano de 1945 e que todos deveriam saber muito bem. No papel, tal declaração parece encarnar a perfeição de um mundo que jamais veria novamente as tragédias mais inomináveis que assolaram o mundo em diferentes épocas; os redatores de tal declaração imbuídos das melhores intenções, mas apenas observando o pequeno mundo ao seu redor, esqueceram que o todo era muito maior do que aquela parte a ser analisada por eles, esqueceram que às margens ficaram muitas situações desoladoras e com potencial para se renovarem e voltarem a assombrar.

Mais de sete décadas depois, esses direitos humanos têm sido alvo de frequentes ataques, em muitas situações os ativistas que os defendem correm um sério risco de vida, uns vão para a prisão, outros são caluniados e difamados ao extremo, procuram-se por todos os meios jogar na lama o nome dessas pessoas; fazer cair no esquecimento os direitos humanos, bem como aqueles que levantam a sua bandeira é outra arma poderosa que tem ganhado muito apoio aqui e acolá nos últimos tempos. Não podemos esquecer que os direitos humanos dizem respeito a todos e todas, principalmente quando habitamos o único mundo possível, tão pluralista, tão heterogêneo e mais ainda, tão desigual; quando nos debruçamos sobre a aventura humana na Terra, não podemos negar que foram violados direitos de todas as etnias, de todas as religiões, de toda e qualquer opção política.

Recentemente Boaventura de S. Santos, nos brindou com uma instigante reflexão que sintetizada diz que a sociedade na qual estamos embutidos, precisa de modo urgente rever seus conceitos como a incipiente e mal fundamentada crença na pós-verdade (aquela invenção mal resolvida, de que “eu” penso, ajo, mando e desmando segundo os meus ditames). Depois de setenta anos, aos direitos humanos daquela época, hoje se faz urgente inserir outros mais, ainda com mais tenacidade precisa-se bradar aos quatro cantos que a vida, assim como todas as instituições que a defendem correm perigo de serem cada vez mais objetificadas, forçadas a abdicarem naquilo que acreditam para se dar vazão a apenas e tão somente um modelo de existência; àqueles mal resolvidos defensores pela baixa estima aos direitos humanos só podemos continuar dizendo que eles são sim a prioridade.

Bioeticamente, a comunidade global caminha para uma outra etapa da sua história, para muitos, desafiadora, inesperada e sem uma segurança digna do caminho a ser percorrido, esse é o preço que ora nos é cobrado pelo excesso antropocêntrico até então usado e abusado; uns demais, outros de menos e todos do maior ao menor envolvidos pelos mesmos fantasmas por nós criados, entre eles a técnica e as suas armadilhas nas quais caímos facilmente, o meio ambiente e as suas frequentes e cada vez mais intensas crises, a falta de representatividade governamental em todos os parâmetros da vida, os modelos de vida a serem adotados, vindos de cima para baixo que muito nos afastaram da Mãe Terra, tornando-nos inimigos quase que irreconciliáveis. É no caos por nós mesmos criado que surgirão as pistas para nos recuperarmos como seres humanos perante a vida em geral; na existência humana infelizmente a marcha ré não existe, assim como o tempo perdido em frivolidades não voltará jamais; com as armas que temos precisamos caminhar.

Rosel Antonio Beraldo, mora em Verê-PR, Mestre em Bioética, Especialista em Filosofia pela PUC-PR; Anor Sganzerla, de Curitiba-PR, é Mestre e Doutor em Filosofia, é professor titular no Mestrado de Bioética na PUCPR