Rosel Antonio Beraldo e Anor Sganzerla

A sociedade contemporânea, mais do que qualquer outra noutros tempos buscou tanto a sua independência sob as mais variadas formas e objetos, de um modo infatigável se propôs a eliminar toda e qualquer barreira do seu caminho, perder o passado não é mais para ela algo que seja realmente considerado de valor, seu vetor supremo reside única e exclusivamente na razão, sua base de apoio é a técnica, tendo como centro de tudo o ser humano, ser esse dotado de aparatos instigantes, que são capazes de levá-lo num instante à qualquer esfera que ele deseje e num curto espaço de tempo. A sociedade moderna rompe de vez com qualquer tipo de controle, a palavra de ordem agora é viver o que ainda não chegou, temos os meios para conseguir isso, criam-se desejos infindáveis com truques de dar inveja; a pressão gera uma busca sem fim para se ter tudo, temer não faz nada bem.

Não paramos nunca para pensar que o mundo criado pelos experts é para ser olhado e admirado de cima, no silêncio total dos humanos reina aquele prazer infindável, são tantas as verdades, que elas sufocam a tudo e a todos sem meias palavras, entre tantas escolhas a serem feitas, escolhe-se aquela que se julga ser a melhor pelos próximos cinco minutos, é o pânico vindo de cima dizendo que cada um é obrigado a escolher, não importa o preço. Com a maior sinceridade possível nega-se a realidade circundante e acredita-se quase de joelhos naquilo que se sabe muito bem ser falso e efêmero por mais belo que se apresente, justamente na escuridão mais doentia pela qual o mundo passa, olhos famintos estão à espreita para devorarem os mais incautos; no reino da técnica desenfreada qualquer espirito aventureiro é convidado a ir a lugar nenhum, as estradas dos sonhos só têm retas.

A sociedade contemporânea movida pelos automóveis, até pouco tempo atrás não precisava dar razão nenhuma para encher cada vez mais as ruas com as mais belas marcas e suas velocidades cada vez maiores, mesmo que as ruas não representem o modelo ideal de se andar a todo vapor; não são poucas as patologias que foram sendo criadas ao longo do tempo, tudo em nome de se ter um carro em detrimento de qualquer meio de transporte público, ter um carro sempre foi um sinal de status, com ele muitos acreditaram que só assim teriam a felicidade completa, por isso aquela máxima tão badalada de não se ter limites para sonhar. Toda esperança depositada num carro sempre foi aquela de que ele resolvesse de uma vez por todas os nossos mais insignificantes desejos; a propaganda automobilística promete demais, mas em contrapartida realiza muito pouco ou quase nada.

É urgente hoje rever os conceitos de automóvel, bem como o de trânsito em geral e mais ainda a promoção de outros meios de transporte, sabemos bem o desastre que foi proporcionado a todos quando se resolveu apostar tudo somente nos automóveis em mãos de particulares, qualquer pessoa minimamente informada vai ressaltar que as estradas em geral, assim como as ruas de nossas cidades não tiveram o mesmo desenvolvimento que os automóveis, enquanto os segundos tiveram e têm cada vez mais toda uma logística à sua disposição, as primeiras sofrem constantemente por falta de recursos, descaso e abandono. Quantas e quantas mortes não poderiam ter sido evitadas se desde o início houvesse uma preocupação séria com todas as pessoas envolvidas nesse processo; triste realidade de uma sociedade que apenas olha para o lucro, em detrimento absoluto da vida.

A mobilidade urbana já dá ares de estar passando por grave crise, além das tantas outras existentes, a satisfação prometida pelo automóvel é quando muito modesta, a felicidade com ele pode ser sim alcançada, mas o preço que se paga por ela é muito grande, se forem colocados lado a lado os prós e os contras ver-se-á que a segunda parte sairá vencedora, a miséria pública diante da realidade avassaladora fica evidente; tantos carros nas ruas, simplesmente aumentaram os problemas das cidades e também dos cidadãos. Superar a era do automóvel individual é desafio gigantesco, teremos que resolver ainda mais urgentemente toda a poluição que eles deixam, as ondas de calor que proporcionam, acidentes fatais todos os dias, preços abusivos para algo que envelhece precocemente e de modo deliberado, mais uma vez a sobrevivência de cada um está no centro do debate.

Bioeticamente, não resta dúvida que o automóvel é um dos maiores ícones de todos os tempos, todo um culto foi arquitetado ao seu redor, assim como a vida foi sob todos os ângulos direcionada para ele, poder, satisfação, domínio, conforto, achaques de estrelismo são apenas alguns dos tantos desejos que ele desperta em cada um, mas não podemos deixar que a realidade tingida de raios luminosos encubra verdades incômodas que o automóvel carrega consigo, principalmente num tempo em que tudo precisa ser revisto: os carros continuarão a existir não resta dúvida, há muitas previsões mas nenhuma pode ser levada muito a sério. Um carro pode nos dar saúde, mas também pode nos deixar doente de diversos maneiras, nossas cidades estão recheadas de asfalto, lixo, violência e crimes produzidos pelo automóvel, crimes muitas vezes sem solução, quando na verdade se sabe bem quem são os culpados; na era das epidemias programadas, não será demais tomar cuidado com a do automóvel, ele é um pirata, isto é, não tem bandeira, muito menos pátria.

Rosel Antonio Beraldo, mora em Verê-PR, Mestre em Bioética pela PUCPR, Especialista em Filosofia pela PUC-PR; Anor Sganzerla, de Curitiba-PR, é Doutor e Mestre em Filosofia, é professor titular de Bioética na PUCPR