Padre Judinei Vanzeto

Ao finalizar o primeiro semestre de 2021, proponho uma reflexão sobre felicidade a partir da filosofia epicurista. Epicuro (341 – 270 a.C.) nasceu em Samos e mais tarde foi para Atenas, na Grécia, onde instituiu a primeira escola helenística denominada de Jardim. A sua proposta filosófica era diferente daquela praticada por Platão e Aristóteles na Academia e no Liceu. Epicuro vivenciou a decadência da pólis (cidade) grega. O ideal do homem-cidadão, tão defendido por Platão e Aristóteles, fora abandonado. A política não era mais o centro, e a ética ganhou espaço.

A preocupação epicurista passou a ser o homem e sua felicidade. Desse modo, Epicuro afirma que “se nunca tivéssemos sido perturbados pelo temor dos fenômenos celestes, nem pela suposição de que a morte pode nos afetar, nem pela incompreensão dos limites das dores e dos prazeres, não precisaríamos estudar a ciência natural”. Isso quer dizer que sem conhecer a natureza (o mundo é composto de átomos − o nascimento de algo significa a agregação de átomos e a morte, sua desagregação) não poderíamos desfrutar da paz de espírito e da felicidade. Para garantir, então, a felicidade, Epicuro propõe o quádruplo remédio acessível a todos (homens, mulheres, escravos etc.). Os quatro remédios são: os deuses não são temíveis; a morte não traz riscos; não é difícil atingir o bem nem suportar o mal com coragem.

Os quatro remédios respondem às quatro principais causas da infelicidade humana: temer a cólera dos deuses; apavorar-se diante da morte; escolher mal os objetos de desejo e angustiar-se ante o sofrimento. Para resolver esses problemas, propõe uma terapia em duas etapas: a primeira contém os dois primeiros remédios e a segunda, os dois últimos. Os dois primeiros são dirigidos ao intelecto, na tentativa de esclarecer terapeuticamente que não são os deuses, mas os átomos, que regem o Universo; e que a morte nada mais é do que a separação dos átomos que compõem todas as coisas. Segundo Epicuro, não há razão por que temer a morte, pois se enquanto nós somos, ela não é, e quando ela passa a ser, nós não somos mais. O terceiro e o quarto remédios são éticos: ensinam a lidar com o prazer e com a dor.

De acordo com essa lógica, aqui não existe uma identificação da felicidade com o prazer desenfreado. A felicidade tem a ver com o verdadeiro prazer, que consiste na ausência de dor no corpo e na falta de perturbação na alma. A norma da vida moral no Jardim não é o prazer como tal. É a razão que julga e discrimina entre os prazeres, escolhendo aqueles que não comportam dor e perturbação e descartando aqueles que dão gozo momentâneo, mas trazem consigo dores e perturbações.

A sociedade vive a era do prazer. Quais prazeres trazem felicidade? Sem dúvida, precisamos procurar sempre distinguir os prazeres portadores de felicidade dos ilusórios, como são todos os que derivam da ostentação da riqueza, da exibição insolente, do luxo vulgar, do culto às mesquinhas divindades de nosso tempo, como, por exemplo, o consumismo, a moda, o dinheiro, o sucesso individual. Para cada um desses ídolos, o epicurismo propõe um remédio: a solidariedade, a amizade, a lucidez serena, o prazer profundo e radical de estar vivo, inseparável da coragem de sofrer e de saber que a morte é inevitável.

Para finalizar, Horácio, o maior poeta romano e seguidor de Epicuro, celebrizou a máxima “carpe diem” (aproveite o momento e a oportunidade), que significa cuidar de cada dia de nossa vida como de um poema ou de um jardim, isto é, viver diariamente com moderação os prazeres (da comida, da bebida, da sexualidade, do dinheiro, do sucesso) e preocupar-se com a felicidade nessa vida.

Jornalista, diretor administrativo da Rádio Vicente Pallotti, gestor da Unilasalle/Fapas Polo Coronel Vivida e pároco da Paróquia São Roque de Coronel Vivida-PR

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.